Já com os grupos definidos, começará a maior competição europeia em nível de clubes nesse mês de setembro.
Aqui faço, como de costume, uma análise dos grandes clubes europeus que estarão participando.
1-Inter Milan (Itália): o atual campeão perdeu o seu grande mentor, o português Mourinho e começou a temporada com alguns tropeços que podem ser considerados normais considerando um princípio de novo trabalho. Sem reforços de peso, o time que ganhou tudo na temporada passada segue sendo forte candidato a chegar à final.
2-Lyon (França): o time francês mais vencedor da última década mais uma vez não investiu em reforços. Não deve realizar uma campanha superior a passada quando eliminou ao esquizofrênico Real Madrid. No entanto estão em um grupo muito acessível que devem vencê-lo.
3-Benfica (Portugal): depois de muitos anos sem ganhar o campeonato local, o clube mais popular da terrinha levantou o caneco ajudado principalmente por seus jogadores sul-americanos Aimar, Saviola e Cardozo. Apostando mais uma vez em argentinos, seu principal reforço foi Gaitán, jovem revelação do Boca Juniors. Começaram a temporada com muitos tropeços e acredito que não passarão da primeira fase.
4-Manchester U (Inglaterra): seguindo a linha de retração no mercado, o time de Ferguson não abriu a carteira e apenas contratou o jovem atacante mexicano Hernandez. Scholes vem sendo o grande destaque do time e Rooney ainda não conseguiu superar seus dramas pessoais e não vem sendo nem sombra do monstro que foi na temporada passada até a fatídica participação na Copa do Mundo. No entanto, o tempo e a experiência de Sir Ferguson deverão ajustar o time e a cabeça de Rooney e serão, como sempre, fortes candidatos.
5-Barcelona (Espanha): neste que é um dos melhores times de futebol de todos os tempos, poucas peças serão mudadas. Saiu o mercenário Ibra que jamais esteve confortável no time catalão e chegou David Villa, um dos grandes nomes da Copa juntamente a Mascherano que substituirá a Yaya Touré. Faltou mais uma vez a concretização do sonho de trazer um de seus filhos prodígios de volta a casa, pois Fabregas, mais uma vez, postergou sua iminente ida ao time de seus amores que o viu nascer para o futebol. Com essas duas mudanças e confiando mais uma vez nas genialidades de Busquets, Xavi, Iniesta e Messi, o Barcelona é o meu grande favorito a ser campeão.
6-Bayern Münich (Alemanha): os bávaros mais uma vez chegam à maior competição do Velho Mundo como grandes forças do continente. O maior clube do mundo conta com grandes individualidades, muitas delas ainda mais confiantes e valorizadas depois de grandes performances na Copa e também com um técnico que tem experiência. É um dos times com mais craques no elenco se considerarmos nomes como Lahm, Schweinsteiger, Ribery, Robben e Müller. Forte candidato.
7-Marseille (França): depois de ter gastado o que tinha e o que não tinha em temporadas passadas, o maior clube francês conseguiu o objetivo de voltar a levantar a taça de campeão local. Não chegaram reforços, mas o grupo é forte e tem o respaldo da recente conquista. Além disso, caiu em um grupo acessível onde deverá terminar com a segunda vaga.
8-AC Milan (Itália): o clube de Berlusconi demorou para ganhar as notícias, mas, no último dia da janela de transferências anunciou a bombástica contratação de Ibrahimovic, ex-ídolo do maior rival milanista, a Inter Milan. O AC Milan começou bem no Calcio e aposta em um quarteto ofensivo com o sueco mais Pato, Robinho e Ronaldinho e também confia em um experiente colombiano que finalmente terá uma chance em um gigante europeu, Yepes. O ponto negativo para os rossoneri é o grupo complicadíssimo que conta com outras duas potências do futebol mundial, o Real Madrid e o Ajax. Mesmo assim, deve classificar.
9-Real Madrid (Espanha): a bonança financeira do time da capital espanhola sempre mexe com o mercado e torna o elenco merengue um dos mais visados em qualquer competição. Dessa vez chegaram Di Maria, Khedira, Ricardo Carvalho e Özil, nada se comparado às contratações da temporada passada. No entanto, o que gerou mais comoção no Santiago Bernabeu foi a chegada de Mourinho, o homem campeão de tudo e que promete colocar o maior clube do país de volta ao seu lugar. A Champions League é a competição mais importante, mas desbancar o grande rival Barcelona talvez seja um objetivo ainda maior ao time de Florentino Pérez.
10-Ajax (Holanda): o maior clube holandês volta, depois de cinco anos, à fase de grupos da maior competição europeia. No confronto eliminatório contra o Dinamo de Kiev mostrou ser um time apenas médio e que não deve ir muito longe na competição ainda mais que caiu em um grupo complicadíssimo. Sua grande arma é o atacante uruguaio Suárez que vive um momento espetacular e também tem a segurança de Stekelemberg, fundamental na conquista da vaga contra os ucranianos.
11-Arsenal (Inglaterra): o time de Arséne Wenger sempre gera grandes expectativas, pois é, depois do Barcelona, o time que melhor trata a bola no mundo. A filosofia do time londrino segue a mesma, apostando em jogadores jovens como Walcott que começou a temporada de maneira brilhante até lesionar-se mais uma vez. O novo atacante Chamack também vem dando boa resposta e o início de temporada faz com que seus torcedores se iludam como uma nova grande campanha europeia.
12-Partizan Belgrado (Sérvia): sei absolutamente nada sobre o atual time do Partizan.
Meus palpites quanto aos classificados da primeira fase em cada grupo:
Grupo A: Inter Milan e Tottenham;
Grupo B: Lyon e Schalke;
Grupo C: Manchester U e Valencia;
Grupo D: Barcelona e Rubin Kazan;
Grupo E: Bayern Münich e Roma;
Grupo F: Chelsea e Marseille;
Grupo G: AC Milan e Real Madrid;
Grupo H: Arsenal e Shakhtar Donetsk.
terça-feira, 14 de setembro de 2010
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Tempos Aqueles
O meu único colunista tem seus momentos de nostalgia e cafonice. Leio apenas um colunista. Todos os dias. Juremir Machado da Silva é o escolhido por sua ironia, sarcasmo e inteligência. E Juremir de vez em quando cai em uma espécie de depressão nostálgica. Diz que, escutando Roberto Carlos com suas “emoções” relembra dos tempos de sua Palomas, pequena cidade localizada perto de Santana do Livramento. É cafona? É; no entanto, há momentos em que somos todos dominados por essa nostalgia, essa saudade do passado.
Pois eu hoje estou nostálgico. Faz frio úmido e chove sem parar em Porto Alegre. Para pessoas normais, um clima perto do insuportável; no entanto, é o meu preferido.
Sinto mais falta de Ipanema do que Porto Alegre; sinto mais falta da Ipanema de minha época de criança do que a Ipanema atual e de Porto Alegre.
Na minha infância um dia assim, de frio intenso e chuva, seria para reunir-se com os amigos em casa e jogar International Super Star Soccer durante toda a tarde.
Qualquer ameaça de diminuição da chuva era motivo para uma batida de bola na rua. No
entanto havia o nosso amigo Rique que sempre - parecia que esperava esses dias - nos convidava para jogar bola em seu campinho ao lado de casa.
Três para cada lado, barro e muita água acabavam com um par de tênis e uma prenda de roupas inteira. A situação era tão caótica que tentávamos dizer não, mas não adiantava, o poder de persuasão do amigo e a paixão pelo futebol eram tão grandes que lá acabávamos a noite, não importando se já havíamos tomado banho e os tênis eram novos. Lá estaríamos. Felizes.
Ipanema era como uma pequena cidade do interior dentro de uma grande cidade. Nossa Passárgada. Os mais antigos, quando tinham que ir ao centro ou qualquer outra zona da cidade diziam que iam à “cidade”. Ipanema não fazia parte da cidade. Ipanema tinha e ainda tem estabelecimentos que não fazem parte da atual sociedade. O mercado do Alberto que não tem nome era um exemplo. Lá íamos e não pagávamos, anotávamos em um caderno e, ao final do mês, nossos pais pagavam. Muitos picolés e refrigerantes durante o verão, muitos chocolates e bombons durante o frio do Pampa.
O bar do Turíbio também é outro elemento bizarro do bairro. Aos fins de semana havia o famoso churrasco do velho Turíbio. Ia quem queria, comia-se muito e bem e, ao final, quem quisesse pagar, pagava. O almoço do dia era feito pela velha esposa do velho Turíbio, mais conhecida como “Robocop” por seu caminhar robótico causado pelo reumatismo. Não havia cardápio nem opções. Comia-se o que tinha na casa, o que a família comeu.
Nossos dias mantinham surpresas. Nunca sabíamos o que iríamos fazer. Claro, a rotina estava de certa forma presente. Durante a semana, após o colégio, era questão de minutos para que chegasse a minha casa o meu irmão que não morava comigo. De dentro do meu quarto o via chegar. O portão não era trancado, assim que eu não precisava nem me levantar para abrir a porta. Chegava ainda de uniforme do colégio catando tatus do seu adunco nariz. Entrava, nem dava oi. Pegava um controle e jogávamos um pouco de International até a comida baixar ou então olhávamos os gols da rodada.
A única coisa que sempre tinha sem falta e não importando o clima era futebol. Ao final da tarde, estávamos sempre famintos como dragas. Nada como um convite do meu pai para irmos comer no Número 1 Lanches, uma lancheria que servia uma imensa a la minuta que depois se transformou em discoteca de marginais e hoje é uma loja que vende colchões.
Nos fins de semana pelo menos tentava dormir até tarde. Como não havia aula, a chegada de meu irmão era sentida por volta das 8h. Soava a batida da bola na parede exterior de meu quarto. Ele simplesmente não respeitava. Não se alterava ao ponto de tocar a campainha: Ficava lá, no pátio, batendo bola e esperando seus companheiros mais preguiçosos levantarem para um dia integral de diversão.
A sucessão de disputas de International não pode ser ignorada em um texto sobre a infância. Acho difícil que, no mundo, alguém tenha jogado mais e melhor do que nós dois esse jogo. E não era apenas um jogo de vídeo-gueime, eram verdadeiros embates.
Havia os clássicos como meu pai contra Ângelo, talvez o maior entre todos os clássicos. Se o segundo marcava um gol muito cedo, o primeiro resetava o jogo sem nem olhar para o adversário que não reclamava. Cada um com suas peculiaridades. Meu pai com times europeus sem jogadores negros e que prezavam a organização tática e a defesa; Ângelo sempre louvando as sub-raças ia de México ou algum time africano; eu, sempre demente e organizado, ia revezando e só trocava de time após uma derrota; anotava com que time ganhava mais. Adorava jogar com a Coreia do Sul porque o time era bom e porque meu maior rival detestava e segue detestando raças orientais.
O nosso mundo era basicamente quatro quadras. Não tínhamos muito interesse em saber o que passava fora de nosso território, território esse que tinha inimigos, claro. Poucas vezes saíamos dessas fronteiras. Comprar botões na Ipanemy exigia um deslocamento maior, bem como a interminável viagem até a AABB que era uma espécie de outro continente. Felizmente havia as bicicletas, nosso meio de transporte por vários anos.
Outro fator marcante dessa época era a ausência de dinheiro, papel moeda. Simplesmente não nos interessava. De vez em quando comprávamos alguns botões como citei anteriormente, mas dinheiro nunca foi tema em nossa infância. Um ou dois reais eram suficientes para subornar os testas-de-ferro da SABI para que nos deixassem jogar à luz de boate e deu, não era mais necessário.
A organização populacional masculina do bairro era simples. Dentro do meu terreno, meu avô, meu pai, Galo e eu. Duas quadras à direita, meus outros três irmãos que não moravam comigo. Uma quadra na diagonal, a casa do Bruno, outro ponto de encontro e centro de diversões comandado pelo carisma e o sempre inalterável bom humor da tia Loiva, a matriarca da casa e das pessoas mais queridas por todos na nossa rica infância.
Meu vô era talvez o maior personagem do bairro. Um velho demente, fumante inveterado e tomador de cerca de dois litros de leite diários. Tomava cerca de 40 cafezinhos por dia e, de café da manhã, ia de chuleta com ovo frito acompanhado de uma paint de leite cru. Brincalhão, o que mais gostava na vida era ver a gurizada atormentando na casa. Protegia o mais fraco e adorava ao de pior caráter. Muitas vezes, devido à presença de seus Ray-Ban de lentes verdes, não sabíamos se ele estava acordado ou dormindo quando sentado no avarandado ou nos canteiros. Nos almoços de domingo, era o dono da festa e o rei da brincadeira de servir bebida a todos e deixar Ângelo de copo semi-vazio. O pior é que a brincadeira milenar jamais perdeu a graça. Somente o meu velho que, implicante com o Hector, resmungava para ele mesmo: “trouxa...”
Devido ao clima receptivo e amistoso de minha casa, por lá passávamos a maior parte do tempo. Na casa de meus outros irmãos reinava mais a disciplina, algo que jamais suportamos e que nos fazia comportar um pouco mais. No verão, passávamos por cima da disciplina e desfrutávamos da piscina pelo menos bem como de alguns churrascos ao meio-dia de domingo vendo jogos do Campeonato Italiano sendo narrados pelo Silvio Luiz na eterna televisão bege do Tergolina.
Na minha casa também havia temporada de piscina com direito a concurso de pontas. O juiz, sempre ele, Hector, de Ray-Ban, cigarro em punho, pele de jacaré torrada pelo sol e que chegava ao ponto de cochilar até dentro d´água. O velho Heitor aproveitava sua posição privilegiada de dono da lei e favorecia clamorosamente a Galo, o menor de todos. Dez com louvor era a nota mais recebida pelo esquálido Garni Zé.
Muitas pessoas nos remetem à infância, mas também alguns aromas e lugares me fazem pensar nos tempos já distantes. O cheiro de goiaba é algo que de imediato provoca no meu cérebro uma reação de nostalgia. Todos os verões era o mesmo cheiro forte de goiaba podre no chão seco com um sol implacável que catalisava o alcance de seu aroma. O curioso era que, a exceção do excêntrico Pablo e desde que minha avó parou de fazer doces e chimias de goiaba, ninguém mais as consumia. Tudo acabava podre no chão sendo desfrutado apenas pelos pássaros de gostos alimentícios ecléticos durante o dia e pelas terríveis gangues de gambás noturnos.
Outras frutas menos olorosas também tinham sua época. As uvas pretas que na verdade eram roxas e as rosas que de fato eram rosa quase ruíam as estruturas de nossa parreira. Comíamos uvas de diferentes formas, desde os cachos refrescados por um período na geladeira, até cucas e suco, muito suco. Dificilmente um estômago humano aguentaria a quantidade de litros que consumíamos durante os calorosos primeiros meses do ano. O calor escaldante era convidativo para um cacho de uvas frescas na beira da piscina.
Outras frutas de sucesso e de presença constante eram os maracujás e os abacates. Os primeiros coloriam de amarelo dois ou três pés e também, assim como as uvas, eram fonte de inesgotáveis toneladas de litros de suco. Já os abacates eram utilizados pela minha vó para pelo menos tentar diminuir o ímpeto assassino de fome dos jovens em crescimento. Talvez por temer o desempenho animalesco de Ângelo durante o café da noite, nada melhor do que uma batida reforçada de abacate durante a tarde. Duas paints para cada um era como ter comido dois quilos de carne. Infelizmente para a minha vó, assim como desenvolvíamos com rapidez também digeríamos com eficiência e Ângelo não terminava um café da noite sem antes ter comido pelo menos três cassetinhos e meio quilo de queijo. O ritmo frenético em que ia ao banheiro renovava constantemente sua fome voraz.
Muito dessa fome devastadora e ânsia por comer que marcou nossa infância era devido à intensa atividade física, leia-se “futebol”. O campinho no pátio da minha casa com uma goleira de árvores sem travessão e outra feita pelo meu pai sob nossa apática supervisão somados a goleira conformada por dois postes de concreto que sustentavam a parreira, eram o nosso hábitat mais natural. Com luz natural ou com luz artificial e com voos rasantes de morcegos injuriados com o intenso e infindável movimento em seus territórios jogávamos o dia inteiro, até a exaustão que só foi chegar com o fim da infância.
Se não era na minha casa era na SABI, o nosso eterno templo. Éramos obrigados a subornar os pobres funcionários, muitas vezes chegávamos ao ponto de interromper suas sestas e ainda nos parecia absurdo quando preferiam nos ignorar e seguir com seus sonos do que abrir as portas do nosso paraíso. No piso de parquê da SABI jogávamos quase todos os dias a exceção das segundas-feiras quando o clube não abria e, obviamente, essa regra nos indignava. Quando nossas humildes propinas não eram suficientes ou demasiadamente humildes, nos restava jogar sem luz confiando em nosso instinto.
A Sociedade dos Amigos do Balneário de Ipanema, fundada por meu bisavô na época em que Ipanema era um balneário, que o Guaíba era limpo e que donzelas aristocráticas como minha vó lá iam aos fins de semana vestindo vestidos veranicos brancos e chapéus também foi sede de alguns torneios memoráveis de futebol de salão, a maioria organizado por nós mesmos. Ganhávamos de todo mundo. Sempre. Mesmo quando o nosso maior atleta Rique abandonava a cancha para dar lugar a seres hediondos do bairro como Conrado - jovem desprovido de qualquer talento e que tinha um apelido que remetia aos piores dos dejetos humanos - assim mesmo seguíamos empilhando gols e brindando os mais de dois espectadores com bom futebol, ou melhor, bom futsal.
Esses campeonatos tiveram seus momentos históricos como o seu Dudi, famoso por sua estirpe disciplinadora sendo árbitro de alguns jogos. Meu pai também vestiu os trajes negros e aceitou a posição cuja principal qualidade é o desapego à própria mãe. Apitava o jogo com um copo na mão, lavado em suor e prejudicando sem disfarçar o bom desempenho de seu filho bastardo Ângelo. Falando em nossos pais, o velho Günther, cidadão germânico nascido em Frankfurt e radicado em Ipanema chegou ao ponto de discutir com o nosso adversário mais boçal, Bugio, o negro de pele branca que rugia a cada chute ao arco.
Apesar das dificuldades, a SABI sempre acabava cedendo à nossa tentação de jogar. No entanto havia um local idílico, místico eu diria, que era quase impossível de se lograr. A FUNSEG era um clube que possuía uma cancha de salão impecável e um campo de futebol sete espetacular que atrás abrigava um banhado que, dizia a lenda, até cobras e crocodilos albergava. Jogar lá era uma obsessão tão grande e incontrolável que chegávamos ao ponto de cometer o crime de invasão de propriedade privada. Simplesmente invadíamos e não satisfeitos ainda acendíamos as luzes do ginásio e lá jogávamos com um olho na bola e outro na porta esperando os capangas do clube acordar e irem atrás de nós de rotweiller em punho. Voltando ao banhado que hoje é parte de um novo centro comercial do bairro e possui concreto onde antes tinha místicas anacondas, nunca me esquecerei do dia em que estreava uma meia nova do Grêmio toda azul celeste da Penalty e fui o responsável por um mal disparo à meta. A bola caprichosamente passou entre os inúmeros buracos da grade e espatifou-se no banhado. Devido à lenda dos animais carnívoros que habitavam o lugar, não tirei os tênis e lá fui, atolar-me na lama para recuperar a redonda. Felizmente nesse dia nem as anacondas nem os crocodilos estavam em casa para amedrontar os barulhentos cidadãos que causavam rebuliço na área ribeirinha.
Na já citada Coelho Parreira havia também outro centro de futebol dos fins de semana ou férias que era a casa do Omp. Omp se chamava Leonardo e é mais conhecido por ser o cara que chorou quando teve sua pessoa e seu futebol denominado com o adjetivo “sinistro” em uma alusão a um comentarista de televisão da Bandeirantes. Omp era asqueroso. Foi meu colega na infância e é filho do Nobrinho, ex-comentarista esportivo que uma vez foi flagrado por nós em um restaurante do bairro que tinha um touro mecânico com outra mulher que não a sua esposa e consequentemente mãe de Omp e que está longe de ser menos asqueroso que sua prole única.
Omp era tão asqueroso que era a única pessoa à época que conseguia ser odiada por Ângelo. Ok, hoje Ângelo é um homem velho, depressivo e corroído pelas punições impostas por “El Barba”, mas naquela época ele jamais havia odiado alguém antes. Em um aniversário do dito cujo Ângelo o xingou durante um torneio de futsal e este revidou com uma agressão física. Consequência: foi expulso do campeonato que comemorava o seu PRÓPRIO aniversário. Resumo da ópera: Ângelo ARRUINOU a festa do coitado mesmo sendo jogador do MESMO time do brigão excluído.
Terminando a sessão de lugares em que jogávamos não posso não mencionar o campo caseiro do Maurício, um carioca asqueroso que vinha em suas férias e somente com ele em Porto tínhamos chances de pisar numa relva que mais parecia o gramado do velho Wembley, hoje destruído. Aliás, “Wembley” era o nome que demos ao espaço verde da rua Coelho Parreira, lugar de fundação do freguês de carteirinha Parreirense e fundado por um ex-jogador do nosso time expulso do “clube” por mim, que era, além de ala direito, presidente da instituição mais vencedora do bairro.
A nossa relação com o literalmente “dono do campinho” era de uma falsidade de dar inveja a muita mulher. Suportávamos todos os seus caprichos para manter a suposta amizade intocável e seguir jogando lá todos os verões quando ele cometia a loucura de sair do Rio de Janeiro e ir para Porto Alegre em pleno verão. Quando chegava a época das férias do gordinho, sempre perscrutávamos com mais afinco o terreno com o intuito de encontrar algum movimento humano.
Além do futebol tivemos também algumas experiências em outros esportes, mas nenhuma delas foi duradoura. Improvisamos uma cancha de tênis onde era a cancha de futebol de nossa casa. Piso de saibro natural contando também com adubo natural cedido pelos ilustres cachorros que passaram pela casa. A rede era um banco milenar de madeira.
Os jogos de tênis não duraram muito. Primeiro porque tínhamos pernas saudáveis e queríamos era jogar futebol e segundo porque chegou um ponto em que ninguém mais aguentava o estilo arrogante e asqueroso com que Ângelo desfilava levantando pó do nosso saibro. Assim como os confrontos de futebol, as partidas de tênis eram jogadas de dia e de noite e eram às vezes interrompidas pelas visitas através do portão de Heloísa que nos oferecia uma sopa de feijão com pão velho enquanto catava pinhas para a lareira com seu típico e eterno frenesi. Falando em Heloísa, sempre saliento que é das pessoas mais fantásticas que já conheci na minha vida e que foi uma das imensas personagens de minha infância e segue sendo parte de minha vida. Era alguém que jamais perdia o bom humor e a disposição não importando a situação em que se encontrava.
Além do tênis, tentamos também o futevôlei e esse foi um sucesso que durou um verão. Jogávamos no gramado inclinado em frente à janela do quarto de meus avôs. Os times sempre se repetiam: eu e Ângelo contra meu pai, Galo e Lãqui. Na arquibancada lá estava o eterno crocodilo fumante, torcendo pelo Galo e acusando meu pai que a essas alturas suava como um suíno de ser o responsável pelas derrotas do time de três integrantes. Era fisicamente impossível a prática desse esporte em terreno tão irregular, mas, outra vez, nos adaptamos perfeitamente às condições do ambiente e nos tornamos excelentes jogadores.
Como não poderia faltar, também havia os vilões do bairro. O principal deles foi um temível rotweiller cujo nome soviético gerava calafrios em todos e nunca soube se era uma homenagem ao escritor russo: Gorky. No entanto sei que a palavra “gorky” em russo significa “amargo”. Nada mais propício. O desgraçado cão tinha uma raiva imensurável por nossa alegria e expressava toda essa sua amargura destruindo qualquer bola que ousasse cair em seu terreno. As destruía com uma raiva assombrosa e com um ritual de tortura psicológica incluído. Grandes bolas da nossa infância tiveram as garras e dentes afiados do cachorro soviético como suas armas mortais.
Jamais esqueceremos a nossa japonesa Pelada que não era uma revista erótica do país do longínquo oriente senão uma bola de couro brilhosa trazida ao Pampa pelo elenco de um time nipônico amador. Chegamos a estudar a hipótese de mandar o rotweiller do bem para o terreno vizinho e acabar com a raça desse maldito sucessor de Stalin. Por pura ironia do destino, ou melhor, do passado, o nosso rotweiller do bem se chamava “Russo”. Ou seja, seria briga caseira e em briga de russo eu, pelo menos, não me meto.
Eu estaria sendo um ser humano preconceituoso se não citasse a Russo como um dos personagens do bairro que marcou nossa infância. Russo convivia com Dóbi que era uma espécie de seu oposto em gênero, número e grau. Russo era, antes de mais nada, um boa vida e “cadeleiro” nato. Durante o dia mantinha-se recostado. Se injuriado, rosnava. No entanto, quando a noite caía, se tornava uma verdadeira ameaça para todas as cadelas recatadas ou nem tanto do bairro. Fugia não importando o novo empecilho armado pelo velho Heitor. Saía de noite e somente reaparecia na manhã seguinte quando, ao sair de casa para ir ao colégio, lá estava ele sentado na frente do portão principal com cara de arrependido, não - literalmente com o rabo entre as pernas, pois este tinha o rabo podado e esperando a punição. Jamais em minha vida conheci um ser mais boêmio do que Russo que não deixava de dar suas escapadas uma noite sequer.
Ao seu lado Dóbi, um dos seres mais idiotas que já conheci. Por mais que o portão estivesse escancarado com um churrasco, gatos paraplégicos e cadelas no cio na frente deste, ele não saía. Preferia estar no pátio correndo atrás do próprio rabo, com uma pinha na boca e oferecendo uma surrada e empapada bola de tênis para o primeiro que aparecesse. Infelizmente a harmonia canina na casa acabou num dia em que Russo quase matou ao pobre Dóbi que se foi de casa tendo nitidamente perdoado o amigo com quem teve um dia de diferenças incompatíveis.
Quando o futebol nos dava trégua, também tínhamos algumas outras atividades. Fazíamos pega-pega de bicicleta o que é, segundo o outro, um dos esportes mais perigosos de todos os tempos, comparado ao futebol medieval e às batalhas de gladiadores com tigres. Além das bicicletas contemporâneas tínhamos uma relíquia. Uma Monarc 1976 com freio no pedal que pertenceu ao meu avô.
O que prejudicava a maioria das nossas brincadeiras ou o próprio futebol era as constantes e patéticas brigas entre os pequenos. Lãqui e Galo não passavam muito tempo em cessar-fogo. Qualquer diferença tirava o pavio curto Lãqui do sério e a vítima era quase sempre o menor do grupo. Inesquecível a briga que durou cerca de 10 segundos e que foi prematuramente findada devido à percepção do ridículo da situação pelos dois ao mesmo tempo quando se viram um agarrando a orelha do outro. Os métodos utilizados foram tão surreais que acabou com qualquer chance de peleia.
Ângelo e eu também tínhamos o saudável hábito de arruinar festas de terceiros. Ângelo entrou por um buraco na cerca da casa do Vinícius e roubou doces da festa da Carol. Foi descoberto pela diabólica avó da aniversariante, mas encoberto pelo brincalhão Vinny que, por sua vez, detestava a sogra. Falando em Vinny, difícil encontrar um personagem mais fantástico do que este. Jamais conheci um ser humano com tão pouca vergonha de tudo. Jamais esquecerei a cena dele se escondendo atrás das árvores de minha casa para que a sogra que estava de visita não o visse. Um de seus atos terroristas favoritos era massacrar e envergonhar o pobre Galinho. Quando nos buscava no colégio colocava meio corpo para fora do carro e gritava sem parar “Tini, Tini” e fazia gestos de masturbação masculina para desespero do tímido Tini que em questão de milésimos via sua pele alpina ruborizar.
Se eu fosse escrever todas as histórias de nossa infância aqui, iria morrer em frente ao computador. Volta e meia imagens felizes me cruzam a memória como nossas idas aos jogos do glorioso Ipanema com oito pessoas dentro do saudoso Kadet branco de Heloísa. Lembro de Ângelo e eu contrariando as recomendações médicas indo jogar bola sob o sol escaldante do terreno de Belém do Bruno. O resultado foi eu perguntando ao meu saudoso irmão se estava vendo tudo azul e recebendo uma resposta afirmativa. Acabamos os dois tontos, a ponto de desmaiar sentados à beira do campo e gozando da ínfima proteção de uma imiscuída sombra que contrariava a claridade africana do espaço. Para completar, o almoço que nos deveria restaurar para seguir na batalha sob sol de 50 graus era o temível arroz de cachorro do mais temível ainda, Sérgio, o Terrível.
Lembro também de acusações graves feitas pela oposição contra nós. A irmã do Peri nos jurando sobre a bíblia que a havíamos ameaçado com canivetes. Lembro também do inconseqüente roubo da torta de aniversário de minha prima Nanda realizado pelo Pingo. Terminamos todos correndo e nos escondendo no mato quando minha vó descobriu a tentativa de furto e a possível ruína da festa do dia seguinte.
Outro dia especial foi o da final do Mundial Interclubes entre o Tricolor e o Ajax. A expectativa de todo o ano esperando, a noite anterior sem dormir, todos cedo na minha casa, a “de baixo”, não a “de cima” que nessa época era dos meus avôs, meu pai servindo café da manhã para os presentes e, depois da derrota nos pênaltis, os estrondos dos foguetes tirados por André o mesmo que expulsei do elenco do Ipanema e os gritos dementes de Pablo.
As vizinhas gostosas e arredias que se mudaram para a casa que antes era do Malé em frente à casa da Heloísa, as corridas de carros de dar corda, as batalhas de futebol de botão...tudo vai se apagando a medida em que passa o tempo. Nada mais pode trazer aqueles dias de volta e a única ação que podemos tomar é tentar relembrá-los o mínimo possível e ignorando o que o futuro guardou para seus personagens que hoje estão mortos, paraplégicos, depressivos, dementes, alcoólicos, exilados, desaparecidos, internados, doentes, ausentes...
Pois eu hoje estou nostálgico. Faz frio úmido e chove sem parar em Porto Alegre. Para pessoas normais, um clima perto do insuportável; no entanto, é o meu preferido.
Sinto mais falta de Ipanema do que Porto Alegre; sinto mais falta da Ipanema de minha época de criança do que a Ipanema atual e de Porto Alegre.
Na minha infância um dia assim, de frio intenso e chuva, seria para reunir-se com os amigos em casa e jogar International Super Star Soccer durante toda a tarde.
Qualquer ameaça de diminuição da chuva era motivo para uma batida de bola na rua. No
entanto havia o nosso amigo Rique que sempre - parecia que esperava esses dias - nos convidava para jogar bola em seu campinho ao lado de casa.
Três para cada lado, barro e muita água acabavam com um par de tênis e uma prenda de roupas inteira. A situação era tão caótica que tentávamos dizer não, mas não adiantava, o poder de persuasão do amigo e a paixão pelo futebol eram tão grandes que lá acabávamos a noite, não importando se já havíamos tomado banho e os tênis eram novos. Lá estaríamos. Felizes.
Ipanema era como uma pequena cidade do interior dentro de uma grande cidade. Nossa Passárgada. Os mais antigos, quando tinham que ir ao centro ou qualquer outra zona da cidade diziam que iam à “cidade”. Ipanema não fazia parte da cidade. Ipanema tinha e ainda tem estabelecimentos que não fazem parte da atual sociedade. O mercado do Alberto que não tem nome era um exemplo. Lá íamos e não pagávamos, anotávamos em um caderno e, ao final do mês, nossos pais pagavam. Muitos picolés e refrigerantes durante o verão, muitos chocolates e bombons durante o frio do Pampa.
O bar do Turíbio também é outro elemento bizarro do bairro. Aos fins de semana havia o famoso churrasco do velho Turíbio. Ia quem queria, comia-se muito e bem e, ao final, quem quisesse pagar, pagava. O almoço do dia era feito pela velha esposa do velho Turíbio, mais conhecida como “Robocop” por seu caminhar robótico causado pelo reumatismo. Não havia cardápio nem opções. Comia-se o que tinha na casa, o que a família comeu.
Nossos dias mantinham surpresas. Nunca sabíamos o que iríamos fazer. Claro, a rotina estava de certa forma presente. Durante a semana, após o colégio, era questão de minutos para que chegasse a minha casa o meu irmão que não morava comigo. De dentro do meu quarto o via chegar. O portão não era trancado, assim que eu não precisava nem me levantar para abrir a porta. Chegava ainda de uniforme do colégio catando tatus do seu adunco nariz. Entrava, nem dava oi. Pegava um controle e jogávamos um pouco de International até a comida baixar ou então olhávamos os gols da rodada.
A única coisa que sempre tinha sem falta e não importando o clima era futebol. Ao final da tarde, estávamos sempre famintos como dragas. Nada como um convite do meu pai para irmos comer no Número 1 Lanches, uma lancheria que servia uma imensa a la minuta que depois se transformou em discoteca de marginais e hoje é uma loja que vende colchões.
Nos fins de semana pelo menos tentava dormir até tarde. Como não havia aula, a chegada de meu irmão era sentida por volta das 8h. Soava a batida da bola na parede exterior de meu quarto. Ele simplesmente não respeitava. Não se alterava ao ponto de tocar a campainha: Ficava lá, no pátio, batendo bola e esperando seus companheiros mais preguiçosos levantarem para um dia integral de diversão.
A sucessão de disputas de International não pode ser ignorada em um texto sobre a infância. Acho difícil que, no mundo, alguém tenha jogado mais e melhor do que nós dois esse jogo. E não era apenas um jogo de vídeo-gueime, eram verdadeiros embates.
Havia os clássicos como meu pai contra Ângelo, talvez o maior entre todos os clássicos. Se o segundo marcava um gol muito cedo, o primeiro resetava o jogo sem nem olhar para o adversário que não reclamava. Cada um com suas peculiaridades. Meu pai com times europeus sem jogadores negros e que prezavam a organização tática e a defesa; Ângelo sempre louvando as sub-raças ia de México ou algum time africano; eu, sempre demente e organizado, ia revezando e só trocava de time após uma derrota; anotava com que time ganhava mais. Adorava jogar com a Coreia do Sul porque o time era bom e porque meu maior rival detestava e segue detestando raças orientais.
O nosso mundo era basicamente quatro quadras. Não tínhamos muito interesse em saber o que passava fora de nosso território, território esse que tinha inimigos, claro. Poucas vezes saíamos dessas fronteiras. Comprar botões na Ipanemy exigia um deslocamento maior, bem como a interminável viagem até a AABB que era uma espécie de outro continente. Felizmente havia as bicicletas, nosso meio de transporte por vários anos.
Outro fator marcante dessa época era a ausência de dinheiro, papel moeda. Simplesmente não nos interessava. De vez em quando comprávamos alguns botões como citei anteriormente, mas dinheiro nunca foi tema em nossa infância. Um ou dois reais eram suficientes para subornar os testas-de-ferro da SABI para que nos deixassem jogar à luz de boate e deu, não era mais necessário.
A organização populacional masculina do bairro era simples. Dentro do meu terreno, meu avô, meu pai, Galo e eu. Duas quadras à direita, meus outros três irmãos que não moravam comigo. Uma quadra na diagonal, a casa do Bruno, outro ponto de encontro e centro de diversões comandado pelo carisma e o sempre inalterável bom humor da tia Loiva, a matriarca da casa e das pessoas mais queridas por todos na nossa rica infância.
Meu vô era talvez o maior personagem do bairro. Um velho demente, fumante inveterado e tomador de cerca de dois litros de leite diários. Tomava cerca de 40 cafezinhos por dia e, de café da manhã, ia de chuleta com ovo frito acompanhado de uma paint de leite cru. Brincalhão, o que mais gostava na vida era ver a gurizada atormentando na casa. Protegia o mais fraco e adorava ao de pior caráter. Muitas vezes, devido à presença de seus Ray-Ban de lentes verdes, não sabíamos se ele estava acordado ou dormindo quando sentado no avarandado ou nos canteiros. Nos almoços de domingo, era o dono da festa e o rei da brincadeira de servir bebida a todos e deixar Ângelo de copo semi-vazio. O pior é que a brincadeira milenar jamais perdeu a graça. Somente o meu velho que, implicante com o Hector, resmungava para ele mesmo: “trouxa...”
Devido ao clima receptivo e amistoso de minha casa, por lá passávamos a maior parte do tempo. Na casa de meus outros irmãos reinava mais a disciplina, algo que jamais suportamos e que nos fazia comportar um pouco mais. No verão, passávamos por cima da disciplina e desfrutávamos da piscina pelo menos bem como de alguns churrascos ao meio-dia de domingo vendo jogos do Campeonato Italiano sendo narrados pelo Silvio Luiz na eterna televisão bege do Tergolina.
Na minha casa também havia temporada de piscina com direito a concurso de pontas. O juiz, sempre ele, Hector, de Ray-Ban, cigarro em punho, pele de jacaré torrada pelo sol e que chegava ao ponto de cochilar até dentro d´água. O velho Heitor aproveitava sua posição privilegiada de dono da lei e favorecia clamorosamente a Galo, o menor de todos. Dez com louvor era a nota mais recebida pelo esquálido Garni Zé.
Muitas pessoas nos remetem à infância, mas também alguns aromas e lugares me fazem pensar nos tempos já distantes. O cheiro de goiaba é algo que de imediato provoca no meu cérebro uma reação de nostalgia. Todos os verões era o mesmo cheiro forte de goiaba podre no chão seco com um sol implacável que catalisava o alcance de seu aroma. O curioso era que, a exceção do excêntrico Pablo e desde que minha avó parou de fazer doces e chimias de goiaba, ninguém mais as consumia. Tudo acabava podre no chão sendo desfrutado apenas pelos pássaros de gostos alimentícios ecléticos durante o dia e pelas terríveis gangues de gambás noturnos.
Outras frutas menos olorosas também tinham sua época. As uvas pretas que na verdade eram roxas e as rosas que de fato eram rosa quase ruíam as estruturas de nossa parreira. Comíamos uvas de diferentes formas, desde os cachos refrescados por um período na geladeira, até cucas e suco, muito suco. Dificilmente um estômago humano aguentaria a quantidade de litros que consumíamos durante os calorosos primeiros meses do ano. O calor escaldante era convidativo para um cacho de uvas frescas na beira da piscina.
Outras frutas de sucesso e de presença constante eram os maracujás e os abacates. Os primeiros coloriam de amarelo dois ou três pés e também, assim como as uvas, eram fonte de inesgotáveis toneladas de litros de suco. Já os abacates eram utilizados pela minha vó para pelo menos tentar diminuir o ímpeto assassino de fome dos jovens em crescimento. Talvez por temer o desempenho animalesco de Ângelo durante o café da noite, nada melhor do que uma batida reforçada de abacate durante a tarde. Duas paints para cada um era como ter comido dois quilos de carne. Infelizmente para a minha vó, assim como desenvolvíamos com rapidez também digeríamos com eficiência e Ângelo não terminava um café da noite sem antes ter comido pelo menos três cassetinhos e meio quilo de queijo. O ritmo frenético em que ia ao banheiro renovava constantemente sua fome voraz.
Muito dessa fome devastadora e ânsia por comer que marcou nossa infância era devido à intensa atividade física, leia-se “futebol”. O campinho no pátio da minha casa com uma goleira de árvores sem travessão e outra feita pelo meu pai sob nossa apática supervisão somados a goleira conformada por dois postes de concreto que sustentavam a parreira, eram o nosso hábitat mais natural. Com luz natural ou com luz artificial e com voos rasantes de morcegos injuriados com o intenso e infindável movimento em seus territórios jogávamos o dia inteiro, até a exaustão que só foi chegar com o fim da infância.
Se não era na minha casa era na SABI, o nosso eterno templo. Éramos obrigados a subornar os pobres funcionários, muitas vezes chegávamos ao ponto de interromper suas sestas e ainda nos parecia absurdo quando preferiam nos ignorar e seguir com seus sonos do que abrir as portas do nosso paraíso. No piso de parquê da SABI jogávamos quase todos os dias a exceção das segundas-feiras quando o clube não abria e, obviamente, essa regra nos indignava. Quando nossas humildes propinas não eram suficientes ou demasiadamente humildes, nos restava jogar sem luz confiando em nosso instinto.
A Sociedade dos Amigos do Balneário de Ipanema, fundada por meu bisavô na época em que Ipanema era um balneário, que o Guaíba era limpo e que donzelas aristocráticas como minha vó lá iam aos fins de semana vestindo vestidos veranicos brancos e chapéus também foi sede de alguns torneios memoráveis de futebol de salão, a maioria organizado por nós mesmos. Ganhávamos de todo mundo. Sempre. Mesmo quando o nosso maior atleta Rique abandonava a cancha para dar lugar a seres hediondos do bairro como Conrado - jovem desprovido de qualquer talento e que tinha um apelido que remetia aos piores dos dejetos humanos - assim mesmo seguíamos empilhando gols e brindando os mais de dois espectadores com bom futebol, ou melhor, bom futsal.
Esses campeonatos tiveram seus momentos históricos como o seu Dudi, famoso por sua estirpe disciplinadora sendo árbitro de alguns jogos. Meu pai também vestiu os trajes negros e aceitou a posição cuja principal qualidade é o desapego à própria mãe. Apitava o jogo com um copo na mão, lavado em suor e prejudicando sem disfarçar o bom desempenho de seu filho bastardo Ângelo. Falando em nossos pais, o velho Günther, cidadão germânico nascido em Frankfurt e radicado em Ipanema chegou ao ponto de discutir com o nosso adversário mais boçal, Bugio, o negro de pele branca que rugia a cada chute ao arco.
Apesar das dificuldades, a SABI sempre acabava cedendo à nossa tentação de jogar. No entanto havia um local idílico, místico eu diria, que era quase impossível de se lograr. A FUNSEG era um clube que possuía uma cancha de salão impecável e um campo de futebol sete espetacular que atrás abrigava um banhado que, dizia a lenda, até cobras e crocodilos albergava. Jogar lá era uma obsessão tão grande e incontrolável que chegávamos ao ponto de cometer o crime de invasão de propriedade privada. Simplesmente invadíamos e não satisfeitos ainda acendíamos as luzes do ginásio e lá jogávamos com um olho na bola e outro na porta esperando os capangas do clube acordar e irem atrás de nós de rotweiller em punho. Voltando ao banhado que hoje é parte de um novo centro comercial do bairro e possui concreto onde antes tinha místicas anacondas, nunca me esquecerei do dia em que estreava uma meia nova do Grêmio toda azul celeste da Penalty e fui o responsável por um mal disparo à meta. A bola caprichosamente passou entre os inúmeros buracos da grade e espatifou-se no banhado. Devido à lenda dos animais carnívoros que habitavam o lugar, não tirei os tênis e lá fui, atolar-me na lama para recuperar a redonda. Felizmente nesse dia nem as anacondas nem os crocodilos estavam em casa para amedrontar os barulhentos cidadãos que causavam rebuliço na área ribeirinha.
Na já citada Coelho Parreira havia também outro centro de futebol dos fins de semana ou férias que era a casa do Omp. Omp se chamava Leonardo e é mais conhecido por ser o cara que chorou quando teve sua pessoa e seu futebol denominado com o adjetivo “sinistro” em uma alusão a um comentarista de televisão da Bandeirantes. Omp era asqueroso. Foi meu colega na infância e é filho do Nobrinho, ex-comentarista esportivo que uma vez foi flagrado por nós em um restaurante do bairro que tinha um touro mecânico com outra mulher que não a sua esposa e consequentemente mãe de Omp e que está longe de ser menos asqueroso que sua prole única.
Omp era tão asqueroso que era a única pessoa à época que conseguia ser odiada por Ângelo. Ok, hoje Ângelo é um homem velho, depressivo e corroído pelas punições impostas por “El Barba”, mas naquela época ele jamais havia odiado alguém antes. Em um aniversário do dito cujo Ângelo o xingou durante um torneio de futsal e este revidou com uma agressão física. Consequência: foi expulso do campeonato que comemorava o seu PRÓPRIO aniversário. Resumo da ópera: Ângelo ARRUINOU a festa do coitado mesmo sendo jogador do MESMO time do brigão excluído.
Terminando a sessão de lugares em que jogávamos não posso não mencionar o campo caseiro do Maurício, um carioca asqueroso que vinha em suas férias e somente com ele em Porto tínhamos chances de pisar numa relva que mais parecia o gramado do velho Wembley, hoje destruído. Aliás, “Wembley” era o nome que demos ao espaço verde da rua Coelho Parreira, lugar de fundação do freguês de carteirinha Parreirense e fundado por um ex-jogador do nosso time expulso do “clube” por mim, que era, além de ala direito, presidente da instituição mais vencedora do bairro.
A nossa relação com o literalmente “dono do campinho” era de uma falsidade de dar inveja a muita mulher. Suportávamos todos os seus caprichos para manter a suposta amizade intocável e seguir jogando lá todos os verões quando ele cometia a loucura de sair do Rio de Janeiro e ir para Porto Alegre em pleno verão. Quando chegava a época das férias do gordinho, sempre perscrutávamos com mais afinco o terreno com o intuito de encontrar algum movimento humano.
Além do futebol tivemos também algumas experiências em outros esportes, mas nenhuma delas foi duradoura. Improvisamos uma cancha de tênis onde era a cancha de futebol de nossa casa. Piso de saibro natural contando também com adubo natural cedido pelos ilustres cachorros que passaram pela casa. A rede era um banco milenar de madeira.
Os jogos de tênis não duraram muito. Primeiro porque tínhamos pernas saudáveis e queríamos era jogar futebol e segundo porque chegou um ponto em que ninguém mais aguentava o estilo arrogante e asqueroso com que Ângelo desfilava levantando pó do nosso saibro. Assim como os confrontos de futebol, as partidas de tênis eram jogadas de dia e de noite e eram às vezes interrompidas pelas visitas através do portão de Heloísa que nos oferecia uma sopa de feijão com pão velho enquanto catava pinhas para a lareira com seu típico e eterno frenesi. Falando em Heloísa, sempre saliento que é das pessoas mais fantásticas que já conheci na minha vida e que foi uma das imensas personagens de minha infância e segue sendo parte de minha vida. Era alguém que jamais perdia o bom humor e a disposição não importando a situação em que se encontrava.
Além do tênis, tentamos também o futevôlei e esse foi um sucesso que durou um verão. Jogávamos no gramado inclinado em frente à janela do quarto de meus avôs. Os times sempre se repetiam: eu e Ângelo contra meu pai, Galo e Lãqui. Na arquibancada lá estava o eterno crocodilo fumante, torcendo pelo Galo e acusando meu pai que a essas alturas suava como um suíno de ser o responsável pelas derrotas do time de três integrantes. Era fisicamente impossível a prática desse esporte em terreno tão irregular, mas, outra vez, nos adaptamos perfeitamente às condições do ambiente e nos tornamos excelentes jogadores.
Como não poderia faltar, também havia os vilões do bairro. O principal deles foi um temível rotweiller cujo nome soviético gerava calafrios em todos e nunca soube se era uma homenagem ao escritor russo: Gorky. No entanto sei que a palavra “gorky” em russo significa “amargo”. Nada mais propício. O desgraçado cão tinha uma raiva imensurável por nossa alegria e expressava toda essa sua amargura destruindo qualquer bola que ousasse cair em seu terreno. As destruía com uma raiva assombrosa e com um ritual de tortura psicológica incluído. Grandes bolas da nossa infância tiveram as garras e dentes afiados do cachorro soviético como suas armas mortais.
Jamais esqueceremos a nossa japonesa Pelada que não era uma revista erótica do país do longínquo oriente senão uma bola de couro brilhosa trazida ao Pampa pelo elenco de um time nipônico amador. Chegamos a estudar a hipótese de mandar o rotweiller do bem para o terreno vizinho e acabar com a raça desse maldito sucessor de Stalin. Por pura ironia do destino, ou melhor, do passado, o nosso rotweiller do bem se chamava “Russo”. Ou seja, seria briga caseira e em briga de russo eu, pelo menos, não me meto.
Eu estaria sendo um ser humano preconceituoso se não citasse a Russo como um dos personagens do bairro que marcou nossa infância. Russo convivia com Dóbi que era uma espécie de seu oposto em gênero, número e grau. Russo era, antes de mais nada, um boa vida e “cadeleiro” nato. Durante o dia mantinha-se recostado. Se injuriado, rosnava. No entanto, quando a noite caía, se tornava uma verdadeira ameaça para todas as cadelas recatadas ou nem tanto do bairro. Fugia não importando o novo empecilho armado pelo velho Heitor. Saía de noite e somente reaparecia na manhã seguinte quando, ao sair de casa para ir ao colégio, lá estava ele sentado na frente do portão principal com cara de arrependido, não - literalmente com o rabo entre as pernas, pois este tinha o rabo podado e esperando a punição. Jamais em minha vida conheci um ser mais boêmio do que Russo que não deixava de dar suas escapadas uma noite sequer.
Ao seu lado Dóbi, um dos seres mais idiotas que já conheci. Por mais que o portão estivesse escancarado com um churrasco, gatos paraplégicos e cadelas no cio na frente deste, ele não saía. Preferia estar no pátio correndo atrás do próprio rabo, com uma pinha na boca e oferecendo uma surrada e empapada bola de tênis para o primeiro que aparecesse. Infelizmente a harmonia canina na casa acabou num dia em que Russo quase matou ao pobre Dóbi que se foi de casa tendo nitidamente perdoado o amigo com quem teve um dia de diferenças incompatíveis.
Quando o futebol nos dava trégua, também tínhamos algumas outras atividades. Fazíamos pega-pega de bicicleta o que é, segundo o outro, um dos esportes mais perigosos de todos os tempos, comparado ao futebol medieval e às batalhas de gladiadores com tigres. Além das bicicletas contemporâneas tínhamos uma relíquia. Uma Monarc 1976 com freio no pedal que pertenceu ao meu avô.
O que prejudicava a maioria das nossas brincadeiras ou o próprio futebol era as constantes e patéticas brigas entre os pequenos. Lãqui e Galo não passavam muito tempo em cessar-fogo. Qualquer diferença tirava o pavio curto Lãqui do sério e a vítima era quase sempre o menor do grupo. Inesquecível a briga que durou cerca de 10 segundos e que foi prematuramente findada devido à percepção do ridículo da situação pelos dois ao mesmo tempo quando se viram um agarrando a orelha do outro. Os métodos utilizados foram tão surreais que acabou com qualquer chance de peleia.
Ângelo e eu também tínhamos o saudável hábito de arruinar festas de terceiros. Ângelo entrou por um buraco na cerca da casa do Vinícius e roubou doces da festa da Carol. Foi descoberto pela diabólica avó da aniversariante, mas encoberto pelo brincalhão Vinny que, por sua vez, detestava a sogra. Falando em Vinny, difícil encontrar um personagem mais fantástico do que este. Jamais conheci um ser humano com tão pouca vergonha de tudo. Jamais esquecerei a cena dele se escondendo atrás das árvores de minha casa para que a sogra que estava de visita não o visse. Um de seus atos terroristas favoritos era massacrar e envergonhar o pobre Galinho. Quando nos buscava no colégio colocava meio corpo para fora do carro e gritava sem parar “Tini, Tini” e fazia gestos de masturbação masculina para desespero do tímido Tini que em questão de milésimos via sua pele alpina ruborizar.
Se eu fosse escrever todas as histórias de nossa infância aqui, iria morrer em frente ao computador. Volta e meia imagens felizes me cruzam a memória como nossas idas aos jogos do glorioso Ipanema com oito pessoas dentro do saudoso Kadet branco de Heloísa. Lembro de Ângelo e eu contrariando as recomendações médicas indo jogar bola sob o sol escaldante do terreno de Belém do Bruno. O resultado foi eu perguntando ao meu saudoso irmão se estava vendo tudo azul e recebendo uma resposta afirmativa. Acabamos os dois tontos, a ponto de desmaiar sentados à beira do campo e gozando da ínfima proteção de uma imiscuída sombra que contrariava a claridade africana do espaço. Para completar, o almoço que nos deveria restaurar para seguir na batalha sob sol de 50 graus era o temível arroz de cachorro do mais temível ainda, Sérgio, o Terrível.
Lembro também de acusações graves feitas pela oposição contra nós. A irmã do Peri nos jurando sobre a bíblia que a havíamos ameaçado com canivetes. Lembro também do inconseqüente roubo da torta de aniversário de minha prima Nanda realizado pelo Pingo. Terminamos todos correndo e nos escondendo no mato quando minha vó descobriu a tentativa de furto e a possível ruína da festa do dia seguinte.
Outro dia especial foi o da final do Mundial Interclubes entre o Tricolor e o Ajax. A expectativa de todo o ano esperando, a noite anterior sem dormir, todos cedo na minha casa, a “de baixo”, não a “de cima” que nessa época era dos meus avôs, meu pai servindo café da manhã para os presentes e, depois da derrota nos pênaltis, os estrondos dos foguetes tirados por André o mesmo que expulsei do elenco do Ipanema e os gritos dementes de Pablo.
As vizinhas gostosas e arredias que se mudaram para a casa que antes era do Malé em frente à casa da Heloísa, as corridas de carros de dar corda, as batalhas de futebol de botão...tudo vai se apagando a medida em que passa o tempo. Nada mais pode trazer aqueles dias de volta e a única ação que podemos tomar é tentar relembrá-los o mínimo possível e ignorando o que o futuro guardou para seus personagens que hoje estão mortos, paraplégicos, depressivos, dementes, alcoólicos, exilados, desaparecidos, internados, doentes, ausentes...
domingo, 11 de julho de 2010
Resumo da Copa
E mais uma Copa do Mundo se acaba. Que evento tão espetacular é a Copa do Mundo. É uma competição tão incrível que chega ao ponto de humanizar personalidades que pareciam ter sucumbido à sua posição de celebridades. Jogadores consagrados e donos de fortunas choram como crianças após uma derrota ou após um título.
Seus familiares estão nas tribunas e alguns não se contêm e distribuem sorrisos e beijos em suas direções como Maradona com suas filhas e alguns jogadores como Sergio Ramos e Fabregas na final com suas famílias.
Há reis, rainhas, atores, Mick Jagger, todos lá, sentados como qualquer um desfrutando do maior evento da Terra.
Essa Copa deixou algumas dúvidas quanto à realização de eventos dessa importância em países sem estrutura necessária. A FIFA tentou disfarçar, mas houve muitos problemas como na área de transporte, por exemplo, com muita gente não conseguindo chegar a tempo aos locais dos jogos; também houve assaltos, roubos e muitos, muitíssimos espaços vazios nos estádios, em alguns casos chegava a ser constrangedor como na partida entre Paraguai e Eslováquia. Mas até em semifinais esteve presente esse problema. No jogo entre Holanda e Uruguai podiam-se ver espaços não ocupados.
No entanto é bacana uma Copa em um lugar diferente. Sempre defendi que copas do mundo deveriam ser exclusivamente organizadas no continente europeu devido à sua infra-estrutura e tradição no esporte. Países estruturados fora da Europa como Estados Unidos, Japão ou Coreia do Sul, têm problemas diferentes como populações não sabendo quantos jogadores jogam ou então simplesmente falta de clima de Copa.
A primeira fase foi, tecnicamente, quase que insuportável, mas já era esperado. As
primeiras fases contam com times fracos e as seleções fortes jogam com medo de um tropeço que lhes pode abreviar a participação no Mundial. No entanto, era evidente que o nível, a partir das oitavas, iria subir consideravelmente e acabamos vendo uma boa Copa.
Não houve um grande destaque individual, mas muitos jogadores se destacaram e muitos times levaram muitos jovens para a competição o que é sempre saudável. Fracassos retumbantes não faltaram. O maior deles foi o da seleção francesa que foi um tremendo festival de absurdos. A Itália, atual campeão, também fez feio e abandonou sem ganhar sequer um jogo. No entanto considero a Inglaterra a maior decepção, pois foi ao Mundial com pinta de favorita e acabou sendo goleada por 4x1 pela Alemanha e seus principais jogadores não renderam o esperado.
Outro grande fracasso, o desempenho dos africanos, todos, à exceção de Gana, eliminados na primeira fase, incluindo-se nesse nefasto grupo o país organizador.
Tivemos, então, detentor do título, último vice e país-sede eliminados na primeira instância da competição.
O renascimento do Uruguai de volta aos primeiros lugares foi extremamente interessante. Inclusive teve um de seus jogadores escolhido como o melhor da competição, Diego Forlán.
A competição também puniu a mesquinhez de alguns times como Suíça e Grécia, eliminados, FELIZMENTE, na primeira fase. Houve um predomínio dos ofensivos contra os defensivos considerando que os três primeiros são times que sempre buscaram o gol.
Houve também quem exagerou na ofensividade e acabou caindo fora de maneira constrangedora, como foi o caso argentino. O melhor do mundo, Messi, não apareceu nas instâncias definitivas e acabou abandonando a África de maneira discreta e sem gols, assim como seus companheiros de artilharia Rooney e Milito que pouco jogou.
Klose chegou perto da marca histórica, mas perdeu alguns gols que não poderia perder contra a Austrália, não começou um jogo e sentiu dores nas costas que o deixaram de fora da decisão do terceiro lugar.
A Alemanha bateu o recorde de jogos disputados em copas do mundo.
Também tivemos poucas definições em cobranças de pênalti, somente duas.
Outro fato curioso foi quem a Espanha passou por oitavas, quartas, semi e final somente com vitórias pela mínima diferença e sem tomar sequer um gol.Possivelmente é o campeão com o menor número de gols marcados na histórias das copas.
Tivemos dois erros cruciais de arbitragem nas oitavas, o gol não dado à Lampard contra a Alemanha e o gol em completo impedimento de Tévez contra o México. Pela primeira vez a FIFA ameaça discutir o assunto com mais seriedade. Até o lance de Suárez contra Gana foi visto como motivo para a FIFA revisar suas centenárias regras. Sou contra. Querem deixar o futebol uma ciência exata. É entendível o argumento de que o futebol é um negócio e que muitos perdem muita coisa por erros.
Mas é um esporte. Um jogo. Tem que seguir tendo seu aspecto humano.
Classificação final da Copa:
1. Espanha
2. Holanda
3. Alemanha
4. Uruguai
5. Argentina
6. Brasil
7. Gana
8. Paraguai
9. Japão
10. Chile
11. Portugal
12. Estados Unidos
13. Inglaterra
14. México
15. Coreia do Sul
16. Eslováquia
17. Costa do Marfim
18. Eslovênia
19. Suíça
20. África do Sul
21. Austrália
22. Nova Zelândia
23. Sérvia
24. Dinamarca
25. Grécia
26. Itália
27. Nigéria
28. Argélia
29. França
30. Honduras
31. Camarões
32. Coreia do Norte
Aqui segue minha seleção da Copa no estilo 4-4-2:
1. Stekelenburg (Holanda)
2. Sergio Ramos (Espanha)
3. Friedrich (Alemanha)
4. Piqué (Espanha)
6. Capdevilla (Espanha)
5. Xabi Alonso (Espanha)
8. Xavi (Espanha)
10. Iniesta (Espanha)
11. Müller (Alemanha)
7. Forlán (Uruguai)
9. Villa (Espanha)
Bola de ouro: Forlán (Uruguai);
Bola de prata: Xavi (Espanha);
Bola de bronze: Müller (Alemanha);
Revelação: Müller (Alemanha);
Menções honrosas: Salcido (México), Suárez (Uruguai), Pérez (Uruguai), Johnson (Inglaterra), Khedira (Alemanha), Schweinsteiger (Alemanha), Özil (Alemanha), Gyan (Gana), Mathijsen (Holanda), Sneijder (Holanda), Lúcio (Brasil), Juan (Brasil) e Casillas (Espanha);
Decepções: Di Maria (Argentina), Gerrard (Inglaterra), Lampard (Inglaterra), Rooney (Inglaterra), Van Persie (Holanda), Cristiano Ronaldo (Portugal) e Torres (Espanha).
Seus familiares estão nas tribunas e alguns não se contêm e distribuem sorrisos e beijos em suas direções como Maradona com suas filhas e alguns jogadores como Sergio Ramos e Fabregas na final com suas famílias.
Há reis, rainhas, atores, Mick Jagger, todos lá, sentados como qualquer um desfrutando do maior evento da Terra.
Essa Copa deixou algumas dúvidas quanto à realização de eventos dessa importância em países sem estrutura necessária. A FIFA tentou disfarçar, mas houve muitos problemas como na área de transporte, por exemplo, com muita gente não conseguindo chegar a tempo aos locais dos jogos; também houve assaltos, roubos e muitos, muitíssimos espaços vazios nos estádios, em alguns casos chegava a ser constrangedor como na partida entre Paraguai e Eslováquia. Mas até em semifinais esteve presente esse problema. No jogo entre Holanda e Uruguai podiam-se ver espaços não ocupados.
No entanto é bacana uma Copa em um lugar diferente. Sempre defendi que copas do mundo deveriam ser exclusivamente organizadas no continente europeu devido à sua infra-estrutura e tradição no esporte. Países estruturados fora da Europa como Estados Unidos, Japão ou Coreia do Sul, têm problemas diferentes como populações não sabendo quantos jogadores jogam ou então simplesmente falta de clima de Copa.
A primeira fase foi, tecnicamente, quase que insuportável, mas já era esperado. As
primeiras fases contam com times fracos e as seleções fortes jogam com medo de um tropeço que lhes pode abreviar a participação no Mundial. No entanto, era evidente que o nível, a partir das oitavas, iria subir consideravelmente e acabamos vendo uma boa Copa.
Não houve um grande destaque individual, mas muitos jogadores se destacaram e muitos times levaram muitos jovens para a competição o que é sempre saudável. Fracassos retumbantes não faltaram. O maior deles foi o da seleção francesa que foi um tremendo festival de absurdos. A Itália, atual campeão, também fez feio e abandonou sem ganhar sequer um jogo. No entanto considero a Inglaterra a maior decepção, pois foi ao Mundial com pinta de favorita e acabou sendo goleada por 4x1 pela Alemanha e seus principais jogadores não renderam o esperado.
Outro grande fracasso, o desempenho dos africanos, todos, à exceção de Gana, eliminados na primeira fase, incluindo-se nesse nefasto grupo o país organizador.
Tivemos, então, detentor do título, último vice e país-sede eliminados na primeira instância da competição.
O renascimento do Uruguai de volta aos primeiros lugares foi extremamente interessante. Inclusive teve um de seus jogadores escolhido como o melhor da competição, Diego Forlán.
A competição também puniu a mesquinhez de alguns times como Suíça e Grécia, eliminados, FELIZMENTE, na primeira fase. Houve um predomínio dos ofensivos contra os defensivos considerando que os três primeiros são times que sempre buscaram o gol.
Houve também quem exagerou na ofensividade e acabou caindo fora de maneira constrangedora, como foi o caso argentino. O melhor do mundo, Messi, não apareceu nas instâncias definitivas e acabou abandonando a África de maneira discreta e sem gols, assim como seus companheiros de artilharia Rooney e Milito que pouco jogou.
Klose chegou perto da marca histórica, mas perdeu alguns gols que não poderia perder contra a Austrália, não começou um jogo e sentiu dores nas costas que o deixaram de fora da decisão do terceiro lugar.
A Alemanha bateu o recorde de jogos disputados em copas do mundo.
Também tivemos poucas definições em cobranças de pênalti, somente duas.
Outro fato curioso foi quem a Espanha passou por oitavas, quartas, semi e final somente com vitórias pela mínima diferença e sem tomar sequer um gol.Possivelmente é o campeão com o menor número de gols marcados na histórias das copas.
Tivemos dois erros cruciais de arbitragem nas oitavas, o gol não dado à Lampard contra a Alemanha e o gol em completo impedimento de Tévez contra o México. Pela primeira vez a FIFA ameaça discutir o assunto com mais seriedade. Até o lance de Suárez contra Gana foi visto como motivo para a FIFA revisar suas centenárias regras. Sou contra. Querem deixar o futebol uma ciência exata. É entendível o argumento de que o futebol é um negócio e que muitos perdem muita coisa por erros.
Mas é um esporte. Um jogo. Tem que seguir tendo seu aspecto humano.
Classificação final da Copa:
1. Espanha
2. Holanda
3. Alemanha
4. Uruguai
5. Argentina
6. Brasil
7. Gana
8. Paraguai
9. Japão
10. Chile
11. Portugal
12. Estados Unidos
13. Inglaterra
14. México
15. Coreia do Sul
16. Eslováquia
17. Costa do Marfim
18. Eslovênia
19. Suíça
20. África do Sul
21. Austrália
22. Nova Zelândia
23. Sérvia
24. Dinamarca
25. Grécia
26. Itália
27. Nigéria
28. Argélia
29. França
30. Honduras
31. Camarões
32. Coreia do Norte
Aqui segue minha seleção da Copa no estilo 4-4-2:
1. Stekelenburg (Holanda)
2. Sergio Ramos (Espanha)
3. Friedrich (Alemanha)
4. Piqué (Espanha)
6. Capdevilla (Espanha)
5. Xabi Alonso (Espanha)
8. Xavi (Espanha)
10. Iniesta (Espanha)
11. Müller (Alemanha)
7. Forlán (Uruguai)
9. Villa (Espanha)
Bola de ouro: Forlán (Uruguai);
Bola de prata: Xavi (Espanha);
Bola de bronze: Müller (Alemanha);
Revelação: Müller (Alemanha);
Menções honrosas: Salcido (México), Suárez (Uruguai), Pérez (Uruguai), Johnson (Inglaterra), Khedira (Alemanha), Schweinsteiger (Alemanha), Özil (Alemanha), Gyan (Gana), Mathijsen (Holanda), Sneijder (Holanda), Lúcio (Brasil), Juan (Brasil) e Casillas (Espanha);
Decepções: Di Maria (Argentina), Gerrard (Inglaterra), Lampard (Inglaterra), Rooney (Inglaterra), Van Persie (Holanda), Cristiano Ronaldo (Portugal) e Torres (Espanha).
Vitória do Futebol
Espanha 1x0 Holanda: quem torcia por uma final entre sul-americanos a teve. Em um jogo com cara e clima de Libertadores, Holanda e Espanha brindaram o mundo com um excelente e apaixonante espetáculo.
Um grandíssimo jogo, com emoções até o final, inúmeras chances de gols, entradas ríspidas, enfim, uma final com todos os elementos de final sul-americana.
O início do jogo deu a impressão de que uma das minhas previsões poderia acontecer que era uma vitória com certa facilidade por parte da Espanha. A Holanda praticamente não tocou na bola durante os primeiros minutos do jogo e via a Espanha se aproximar de seu primeiro gol.
Stekelenburg, o melhor goleiro da Copa, salvou de maneira impressionante uma cabeçada fantástica de Sergio Ramos. Este, diga-se de passagem, foi o melhor jogador do primeiro tempo jogando como quase um ponteiro direito e criando várias oportunidades de gol. Uma delas faltou o cacoete de atacante quando entrou a dribles pela direita e tentou um busca-pé que acabou sendo rechaçado por Heitinga em lance que pedia a sua conclusão ao gol.
O meio de campo espanhol asfixiava Sneijder e a Holanda se via em uma situação de completa impotência. Robben não tinha contato com a bola e Kuyt era obrigado a jogar quase de volante para tentar conter pelo menos em parte o poderio do meio ibérico.
O gol parecia ser questão de tempo. Em um dos tantos lances ríspidos do jogo Capdevilla deve ser atendido pelos médicos, o jogo para por alguns minutos e parece que esfriou o time de Del Bosque. Quando o jogo recomeça, há uma nova situação em campo com uma Holanda que avança sua marcação, povoa o meio de campo, adianta sua defesa que deixa Villa quatro vezes em impedimento e, com essa pressão, equilibra o jogo. Xavi e Iniesta, os motores e cérebros da Espanha sentem dificuldades em encontrar espaços e o jogo ganha a cara que a Holanda queria. Meio de campo congestionado e espaços para os contra-ataques com a velocidade impressionante de Robben.
Há equilíbrio em campo, mas as chances mais claras passam a ser da Holanda, mesmo tendo menos posse de bola. A Holanda também passa a fazer uso de uma arma que Dunga usou com a seleção brasileira que é a sucessão de faltas “técnicas”. Sem violência, rodízio de faltas sempre evitando os cartões amarelos que acabam enervando e de certa forma parando um pouco a constância ofensiva do adversário. Uma das faltas deveria ter sido punida com cartão vermelho direto que foi a voadora de De Jong em Xabi Alonso. Um lance de artes marciais que não foi punido como deveria.
No segundo tempo começou a aparecer a estrela de Casillas, o melhor em campo. Casillas começou o Mundial demonstrando certa desconfiança, mas, no jogo contra o Paraguai e especialmente hoje, mostrou que segue sendo um dos melhores em sua posição no mundo. E apareceu pela primeira vez de forma magnífica em um mano a mano com nada mais nada menos do que Robben que recebeu passe brilhante de Sneijder e acabou não conseguindo concluir com sucesso. Tinha duas opções: driblar Casillas para a direita ou chutar por cima. Tentou por baixo e o goleiro do Real Madrid defendeu com a perna.
Do outro lado a Espanha também criava algumas chances principalmente provenientes de bolas paradas. Villa quase marcou em rebote da defesa e que acabou sendo salvo por Van der Wiel de forma espetacular.
Também aos 70 minutos, em outra cabeçada livre de marcação depois de uma cobrança de escanteio, Sergio Ramos colocou por sobre o arco holandês no que foi uma das mais claras chances de gol do jogo.
Outro lance desperdiçado pela Espanha foi devido ao preciosismo de Iniesta, algo que prejudicou todo o time espanhol durante essa Copa. Após excelente manobra e giro em cima de Heitinga, demorou em concluir e foi desarmado por Sneijder que estava marcando na pequena área e que representa um pouco o espírito de luta e de coletividade desse time holandês.
Já no final do jogo, após passe brilhante de Iniesta para Fabregas, esse recebeu livre frente a uma defesa extasiada e acabou tendo seu gol impedido por excelente saída mais uma vez de Stekelenburg.
A prorrogação começou dando uma ideia clara de que a Holanda queria os pênaltis, pois já não aguentava mais enquanto que a Espanha, fazendo jus ao seu estilo, buscava o gol de todas as formas. No entanto a primeira chance clara foi de Mathijsen para a Holanda após outra cobrança de escanteio. A zaga falhou e o zagueiro holandês, um dos melhores da competição, cabeceou para fora.
Aos 98 minutos Iniesta mais uma vez demorou muito para concluir a jogada e deu tempo para que a marcação de Van Bronckhorst chegasse.
A ideia era que havia espaços na defesa laranja, mas faltava esse jogador com a rapidez e o poder de conclusão para matar o jogo ainda mais se consideramos que Villa havia sido substituído por Navas que é jogador de flanco. Talvez Torres, mesmo considerando sua lesão e seu consequente fraco desempenho, poderia ser uma opção, mas entrou tarde e pouca chance teve.
O jogo foi tão bom que jamais deu a impressão de que a decisão por pênaltis era algo seguro. Sempre houve clima e cheiro de gol, nunca as possibilidades de o jogo ser decidido com bola rolando foram aniquiladas e aí apareceu o gênio Iniesta, com sua aparência de analista de sistemas ou como disse Menotti, cara de caixa de banco. O fato é que, após excelente passe de Fabregas recebeu no bico da pequena área, esperou o pique da bola e definiu com brilhantismo sem chances para o gigante goleiro holandês. Golaço.
O gol de Iniesta e o título da Espanha abriram um leque para inúmeras questões de discussão. Para mim foi antes de tudo, a vitória do favorito, do melhor, e do time que melhor joga futebol no mundo. Um time que jamais renuncia ao seu estilo clássico de jogo, que gosta da bola, que troca passes que tem paciência, que tem técnica que ama o jogo em si. Faltou apenas uma coisa para a Espanha nessa Copa que foi o poder de definição e muito disso é culpa da lesão de Torres, seu matador. Mas ganhou o melhor.
Também essa vitória pode ser vista como uma vingança do Barcelona contra um anti-futebol. O Barcelona perdeu a final da Champions League para uma Inter Milan que jogou com 11 jogadores defendendo; depois a Espanha começa sua participação na Copa perdendo para a Suíça que jogava com seus 11 jogadores dentro da pequena área. Assim sendo, foi a redenção e a confirmação de que o melhor futebol também pode ser competitivo e ganhar títulos.
Evidentemente que a Holanda não é um time defensivo como foi a Inter Milan no segundo jogo da final da Champions. No entanto apresenta aspectos de anti-jogo como o excesso de faltas, provocações, catimba, tentativas de dissuadir a arbitragem e, soma-se a isso, um louvável controle emocional que evita que seus jogadores, quase todos tinham amarelo, fossem expulsos.
Não sou contra o uso dessas artimanhas, mas é bonito ver ganhar um time que joga
futebol dessa forma.
Em qualquer jogo que há essa carga emocional e esse clima de guerra dentro das quatro linhas, a imprensa sempre critica a arbitragem. Isso acontece no Brasil e acontece aqui também. A arbitragem de Webb foi impecável. Seu único equívoco foi a não expulsão de De Jong, no mais, não cometeu erros que poderiam ter influenciado o resultado do jogo. Deu cartões quando deveria dar e, para mim, administrou o jogo com excelência, sem muito papo, com seriedade e bom trato para com os jogadores.
Minha única dúvida é justamente no lance crucial do jogo. Acho que os holandeses protestaram por impedimento quando Iniesta recebeu o passe e o mesmo pensam todos os jornalistas aqui e, claro, ficou evidente que não estava adiantado. No entanto, quando a bola é lançada pela primeira vez na área e o zagueiro tira de voleio, aí acho que alguém está adiantado e se foi Iniesta poder ser considerado que usufruiu de sua posição previamente irregular. Não sei. Ainda não consegui ver o vídeo de novo.
Terminando, critico a todos aqueles que facilmente foram manipulados a pensar que a Espanha seria um fracasso após perder de maneira injusta para a Suíça na estreia. Apenas eu e o um guri de 13 anos daqui sempre acreditamos na Espanha rumo ao título apesar desse tropeço.
Antes de começar a análise individual dos jogadores, excelente o comentário do narrador do jogo do canal colombiano. Disse ele que essa poderia ser a segunda final decidida nos pênaltis da história depois de Estados Unidos 1994. O incompetente esqueceu-se de outra, que não foi nos anos 30 senão a última edição na Alemanha em 2006. Meu Deus.
Análise individual:
ESPANHA
Casillas: brilhante. Duas defesas fantásticas e segurança durante os 120 minutos. 10
Sergio Ramos: o melhor homem em campo depois de Casillas, foi o nome do primeiro tempo como atacante, mas também foi impecável defensivamente. 10
Piqué: algumas desatenções em bolas aéreas, mas nada que arriscasse a manutenção do zero no placar. 7
Puyol: perdeu uma bola na velocidade para Robben que acabou nas mãos de Casillas. Quase marcou outro gol de cabeça. 7
Capdevilla: com sua sobriedade de sempre, sobe ao ataque quando pode, sem pressa e exerce de maneira impecável seu trabalho defensivo. 7
Xabi Alonso: um leão no meio de campo, é quem faz a cobertura dos gênios. 7
Xavi: devido ao combate imposto pelos holandeses em seu território não jogou como gostaria. Mesmo assim, foi o jogador importante de sempre. 6,5
Busquets: junto com Alonso é quem faz o trabalho menos límpido no meio de campo espanhol. Em alguns momentos do primeiro tempo parecia desatendo, mas foi preciso como o foi em todo a campanha. 7
Iniesta: demasiado preciosismo em jogadas que poderiam ter definido o jogo mais cedo. Sofreu com o excesso de faltas e com a forte marcação holandesa, mas encerrou o torneio com um golaço em uma bela definição. 7,5
Pedro: participou muito pouco do jogo e sentiu a pressão exercida pela defesa adversária e pelos volantes de contenção da Holanda. 5
Villa: totalmente sumido do jogo, teve apenas uma boa chance de concluir. Devido ao modo em que a defesa holandesa jogou, se viu muitas vezes em posição irregular e sem saber por onde se meter. 5
Fabregas: entrou e foi um dos jogadores mais importantes em campo, não somente devido ao passe para o gol de Iniesta, mas também em outras inúmeras participações. 8,5
HOLANDA
Stekelenburg: a única bola em que não poderia fazer nada foi o gol de Iniesta. Pelo menos três excelentes defesas durante o jogo. 9
Van der Wiel: quase não aportou ofensivamente, mas foi simplesmente impecável na defesa, principalmente na marcação à Villa. 8
Heitinga: atuação perfeita do zagueiro do Everton que infelizmente acabou com sua expulsão. 8
Mathijsen: sem dúvidas foi um dos melhores zagueiros da competição. Quase marcou um gol e foi decisivo na manutenção do zero no placar holandês. 8,5
Van Bronckhorst: assim como Wiel quase não subiu ao ataque. Desempenhou uma função mais defensiva e o fez com correção. 7
Van Bommel: volante de muita qualidade técnica, mas que também pode ser um volante de Bagé dos anos 50. Provoca, bate, catimba, enfim, tem o temperamento de um jogador sul-americano, um volante uruguaio. 8,5
Sneijder: mais se dedicou ao esquema tático do que brindou o time com sua reconhecida qualidade técnica. Deu um passe virtuoso para Robben. 7
Kuyt: jamais encontrou seu lugar no campo, sempre se via metido entre mais de um jogador adversário e não conseguiu sucesso em suas empreitadas. 4
Robben: durante os 120 minutos foi o jogador mais perigoso em campo. Perdeu dois gols que se repetirão em sua cabeça durante muitos anos, mas deve ser louvada sua função tática e sua facilidade de desorganizar e abrir espaços nas defesas adversárias. 8,5
Van Persie: uma das grandes decepções da Copa. Faltou-lhe atitude para encarar uma final de Copa do Mundo. 3
Um grandíssimo jogo, com emoções até o final, inúmeras chances de gols, entradas ríspidas, enfim, uma final com todos os elementos de final sul-americana.
O início do jogo deu a impressão de que uma das minhas previsões poderia acontecer que era uma vitória com certa facilidade por parte da Espanha. A Holanda praticamente não tocou na bola durante os primeiros minutos do jogo e via a Espanha se aproximar de seu primeiro gol.
Stekelenburg, o melhor goleiro da Copa, salvou de maneira impressionante uma cabeçada fantástica de Sergio Ramos. Este, diga-se de passagem, foi o melhor jogador do primeiro tempo jogando como quase um ponteiro direito e criando várias oportunidades de gol. Uma delas faltou o cacoete de atacante quando entrou a dribles pela direita e tentou um busca-pé que acabou sendo rechaçado por Heitinga em lance que pedia a sua conclusão ao gol.
O meio de campo espanhol asfixiava Sneijder e a Holanda se via em uma situação de completa impotência. Robben não tinha contato com a bola e Kuyt era obrigado a jogar quase de volante para tentar conter pelo menos em parte o poderio do meio ibérico.
O gol parecia ser questão de tempo. Em um dos tantos lances ríspidos do jogo Capdevilla deve ser atendido pelos médicos, o jogo para por alguns minutos e parece que esfriou o time de Del Bosque. Quando o jogo recomeça, há uma nova situação em campo com uma Holanda que avança sua marcação, povoa o meio de campo, adianta sua defesa que deixa Villa quatro vezes em impedimento e, com essa pressão, equilibra o jogo. Xavi e Iniesta, os motores e cérebros da Espanha sentem dificuldades em encontrar espaços e o jogo ganha a cara que a Holanda queria. Meio de campo congestionado e espaços para os contra-ataques com a velocidade impressionante de Robben.
Há equilíbrio em campo, mas as chances mais claras passam a ser da Holanda, mesmo tendo menos posse de bola. A Holanda também passa a fazer uso de uma arma que Dunga usou com a seleção brasileira que é a sucessão de faltas “técnicas”. Sem violência, rodízio de faltas sempre evitando os cartões amarelos que acabam enervando e de certa forma parando um pouco a constância ofensiva do adversário. Uma das faltas deveria ter sido punida com cartão vermelho direto que foi a voadora de De Jong em Xabi Alonso. Um lance de artes marciais que não foi punido como deveria.
No segundo tempo começou a aparecer a estrela de Casillas, o melhor em campo. Casillas começou o Mundial demonstrando certa desconfiança, mas, no jogo contra o Paraguai e especialmente hoje, mostrou que segue sendo um dos melhores em sua posição no mundo. E apareceu pela primeira vez de forma magnífica em um mano a mano com nada mais nada menos do que Robben que recebeu passe brilhante de Sneijder e acabou não conseguindo concluir com sucesso. Tinha duas opções: driblar Casillas para a direita ou chutar por cima. Tentou por baixo e o goleiro do Real Madrid defendeu com a perna.
Do outro lado a Espanha também criava algumas chances principalmente provenientes de bolas paradas. Villa quase marcou em rebote da defesa e que acabou sendo salvo por Van der Wiel de forma espetacular.
Também aos 70 minutos, em outra cabeçada livre de marcação depois de uma cobrança de escanteio, Sergio Ramos colocou por sobre o arco holandês no que foi uma das mais claras chances de gol do jogo.
Outro lance desperdiçado pela Espanha foi devido ao preciosismo de Iniesta, algo que prejudicou todo o time espanhol durante essa Copa. Após excelente manobra e giro em cima de Heitinga, demorou em concluir e foi desarmado por Sneijder que estava marcando na pequena área e que representa um pouco o espírito de luta e de coletividade desse time holandês.
Já no final do jogo, após passe brilhante de Iniesta para Fabregas, esse recebeu livre frente a uma defesa extasiada e acabou tendo seu gol impedido por excelente saída mais uma vez de Stekelenburg.
A prorrogação começou dando uma ideia clara de que a Holanda queria os pênaltis, pois já não aguentava mais enquanto que a Espanha, fazendo jus ao seu estilo, buscava o gol de todas as formas. No entanto a primeira chance clara foi de Mathijsen para a Holanda após outra cobrança de escanteio. A zaga falhou e o zagueiro holandês, um dos melhores da competição, cabeceou para fora.
Aos 98 minutos Iniesta mais uma vez demorou muito para concluir a jogada e deu tempo para que a marcação de Van Bronckhorst chegasse.
A ideia era que havia espaços na defesa laranja, mas faltava esse jogador com a rapidez e o poder de conclusão para matar o jogo ainda mais se consideramos que Villa havia sido substituído por Navas que é jogador de flanco. Talvez Torres, mesmo considerando sua lesão e seu consequente fraco desempenho, poderia ser uma opção, mas entrou tarde e pouca chance teve.
O jogo foi tão bom que jamais deu a impressão de que a decisão por pênaltis era algo seguro. Sempre houve clima e cheiro de gol, nunca as possibilidades de o jogo ser decidido com bola rolando foram aniquiladas e aí apareceu o gênio Iniesta, com sua aparência de analista de sistemas ou como disse Menotti, cara de caixa de banco. O fato é que, após excelente passe de Fabregas recebeu no bico da pequena área, esperou o pique da bola e definiu com brilhantismo sem chances para o gigante goleiro holandês. Golaço.
O gol de Iniesta e o título da Espanha abriram um leque para inúmeras questões de discussão. Para mim foi antes de tudo, a vitória do favorito, do melhor, e do time que melhor joga futebol no mundo. Um time que jamais renuncia ao seu estilo clássico de jogo, que gosta da bola, que troca passes que tem paciência, que tem técnica que ama o jogo em si. Faltou apenas uma coisa para a Espanha nessa Copa que foi o poder de definição e muito disso é culpa da lesão de Torres, seu matador. Mas ganhou o melhor.
Também essa vitória pode ser vista como uma vingança do Barcelona contra um anti-futebol. O Barcelona perdeu a final da Champions League para uma Inter Milan que jogou com 11 jogadores defendendo; depois a Espanha começa sua participação na Copa perdendo para a Suíça que jogava com seus 11 jogadores dentro da pequena área. Assim sendo, foi a redenção e a confirmação de que o melhor futebol também pode ser competitivo e ganhar títulos.
Evidentemente que a Holanda não é um time defensivo como foi a Inter Milan no segundo jogo da final da Champions. No entanto apresenta aspectos de anti-jogo como o excesso de faltas, provocações, catimba, tentativas de dissuadir a arbitragem e, soma-se a isso, um louvável controle emocional que evita que seus jogadores, quase todos tinham amarelo, fossem expulsos.
Não sou contra o uso dessas artimanhas, mas é bonito ver ganhar um time que joga
futebol dessa forma.
Em qualquer jogo que há essa carga emocional e esse clima de guerra dentro das quatro linhas, a imprensa sempre critica a arbitragem. Isso acontece no Brasil e acontece aqui também. A arbitragem de Webb foi impecável. Seu único equívoco foi a não expulsão de De Jong, no mais, não cometeu erros que poderiam ter influenciado o resultado do jogo. Deu cartões quando deveria dar e, para mim, administrou o jogo com excelência, sem muito papo, com seriedade e bom trato para com os jogadores.
Minha única dúvida é justamente no lance crucial do jogo. Acho que os holandeses protestaram por impedimento quando Iniesta recebeu o passe e o mesmo pensam todos os jornalistas aqui e, claro, ficou evidente que não estava adiantado. No entanto, quando a bola é lançada pela primeira vez na área e o zagueiro tira de voleio, aí acho que alguém está adiantado e se foi Iniesta poder ser considerado que usufruiu de sua posição previamente irregular. Não sei. Ainda não consegui ver o vídeo de novo.
Terminando, critico a todos aqueles que facilmente foram manipulados a pensar que a Espanha seria um fracasso após perder de maneira injusta para a Suíça na estreia. Apenas eu e o um guri de 13 anos daqui sempre acreditamos na Espanha rumo ao título apesar desse tropeço.
Antes de começar a análise individual dos jogadores, excelente o comentário do narrador do jogo do canal colombiano. Disse ele que essa poderia ser a segunda final decidida nos pênaltis da história depois de Estados Unidos 1994. O incompetente esqueceu-se de outra, que não foi nos anos 30 senão a última edição na Alemanha em 2006. Meu Deus.
Análise individual:
ESPANHA
Casillas: brilhante. Duas defesas fantásticas e segurança durante os 120 minutos. 10
Sergio Ramos: o melhor homem em campo depois de Casillas, foi o nome do primeiro tempo como atacante, mas também foi impecável defensivamente. 10
Piqué: algumas desatenções em bolas aéreas, mas nada que arriscasse a manutenção do zero no placar. 7
Puyol: perdeu uma bola na velocidade para Robben que acabou nas mãos de Casillas. Quase marcou outro gol de cabeça. 7
Capdevilla: com sua sobriedade de sempre, sobe ao ataque quando pode, sem pressa e exerce de maneira impecável seu trabalho defensivo. 7
Xabi Alonso: um leão no meio de campo, é quem faz a cobertura dos gênios. 7
Xavi: devido ao combate imposto pelos holandeses em seu território não jogou como gostaria. Mesmo assim, foi o jogador importante de sempre. 6,5
Busquets: junto com Alonso é quem faz o trabalho menos límpido no meio de campo espanhol. Em alguns momentos do primeiro tempo parecia desatendo, mas foi preciso como o foi em todo a campanha. 7
Iniesta: demasiado preciosismo em jogadas que poderiam ter definido o jogo mais cedo. Sofreu com o excesso de faltas e com a forte marcação holandesa, mas encerrou o torneio com um golaço em uma bela definição. 7,5
Pedro: participou muito pouco do jogo e sentiu a pressão exercida pela defesa adversária e pelos volantes de contenção da Holanda. 5
Villa: totalmente sumido do jogo, teve apenas uma boa chance de concluir. Devido ao modo em que a defesa holandesa jogou, se viu muitas vezes em posição irregular e sem saber por onde se meter. 5
Fabregas: entrou e foi um dos jogadores mais importantes em campo, não somente devido ao passe para o gol de Iniesta, mas também em outras inúmeras participações. 8,5
HOLANDA
Stekelenburg: a única bola em que não poderia fazer nada foi o gol de Iniesta. Pelo menos três excelentes defesas durante o jogo. 9
Van der Wiel: quase não aportou ofensivamente, mas foi simplesmente impecável na defesa, principalmente na marcação à Villa. 8
Heitinga: atuação perfeita do zagueiro do Everton que infelizmente acabou com sua expulsão. 8
Mathijsen: sem dúvidas foi um dos melhores zagueiros da competição. Quase marcou um gol e foi decisivo na manutenção do zero no placar holandês. 8,5
Van Bronckhorst: assim como Wiel quase não subiu ao ataque. Desempenhou uma função mais defensiva e o fez com correção. 7
Van Bommel: volante de muita qualidade técnica, mas que também pode ser um volante de Bagé dos anos 50. Provoca, bate, catimba, enfim, tem o temperamento de um jogador sul-americano, um volante uruguaio. 8,5
Sneijder: mais se dedicou ao esquema tático do que brindou o time com sua reconhecida qualidade técnica. Deu um passe virtuoso para Robben. 7
Kuyt: jamais encontrou seu lugar no campo, sempre se via metido entre mais de um jogador adversário e não conseguiu sucesso em suas empreitadas. 4
Robben: durante os 120 minutos foi o jogador mais perigoso em campo. Perdeu dois gols que se repetirão em sua cabeça durante muitos anos, mas deve ser louvada sua função tática e sua facilidade de desorganizar e abrir espaços nas defesas adversárias. 8,5
Van Persie: uma das grandes decepções da Copa. Faltou-lhe atitude para encarar uma final de Copa do Mundo. 3
sábado, 10 de julho de 2010
Ginetes da Cocaína
Que a Colômbia é o maior produtor de cocaína do mundo eu e todo mundo já sabia. Que muitas coisas aqui foram construídas patrocinadas com o sujo dinheiro do tráfico internacional de drogas, também já sabia.
Apesar de ainda não ter feito o “tur Pablo Escobar” que é a atividade turística mais procurada por estrangeiros em Medelín e que consiste em visitar lugares que tiveram alguma relação com o maior traficante de drogas da história, na primeira vez em que vim à Colômbia, pude ver algumas coisas curiosas. Espalhadas pela cidade há construções imensas abandonadas, pois foram iniciadas pelo Cartel de Medelín e, com o desmantelamento deste, foram abandonadas. Obviamente eram obras que tinham como único objetivo a lavagem de dinheiro.
Mesmo com todo esse conhecimento que creia ser muito vasto sobre o que representa o tráfico de drogas nesse país, confesso que, depois de ler o livro “Os Ginetes da Cocaína”, escrito por um jornalista colombiano durante os anos 80, me dei conta de que não tinha a mínima ideia da proporção em que o tráfico de drogas dominou e ainda domina esse país. A conclusão que tive após a leitura desse livro de menos de 300 páginas foi que vivo em um país que foi totalmente construído com o dinheiro do narcotráfico.
O grau de importância e de dominação que os poderosos cartéis colombianos atingiram durante o final dos anos 70 e princípios dos anos 80 foram responsáveis pela transformação de um país. Cidades como Medelín e Cali e até Miami, deixaram de ser cidades planas e rasteiras e passaram a ser canteiros de obras. A leitura desse livro me saciou algumas inquietudes que eu tinha aqui.
Para que entendam, explico um pouco como é dividida socialmente Medelín.
Metida entre morros, a cidade não tem muito para onde crescer. Assim como no Rio de Janeiro, toda a pobreza e parcelas da classe média estão localizadas nas montanhas que circundam a cidade. Na parte plana, amontoam-se carros e edifícios. Vale lembrar que Medelín possui uma área que é a metade de Porto Alegre, mas com um milhão de habitantes a mais.
A ideia de “bairro” aqui também é muito distinta a de que temos no Rio Grande do Sul. Um bairro aqui normalmente é associado a uma região popular da cidade. O meu “bairro” que ninguém chama de bairro, é onde se vive toda a classe média alta, a elite e parte da classe média.
Outro fator que torna difícil utilizar o termo “bairro” é que, essa região, é gigantesca. Há centenas de edifícios e toda essa parcela privilegiada se amontoa nesse mesmo espaço. Essa parte da cidade se localiza numa parte alta que é relativamente nova. Fora daqui, na parte plana, são bairros modestos ou pobres e, em algumas partes, classe média e alta, mas são minoria.
O fato é que tinha essa inquietude que manifestei anteriormente que consistia em olhar essa selva de pedras ao meu redor e não ver sequer um edifício com uma aparência de ter 30 anos. Tudo é novo.
Tudo é novo e todo esse novo tem relação direta com a explosão do negócio das drogas.
No início do narcotráfico na Colômbia, basicamente duas famílias tinham destaque: Escobar e os Ochoa que, diga-se de passagem, são meus vizinhos e hoje dizem não ter mais negócios irregulares.
Essas duas famílias foram as que fizeram do negócio das drogas um fenômeno lucrativo jamais visto na história desse país. Aliadas a guerrilhas de zonas rurais, transformaram uma planta que não valia mais do que uma erva-daninha em uma máquina de fazer dinheiro.
Ao mesmo tempo em que ganhavam muito dinheiro, também gastavam muito dinheiro “investindo” em seus negócios. Para isso, como se tratava de um negócio que tinha seus consumidores finais fora do país, eram obrigados a negociar e ter suas relações internacionais em diferentes países, mais fortemente nos Estados Unidos e na Espanha.
Os governos americanos e de países europeus, ao sentir o crescimento vertiginoso desse bando de delinquentes latinos, começaram a aumentar o combate a essa nova onda de terror que pedia passagem. Muitos narcotraficantes foram presos, muitos carregamentos de drogas foram destruídos e a eficiência e a dificuldade que esses governos lhes impunham fizeram com que os grandes cartéis chegassem a uma temerosa conclusão: deveriam “comprar” o país (Colômbia) e lá estabelecer todo o mecanismo do tráfico.
A “compra” da Colômbia foi, para mim, uma das coisas mais impressionantes que já tive conhecimento. A leitura desse livro pode ser uma comprovação que tudo tem um preço e que a maioria das pessoas é corruptível. Todas as esferas da sociedade colombiana foram transformadas em braços do narcotráfico. Juízes, imprensa, políticos, líderes comunitários, polícia, governo, esporte, festas populares, turismo, transportes, comércio, bancos, enfim, tudo passou a ser parte de uma organização que tinha claro em sua cabeça um plano incrivelmente eficaz de comprar um país.
Pablo Escobar, por exemplo, era político, tinha um cargo público. Sua campanha era feita através de doações em bairros populares. Era uma espécie de Robin Hood, era idolatrado nas famosas “comunas”, as favelas de Medelín. Organizava eventos, dava comida, dinheiro e assim construía uma legião de admiradores que tinham o poder de elegê-lo.
Mas por que Pablo Escobar queria ser político se tinha quase toda a classe política comprada? Pode soar incrível, mas o benefício maior que Escobar queria ao ser um “homem público” era o visto americano e a imunidade parlamentar.
É interessante no livro a maneira em que o autor cita um tal Álvaro Uribe Vélez, narcotraficante e senador à época. O senhor em questão era o pai do atual presidente colombiano.
Essas conexões com a política atingiam todos os setores, até a presidência do país. O autor dá provas concretas dos vínculos dos narcotraficantes com todos os presidentes colombianos da época.
Essas relações pornográficas com o poder público rendiam muitas facilidades para a operação dos “capos” do narcotráfico, como autorizações para terem exércitos particulares com soldados cedidos pelo governo, por exemplo. Também lhes oferecia conexões diretas com a grande maioria dos cônsules e embaixadores colombianos em países estratégicos que acabavam exercendo um importante trabalho juntamente com os cartéis principalmente na hora de evitar prisões e/ou extradições de narcotraficantes procurados no exterior.
Tendo o setor político do país ao seu dispor, havia-se de controlar também a imprensa que em muitos casos pode ser um estorvo em meio a atos criminosos.
Se comprar toda a camada política do país foi fácil, a imprensa não foi diferente.
Alguns narcotraficantes chegaram ao ponto de ter seus próprios meios de comunicação como estações de rádio ou jornais. Um desses jornais era conhecido por sempre exaltar as benfeitorias realizadas por Escobar em Medelín.
Evidentemente houve políticos e jornalistas que se opunham a esse escândalo. O destino deles foi óbvio: o assassinato cometido pelos conhecidos “sicários” de Escobar. O jornalista que escreveu o livro o fez em homenagem ao seu chefe que sempre foi ferrenho na explicitação dos crimes cometidos por narcotraficantes e políticos corruptos em seu país e que acabou também brutalmente assassinado.
Outro aspecto importante a ser resolvido pelos narcotraficantes era a lavagem do dinheiro proveniente da droga. Para isso, compraram o comércio e o sistema financeiro do país.
Desde redes de farmácias que, vale destacar, chegavam ao ponto de alterar medicações destinadas a crianças até bancos e sindicatos, passando por revendas de carros importados, lojas, xópins e até parques infantis, tudo era controlado pela máfia colombiana e tinha como único objetivo a lavagem de dólares.
Alguns atos dos narcotraficantes descritos no livro me chamaram bastante a atenção e mostram bem essa megalomania tradicional dessas pessoas. A gana de serem donos do mundo os levava a atos simplesmente inacreditáveis.
Todo o futebol colombiano era controlado por mafiosos. Os criminosos viram nos laços internacionais que o futebol oferece uma oportunidade única de lavar seu dinheiro sujo. Começou, de uma hora para outra, uma corrida de diferentes grupos criminosos pela compra de clubes de futebol da primeira divisão colombiana. Além dos clubes, os passes da maioria dos jogadores eram adquiridos por essas organizações.
O resultado disso foi uma série de campeonatos com suspeitas de manipulação de resultados e consequente perda de interesse da população pelo futebol local que se pode sentir até hoje em meio às pessoas que viveram essa época.
A coisa era tão série que o órgão que controlava o futebol colombiano, chamado Dimayor também era gerido pela máfia e que chegou ao cúmulo de suspender uma rodada do Campeonato Colombiano como forma de luto pela morte de um conhecido narcotraficante da época.
Mas não foi apenas o futebol alvo da cobiça dos traficantes. Pablo Escobar patrocinava através de suas inúmeras empresas lavadoras de dinheiro a seleção colombiana de ciclismo que é o segundo esporte mais popular do país. Inclusive foi Pablo Escobar quem bancou a ida da delegação colombiana ao famoso Tour de France.
E a voracidade esportiva não parava por aí. A maioria dos autódromos colombianos foi construída com dinheiro sujo. Houve um caso incrível de pilotos colombianos presos no exterior por utilizarem seus carros para transportar cocaína.
O primeiro hipódromo do país também foi construído pela máfia, mais precisamente pelo clã dos Ochoa que era fascinado por cavalos.
Deixando o esporte de lado, talvez o setor da sociedade mais cobiçado pelos narcotraficantes era o de aviação e por motivos óbvios. No livro o autor coloca em seu apêndice uma lista de todos os aeroportos clandestinos do país bem como o registro de todos os aviões utilizados pelo narcotráfico. Inúmeras companhias aéreas foram criadas ou compradas por organizações criminosas, não somente na Colômbia, mas
também nos Estados Unidos e em países da América Central e África que são portas de entrada para os grandes mercados americano e europeus. O mais incrível quando comentamos sobre a aviação é que essas organizações chegaram ao cúmulo de possuir imensos hangares localizados não apenas no meio da floresta, mas dentro do principal aeroporto do país, o El Dorado de Bogotá.
No entanto o setor da sociedade onde a máfia estava também presente que mais me chocou foi o setor universitário. O governo da época era tão corrupto que chegou ao cúmulo de aprovar licitações feitas por parte de grupos e pessoas reconhecidas por seus claros vínculos com o narcotráfico para a construção de universidades!
Há um caso espetacular narrado pelo autor em que, em uma universidade colombiana, o reitor autorizou uma exposição de cavalos de um mafioso reconhecido internacionalmente. Esse mafioso tinha como sua marca registrada o número oito que colocava em todos os seus bens, desde os pacotes de cocaína até seus carros e cavalos. Quando os alunos viram que os cavalos em questão tinham o número oito gravados em seus corpos começaram uma espécie de protesto. Em seguida, os guarda-costas do mafioso deram tiros para o ar e a situação foi prontamente acalmada. Isso aconteceu DENTRO de uma universidade.
A conclusão que se chega ao terminar o livro é a de que, se não fosse pelo dinheiro que ainda é injetado nesse país pelo narcotráfico, a Colômbia estaria em uma situação ainda pior, seria uma espécie de Bolívia. Também se pode notar ao conviver com a média da população colombiana que essa mentalidade criminosa não é posse exclusiva de narcotraficantes de fato e sim se manifesta de diferentes maneiras, em toda a população do país. O pensar em si mesmo antes de todos não importando se haverá terceiros prejudicados, o culto ao dinheiro fácil, a adoração a bens materiais extravagantes como carros esportivos, a ideia de estar cercado por mulheres, a ideia de sempre buscar uma maneira fácil de atingir determinado objetivo de querer tirar vantagem em todas as situações, assim é a sociedade colombiana, uma sociedade que se acostumou com o narcotráfico e que não recrimina as pessoas que são partes diretamente disso com a intensidade necessária.
Segue também uma espécie de obsessão por esse ideal de vida, a grande maioria ainda é viciada ao narcotráfico, as novelas mais populares são as que envolvem histórias de cartéis e “capos” da droga, tem-se ainda muito vivo no país a admiração pelos logros sujos do período negro colombiano que ainda existe, mas mais discretamente.
Ao mesmo tempo, em uma atitude totalmente hipócrita, lamentam-se ao se verem de frente com problemas como dificuldade na obtenção de vistos ou preconceito sofrido no exterior.
Há uma frase clichê que, para mim, é uma verdade quase que inquestionável na maioria das situações: todo mundo colhe o que planta e a população colombiana colhe as chagas de não ter se rebelado contra o absurdo de um país dominado pelo crime organizado.
Apesar de ainda não ter feito o “tur Pablo Escobar” que é a atividade turística mais procurada por estrangeiros em Medelín e que consiste em visitar lugares que tiveram alguma relação com o maior traficante de drogas da história, na primeira vez em que vim à Colômbia, pude ver algumas coisas curiosas. Espalhadas pela cidade há construções imensas abandonadas, pois foram iniciadas pelo Cartel de Medelín e, com o desmantelamento deste, foram abandonadas. Obviamente eram obras que tinham como único objetivo a lavagem de dinheiro.
Mesmo com todo esse conhecimento que creia ser muito vasto sobre o que representa o tráfico de drogas nesse país, confesso que, depois de ler o livro “Os Ginetes da Cocaína”, escrito por um jornalista colombiano durante os anos 80, me dei conta de que não tinha a mínima ideia da proporção em que o tráfico de drogas dominou e ainda domina esse país. A conclusão que tive após a leitura desse livro de menos de 300 páginas foi que vivo em um país que foi totalmente construído com o dinheiro do narcotráfico.
O grau de importância e de dominação que os poderosos cartéis colombianos atingiram durante o final dos anos 70 e princípios dos anos 80 foram responsáveis pela transformação de um país. Cidades como Medelín e Cali e até Miami, deixaram de ser cidades planas e rasteiras e passaram a ser canteiros de obras. A leitura desse livro me saciou algumas inquietudes que eu tinha aqui.
Para que entendam, explico um pouco como é dividida socialmente Medelín.
Metida entre morros, a cidade não tem muito para onde crescer. Assim como no Rio de Janeiro, toda a pobreza e parcelas da classe média estão localizadas nas montanhas que circundam a cidade. Na parte plana, amontoam-se carros e edifícios. Vale lembrar que Medelín possui uma área que é a metade de Porto Alegre, mas com um milhão de habitantes a mais.
A ideia de “bairro” aqui também é muito distinta a de que temos no Rio Grande do Sul. Um bairro aqui normalmente é associado a uma região popular da cidade. O meu “bairro” que ninguém chama de bairro, é onde se vive toda a classe média alta, a elite e parte da classe média.
Outro fator que torna difícil utilizar o termo “bairro” é que, essa região, é gigantesca. Há centenas de edifícios e toda essa parcela privilegiada se amontoa nesse mesmo espaço. Essa parte da cidade se localiza numa parte alta que é relativamente nova. Fora daqui, na parte plana, são bairros modestos ou pobres e, em algumas partes, classe média e alta, mas são minoria.
O fato é que tinha essa inquietude que manifestei anteriormente que consistia em olhar essa selva de pedras ao meu redor e não ver sequer um edifício com uma aparência de ter 30 anos. Tudo é novo.
Tudo é novo e todo esse novo tem relação direta com a explosão do negócio das drogas.
No início do narcotráfico na Colômbia, basicamente duas famílias tinham destaque: Escobar e os Ochoa que, diga-se de passagem, são meus vizinhos e hoje dizem não ter mais negócios irregulares.
Essas duas famílias foram as que fizeram do negócio das drogas um fenômeno lucrativo jamais visto na história desse país. Aliadas a guerrilhas de zonas rurais, transformaram uma planta que não valia mais do que uma erva-daninha em uma máquina de fazer dinheiro.
Ao mesmo tempo em que ganhavam muito dinheiro, também gastavam muito dinheiro “investindo” em seus negócios. Para isso, como se tratava de um negócio que tinha seus consumidores finais fora do país, eram obrigados a negociar e ter suas relações internacionais em diferentes países, mais fortemente nos Estados Unidos e na Espanha.
Os governos americanos e de países europeus, ao sentir o crescimento vertiginoso desse bando de delinquentes latinos, começaram a aumentar o combate a essa nova onda de terror que pedia passagem. Muitos narcotraficantes foram presos, muitos carregamentos de drogas foram destruídos e a eficiência e a dificuldade que esses governos lhes impunham fizeram com que os grandes cartéis chegassem a uma temerosa conclusão: deveriam “comprar” o país (Colômbia) e lá estabelecer todo o mecanismo do tráfico.
A “compra” da Colômbia foi, para mim, uma das coisas mais impressionantes que já tive conhecimento. A leitura desse livro pode ser uma comprovação que tudo tem um preço e que a maioria das pessoas é corruptível. Todas as esferas da sociedade colombiana foram transformadas em braços do narcotráfico. Juízes, imprensa, políticos, líderes comunitários, polícia, governo, esporte, festas populares, turismo, transportes, comércio, bancos, enfim, tudo passou a ser parte de uma organização que tinha claro em sua cabeça um plano incrivelmente eficaz de comprar um país.
Pablo Escobar, por exemplo, era político, tinha um cargo público. Sua campanha era feita através de doações em bairros populares. Era uma espécie de Robin Hood, era idolatrado nas famosas “comunas”, as favelas de Medelín. Organizava eventos, dava comida, dinheiro e assim construía uma legião de admiradores que tinham o poder de elegê-lo.
Mas por que Pablo Escobar queria ser político se tinha quase toda a classe política comprada? Pode soar incrível, mas o benefício maior que Escobar queria ao ser um “homem público” era o visto americano e a imunidade parlamentar.
É interessante no livro a maneira em que o autor cita um tal Álvaro Uribe Vélez, narcotraficante e senador à época. O senhor em questão era o pai do atual presidente colombiano.
Essas conexões com a política atingiam todos os setores, até a presidência do país. O autor dá provas concretas dos vínculos dos narcotraficantes com todos os presidentes colombianos da época.
Essas relações pornográficas com o poder público rendiam muitas facilidades para a operação dos “capos” do narcotráfico, como autorizações para terem exércitos particulares com soldados cedidos pelo governo, por exemplo. Também lhes oferecia conexões diretas com a grande maioria dos cônsules e embaixadores colombianos em países estratégicos que acabavam exercendo um importante trabalho juntamente com os cartéis principalmente na hora de evitar prisões e/ou extradições de narcotraficantes procurados no exterior.
Tendo o setor político do país ao seu dispor, havia-se de controlar também a imprensa que em muitos casos pode ser um estorvo em meio a atos criminosos.
Se comprar toda a camada política do país foi fácil, a imprensa não foi diferente.
Alguns narcotraficantes chegaram ao ponto de ter seus próprios meios de comunicação como estações de rádio ou jornais. Um desses jornais era conhecido por sempre exaltar as benfeitorias realizadas por Escobar em Medelín.
Evidentemente houve políticos e jornalistas que se opunham a esse escândalo. O destino deles foi óbvio: o assassinato cometido pelos conhecidos “sicários” de Escobar. O jornalista que escreveu o livro o fez em homenagem ao seu chefe que sempre foi ferrenho na explicitação dos crimes cometidos por narcotraficantes e políticos corruptos em seu país e que acabou também brutalmente assassinado.
Outro aspecto importante a ser resolvido pelos narcotraficantes era a lavagem do dinheiro proveniente da droga. Para isso, compraram o comércio e o sistema financeiro do país.
Desde redes de farmácias que, vale destacar, chegavam ao ponto de alterar medicações destinadas a crianças até bancos e sindicatos, passando por revendas de carros importados, lojas, xópins e até parques infantis, tudo era controlado pela máfia colombiana e tinha como único objetivo a lavagem de dólares.
Alguns atos dos narcotraficantes descritos no livro me chamaram bastante a atenção e mostram bem essa megalomania tradicional dessas pessoas. A gana de serem donos do mundo os levava a atos simplesmente inacreditáveis.
Todo o futebol colombiano era controlado por mafiosos. Os criminosos viram nos laços internacionais que o futebol oferece uma oportunidade única de lavar seu dinheiro sujo. Começou, de uma hora para outra, uma corrida de diferentes grupos criminosos pela compra de clubes de futebol da primeira divisão colombiana. Além dos clubes, os passes da maioria dos jogadores eram adquiridos por essas organizações.
O resultado disso foi uma série de campeonatos com suspeitas de manipulação de resultados e consequente perda de interesse da população pelo futebol local que se pode sentir até hoje em meio às pessoas que viveram essa época.
A coisa era tão série que o órgão que controlava o futebol colombiano, chamado Dimayor também era gerido pela máfia e que chegou ao cúmulo de suspender uma rodada do Campeonato Colombiano como forma de luto pela morte de um conhecido narcotraficante da época.
Mas não foi apenas o futebol alvo da cobiça dos traficantes. Pablo Escobar patrocinava através de suas inúmeras empresas lavadoras de dinheiro a seleção colombiana de ciclismo que é o segundo esporte mais popular do país. Inclusive foi Pablo Escobar quem bancou a ida da delegação colombiana ao famoso Tour de France.
E a voracidade esportiva não parava por aí. A maioria dos autódromos colombianos foi construída com dinheiro sujo. Houve um caso incrível de pilotos colombianos presos no exterior por utilizarem seus carros para transportar cocaína.
O primeiro hipódromo do país também foi construído pela máfia, mais precisamente pelo clã dos Ochoa que era fascinado por cavalos.
Deixando o esporte de lado, talvez o setor da sociedade mais cobiçado pelos narcotraficantes era o de aviação e por motivos óbvios. No livro o autor coloca em seu apêndice uma lista de todos os aeroportos clandestinos do país bem como o registro de todos os aviões utilizados pelo narcotráfico. Inúmeras companhias aéreas foram criadas ou compradas por organizações criminosas, não somente na Colômbia, mas
também nos Estados Unidos e em países da América Central e África que são portas de entrada para os grandes mercados americano e europeus. O mais incrível quando comentamos sobre a aviação é que essas organizações chegaram ao cúmulo de possuir imensos hangares localizados não apenas no meio da floresta, mas dentro do principal aeroporto do país, o El Dorado de Bogotá.
No entanto o setor da sociedade onde a máfia estava também presente que mais me chocou foi o setor universitário. O governo da época era tão corrupto que chegou ao cúmulo de aprovar licitações feitas por parte de grupos e pessoas reconhecidas por seus claros vínculos com o narcotráfico para a construção de universidades!
Há um caso espetacular narrado pelo autor em que, em uma universidade colombiana, o reitor autorizou uma exposição de cavalos de um mafioso reconhecido internacionalmente. Esse mafioso tinha como sua marca registrada o número oito que colocava em todos os seus bens, desde os pacotes de cocaína até seus carros e cavalos. Quando os alunos viram que os cavalos em questão tinham o número oito gravados em seus corpos começaram uma espécie de protesto. Em seguida, os guarda-costas do mafioso deram tiros para o ar e a situação foi prontamente acalmada. Isso aconteceu DENTRO de uma universidade.
A conclusão que se chega ao terminar o livro é a de que, se não fosse pelo dinheiro que ainda é injetado nesse país pelo narcotráfico, a Colômbia estaria em uma situação ainda pior, seria uma espécie de Bolívia. Também se pode notar ao conviver com a média da população colombiana que essa mentalidade criminosa não é posse exclusiva de narcotraficantes de fato e sim se manifesta de diferentes maneiras, em toda a população do país. O pensar em si mesmo antes de todos não importando se haverá terceiros prejudicados, o culto ao dinheiro fácil, a adoração a bens materiais extravagantes como carros esportivos, a ideia de estar cercado por mulheres, a ideia de sempre buscar uma maneira fácil de atingir determinado objetivo de querer tirar vantagem em todas as situações, assim é a sociedade colombiana, uma sociedade que se acostumou com o narcotráfico e que não recrimina as pessoas que são partes diretamente disso com a intensidade necessária.
Segue também uma espécie de obsessão por esse ideal de vida, a grande maioria ainda é viciada ao narcotráfico, as novelas mais populares são as que envolvem histórias de cartéis e “capos” da droga, tem-se ainda muito vivo no país a admiração pelos logros sujos do período negro colombiano que ainda existe, mas mais discretamente.
Ao mesmo tempo, em uma atitude totalmente hipócrita, lamentam-se ao se verem de frente com problemas como dificuldade na obtenção de vistos ou preconceito sofrido no exterior.
Há uma frase clichê que, para mim, é uma verdade quase que inquestionável na maioria das situações: todo mundo colhe o que planta e a população colombiana colhe as chagas de não ter se rebelado contra o absurdo de um país dominado pelo crime organizado.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Prognóstico Final
Espanha x Holanda: aposto em uma vitória espanhola sem titubear e não descarto a possibilidade de uma vitória construída com certa facilidade pelos ibéricos.
A Espanha demonstrou, após a derrota na estreia, ser um time extremamente paciente e que confia e acredita piamente em seu estilo superior de jogo. O gol não sai, mas não há desespero jamais. Claro, há de se considerar que jamais estiveram atrás no placar, o Brasil também demonstrou essa paciência até o momento em que se viu em uma adversidade e aí ruiu.
Mas não creio que isso acontecerá com a Espanha. Poucos destacam a atuação defensiva espanhola nessa Copa e muito isso devido ao poderio técnico ofensivo do time de Del Bosque. No entanto, quando analisamos as estatísticas, a Espanha sofreu apenas dois gols nessa Copa do Mundo e isso é algo que deveria também ser louvado.
Piqué é o melhor zagueiro da Copa enquanto que Ramos e Capdevilla são os melhores laterais direito e esquerdo respectivamente. Puyol está muito bem, fez o gol da classificação contra a Alemanha e seus volantes, Xavi e Xabi Alonso são os dois melhores em suas posições até o momento.
Do outro lado estará um time rápido e jovem que, segundo os próprios referentes do plantel, ainda não rendeu o que poderia e isso é fato. A Holanda tem potencial para jogar muito mais do que vem jogando e o mais importante: tem qualidade técnica de sobra para melhorar muito.
A defesa holandesa também é forte; Stekelenburg é o melhor goleiro da Copa e Mathijsen um dos melhores defensores. O meio de campo e o ataque contam com excelentes individualidades como Sneijder, o melhor jogador holandês da competição, Van Persie, que ainda está em dívida e Robben, o craque do time que demonstrou contra Brasil e Uruguai por que o técnico esperou tanto por sua recuperação.
Além desses jogadores, há opções no banco de reservas que podem mudar a cara de um jogo, algo que faltou para o Brasil e Alemanha, por exemplo. Há pelo menos quatro excelentes opções: Van der Vaart, Afellay, Elia e Huntelaar.
Lembro também, que, assim que foi feito o sorteio dos grupos, fiz minhas previsões e acertei em cheio sobre qual seria a final da Copa que terá um campeão inédito e que irá acabar com pelo menos um carma de dois possíveis: Espanha ou Holanda irão perder sua fama de sempre fracassar em copas do mundo.
A Espanha demonstrou, após a derrota na estreia, ser um time extremamente paciente e que confia e acredita piamente em seu estilo superior de jogo. O gol não sai, mas não há desespero jamais. Claro, há de se considerar que jamais estiveram atrás no placar, o Brasil também demonstrou essa paciência até o momento em que se viu em uma adversidade e aí ruiu.
Mas não creio que isso acontecerá com a Espanha. Poucos destacam a atuação defensiva espanhola nessa Copa e muito isso devido ao poderio técnico ofensivo do time de Del Bosque. No entanto, quando analisamos as estatísticas, a Espanha sofreu apenas dois gols nessa Copa do Mundo e isso é algo que deveria também ser louvado.
Piqué é o melhor zagueiro da Copa enquanto que Ramos e Capdevilla são os melhores laterais direito e esquerdo respectivamente. Puyol está muito bem, fez o gol da classificação contra a Alemanha e seus volantes, Xavi e Xabi Alonso são os dois melhores em suas posições até o momento.
Do outro lado estará um time rápido e jovem que, segundo os próprios referentes do plantel, ainda não rendeu o que poderia e isso é fato. A Holanda tem potencial para jogar muito mais do que vem jogando e o mais importante: tem qualidade técnica de sobra para melhorar muito.
A defesa holandesa também é forte; Stekelenburg é o melhor goleiro da Copa e Mathijsen um dos melhores defensores. O meio de campo e o ataque contam com excelentes individualidades como Sneijder, o melhor jogador holandês da competição, Van Persie, que ainda está em dívida e Robben, o craque do time que demonstrou contra Brasil e Uruguai por que o técnico esperou tanto por sua recuperação.
Além desses jogadores, há opções no banco de reservas que podem mudar a cara de um jogo, algo que faltou para o Brasil e Alemanha, por exemplo. Há pelo menos quatro excelentes opções: Van der Vaart, Afellay, Elia e Huntelaar.
Lembro também, que, assim que foi feito o sorteio dos grupos, fiz minhas previsões e acertei em cheio sobre qual seria a final da Copa que terá um campeão inédito e que irá acabar com pelo menos um carma de dois possíveis: Espanha ou Holanda irão perder sua fama de sempre fracassar em copas do mundo.
Quando os nobres não triunfam, o bárbaro aparece
Espanha 1x0 Alemanha: o desenrolar do jogo foi estranho tendo em vista que se tratava de duas seleções que priorizam o ataque, mas que faziam um jogo extremamente fechado e sem espaços. Não apareciam chances de gol e, desde o princípio, o jogo tinha cara de que ia para a prorrogação devido à austeridade de ambos os times e devido a uma marcação muito dura no meio de campo que é onde nascem os gols de Alemanha e Espanha normalmente.
Os laterais ofensivos de ambas as seleções, Ramos e Lahm, quase não subiam o que tornava o meio de campo ainda mais povoado. A única solução para abrir o marcador parecia ser em chutes de longa distância - Xabi Alonso tentou – ou em jogadas casuais como escanteios, faltas ou em alguma genialidade individual. Não havia espaço e os criadores de jogo como Xavi, Iniesta e Özil não apareciam com a liberdade que necessitam.
Pedro era o jogador que mais perigo levava ao adversário sempre em jogadas de rapidez e habilidade, mas tampouco conseguia encontrar o vazio para penetrar na área germânica.
Na metade do segundo tempo o time alemão parecia cansado, talvez devido ao estilo de jogo espanhol que retém a bola por mais de 60% do tempo e faz com que o adversário corra atrás da bola durante a maioria do jogo. Por cerca de 20 minutos a Espanha dominou completamente, teve chances com Iniesta, mas não marcava o gol. Do outro lado, em um contra-ataque, quase que Kroos marca.
E o gol espanhol acabou saindo de uma jogada não tão típica do time ibérico, por cima, de cabeça, em um movimento espetacular de Puyol. O gol fez com que a Alemanha se atirasse pra frente e consequentemente deu muitos espaços para a Espanha definir o jogo, mas isso não aconteceu devido à patética decisão de Pedro de buscar uma jogada brilhante na hora errada e depois devido à falta de precisão de Torres, algo que o acompanhou durante toda a competição.
A Alemanha sentiu em demasia a ausência de Müller que dá rapidez nos contra-ataques e é o elo perfeito entre o meio e os atacantes. Özil mais uma vez decepcionou, não chamou a responsabilidade e o resultado foi uma Alemanha que não conseguia chegar com a potência de outros jogos ao ataque.
A Espanha cala a boca dos críticos de plantão que insistiam em criticar o futebol espanhol depois da derrota contra o time mais retrancado do mundo na estreia. Muita gente sofre quando um time prioriza a posse de bola e o toque sempre na busca do gol. Jogar futebol de verdade irrita a muitos.
Melhor em campo: Xabi Alonso (Espanha).
Os laterais ofensivos de ambas as seleções, Ramos e Lahm, quase não subiam o que tornava o meio de campo ainda mais povoado. A única solução para abrir o marcador parecia ser em chutes de longa distância - Xabi Alonso tentou – ou em jogadas casuais como escanteios, faltas ou em alguma genialidade individual. Não havia espaço e os criadores de jogo como Xavi, Iniesta e Özil não apareciam com a liberdade que necessitam.
Pedro era o jogador que mais perigo levava ao adversário sempre em jogadas de rapidez e habilidade, mas tampouco conseguia encontrar o vazio para penetrar na área germânica.
Na metade do segundo tempo o time alemão parecia cansado, talvez devido ao estilo de jogo espanhol que retém a bola por mais de 60% do tempo e faz com que o adversário corra atrás da bola durante a maioria do jogo. Por cerca de 20 minutos a Espanha dominou completamente, teve chances com Iniesta, mas não marcava o gol. Do outro lado, em um contra-ataque, quase que Kroos marca.
E o gol espanhol acabou saindo de uma jogada não tão típica do time ibérico, por cima, de cabeça, em um movimento espetacular de Puyol. O gol fez com que a Alemanha se atirasse pra frente e consequentemente deu muitos espaços para a Espanha definir o jogo, mas isso não aconteceu devido à patética decisão de Pedro de buscar uma jogada brilhante na hora errada e depois devido à falta de precisão de Torres, algo que o acompanhou durante toda a competição.
A Alemanha sentiu em demasia a ausência de Müller que dá rapidez nos contra-ataques e é o elo perfeito entre o meio e os atacantes. Özil mais uma vez decepcionou, não chamou a responsabilidade e o resultado foi uma Alemanha que não conseguia chegar com a potência de outros jogos ao ataque.
A Espanha cala a boca dos críticos de plantão que insistiam em criticar o futebol espanhol depois da derrota contra o time mais retrancado do mundo na estreia. Muita gente sofre quando um time prioriza a posse de bola e o toque sempre na busca do gol. Jogar futebol de verdade irrita a muitos.
Melhor em campo: Xabi Alonso (Espanha).
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