sábado, 22 de julho de 2017

O Fim da Infância.

O que faz um ser humano voltar às suas origens? O que faz uma pessoa ver fotos, cavucar no passado? O que se procura?

Minha vó tem mais de 80 anos. Mora sozinha numa casa que foi construída por meu bisavô. Meu bisavô, o pai de meu avô, era dono de todas as terras do que hoje é conhecido como Ipanema. Construiu uma fortaleza na rua Pasteur onde morou até a sua morte. A quadra onde sua moradia foi levantada foi dividida em quatro quadrantes e, em cada um dos outros três, um filho ganhou de presente um lote. O único que nao teve parte do terreno foi o varão da família, o mais velho que, em contrapartida, iria herdar a casa principal, a única construção do “condomínio” familiar que foi erguida acima do nível no lago Guaíba, que fica em frente ao clube construído pelo patriarca no mesmo lugar.

O ciclo da vida nao falha e, portanto, um dia, meu avô herdou a casa e para lá se mudou com a minha vó. Ao lado, em parte do terreno principal, meu avô ergueu uma casa onde veio morar depois de já ter os filhos criados e já em busca de um espaço menor já que vivia em uma casa de quase 50 cômodos do outro lado da cidade. Sendo assim, a mudança foi apenas subir alguns metros.

Nos tempos de meu bisavô a casa era como um centro de um clã, de uma família tradicional da cidade. Grandes festas e celebrações eram levadas a cabo em todos os vários ambientes da residência que tinha como destaque uma churrasqueira que acho que poderiam ser assados três bois ao mesmo tempo. Fotos decoravam as páginas de jornais e revistas do recém nascido “Balneário de Ipanema”.

Nos tempos de meu avô a casa seguiu o mesmo ritmo já com a família mais dividida por motivos naturais: formações de famílias, distâncias. Mas a essência do condomínio familiar sempre foi a mesma. Dada a morte de meu bisavô entrou em cena quem escreve. Saí de um apartamento do outro lado da cidade e fui morar na casa menor de meus avós estando ao lado deles, o sonho de qualquer criança ainda mais considerando que eu, meu irmão e minha única prima costumávamos passar os fins de semana nessa terra que, para nós, era uma Macondo, uma terra longínqua onde íamos após os últimos períodos escolares de todas as sextas-feiras que lamentávamos o final a cada almoço de domingo que contava com seus participantes habitués e diversas outras personagens que apareciam, personagens essas dos mais variados estilos, amigos e familiares de comensais mais regulares.

Os pratos sempre estarão vivos no meu imaginário. O rocambole de carne de meu avô mais conhecido como “jacaré”, os churrascos horríveis preparados pelo mesmo recentemente citado, costelas com a proporção de 1 para 8 de carne para gordura e nervos, mas enfim, era o que o meu vô gostava, uma variedade de doces brilhantemente preparados pela minha vó, pudins, ambrosias, tortas de bolachas, pavês, até sorvetes, e sem máquina! Esses sabores e aromas jamais desaparecerão e me arriscaria a dizer que nao só do meu imaginário senão do de todos aqueles que alguma vez tiveram a honra de fazer parte desses singelos, mas cheios de significados eventos. Amigos do meu tio, amigas adolescentes de minha prima que sentiam por mim sentimentos inversamente proporcionais aos que eu sentia por elas, amigos meus, do meu irmão, excêntricos companheiros de aventuras psicodélicas de minha mãe, meu irmão de cinco dias de diferença Ângelo, xodó do anfitrião, a cada domingo existia, em minha mente, a expectativa sobre quem viria para enriquecer o elenco de comensais que encaravam esse domingo como um dia de ócio e prazer, como um evento livre de preocupações, até porque, naqueles tempos, minha avó era a dona da cozinha junto a meu avô e ambos eram os responsáveis pela fartura que víamos em cima da mesa. Nunca esquecerei e talvez nunca me perdoarei por ter perdido um desses domingos por ter ficado dormindo. Acordei tao tarde que o almoço, que normalmente já era tarde, tinha terminado. Tinha tido uma noite anterior de muito video-game com Ângelo e meu irmão e fui traído pela nao presença de minha amada tia Thaís que JAMAIS me deixou dormir sequer um minutos após a sua chegada à casa, sempre – e até hoje – com um astral que jamais encontrei em outra pessoa. Pois esse dia perdi o almoço. Saí, de cabeça baixa, com meu amigo Ângelo, a procurar comida já que esta tinha acabado, pois comensais nao anunciados apareceram. Lembro do desespero de minha vó ao notar o final da comida, logo ela que sempre odiou a economia gastronômica. Pois saímos de bicicleta por Ipanema até que encontramos um lugar que se enquadrava ao nosso estilo de vida de nao lidar com papel-moeda até os 18 anos de idade. Comemos um xis pela zona do Bologna, mas estávamos tristes, estávamos perdendo aqueles momentos que tanto gostávamos e já pensando que teríamos que esperar eternos sete dias para vivê-los outra vez. Pois esse almoço nunca voltará. Nao lembro o que comeram, jamais saberei qual foi o tema de conversa desse dia, nao lembro quem foram os convidados-surpresa que acabaram com a comida, mas sei que esse dia pode representar a amargura que hoje sinto ao ver oficialmente o final de minha infância ser anunciado. A casa foi vendida. Provavelmente será destruída junto com sua lareira, a mais bonita que já vi e todos aqueles que éramos comensais e/ou frequentadores da casa morrerão um pouco, sofrerão um pouco. E todos aqueles que participaram alguma vez como “extras” se algum dia passarem aquí em frente dirão e pensarão naquele dia, naquelas pessoas que conheciam naquela época ou que conheceram naquele dia.

A casa hoje é triste e vazia, como o é a vida adulta. A casa recebe poucos. A casa é cada vez menos aquela casa que um dia foi. Sua estrutura continua a mesma, mas seus súditos mudaram, se distanciaram, ficaram, de uma hora para outra, longes, ocupados, sem tempo. Reina o silêncio onde antes predominava o murmurinho, a mescla de velhos, adultos, jovens e crianças com latidos de cachorros ao fundo. Ninguém jamais valorizará o fato de morar aquí como eu valorizo o que passei nessa casa, na minha casa, na casa dos meus bisavós, avós, pais, irmão, prima, tios, amigos, Ângelo, na casa de todos.

A casa é o símbolo do bairro, deveria estar no brazão deste caso brazão existisse. Nada é mais simbólico do bairro que essa casa e a SABI. Quem em Ipanema hoje mora nao sabe, jamais entenderão, nao valorizarão jamais essa casa e a SABI. Nao os culpo, apenas sinto inveja dos que aquí hoje moram e pena por estes nao terem vivido aquí em décadas anteriores, nas décadas de ouro.

Ipanema nao tinha supermercado. Só o Costa do Sol com seu cheiro de pão novo que vinha dos fundos do local. O segundo maior ponto de venda de alimentos era o Alberto, o típico mercado de povoado, centro de amigos, desafetos e fofocas dos habitantes. Todos se conheciam, todos se cumprimentavam, todos se sentiam as pessoas mais abençoadas do planeta por viver num lugar que poucos conheciam. Aqui vivi os melhores momentos de minha vida que tenho nem a audácia de pensar que um dia viverei algo sequer parecido. A minha infância, pelo menos aquela que insistia em resistir viva em meu imaginário, agora sim acabou, vai-se embora junto com fotos milenares que se espalham por armários de toda a casa. Ao desalojar a casa elas, esses registros de épocas e de pessoas que por aquí passaram, vão dando seu ar da graça numa espécie de último adeus, de encerramento final, como que dizendo, Eduardo, nós nunca mais estaremos juntos, a partir de hoje a tua vida é tu e aqueles que estejam ainda perto de ti, mas nós já fomos para outro lado.

O mercado do Alberto míngua, a criançada na rua desapareceu. Nao há cumprimentos porque nao há mais conhecidos nas ruas, nao há pessoas. A SABI dizem as más línguas que será comprada e virará provavelmente novas casas. Seu Décio, o capataz da SABI, segue lá e acho que o terei visto pela última vez esta semana que está por terminar. A tia Cenira foi para um apartamento. O jardim impecável do ucraniano Sérgio, meu tio, está sentindo a falta de seu dono e ainda nao entendeu o que o destino lhe deu. Tio Ênio já saiu a muitos anos, resta meu tio Válter que será o último/único.

Quais serão as últimas memórias que terei de tudo isso? Durarão elas realmente para sempre? Esses dias nao reconheci um guri que era pequeño na nossa época. Ele cresceu, está gordo, barbudo e cabeludo, por isso nao sabia quem era. Estará um dia a minha casa em Ipanema irreconhecível? Seguirei eu vindo para cá estando onde eu estiver? Deixarei algum dia de amar tudo isso? Já velho, tentarei voltar? Sentirei o aroma da batata-palha feita em casa da minha vó que comia escondido antes de sair o almoço? Sentirei expectativa tao intensa por algo no mesmo nível em que sentia ao nao saber jamais qual era o cardápio e os convidados do domingo? Lamentarei algo algum dia na mesma intensidade em que lamentava quando minha prima nao vinha para o almoço de domingo?

Espero nao ser traído pela memória que insiste em se enfraquecer com o passar dos anos. Infelizmente isso parece ser verdade. Seguidamente me pergunto se vi ou nao vi um dia macacos saltando pelas árvores aquí em casa, também nao lembro quem era, segundo meu vô, a bruxa do bairro. Nao lembro, tampouco, do nome da querida atendente que nos vendia os botoes no Ipanemy. Ao mesmo tempo sei que os lobisomens do meu avô de noites de verão realmente existiam assim como havia tubarões na praia de Ipanema e anacondas no banhado onde a bola caía na FUNSEG. Sei que desfrutei da chapa que era a base dos xis do meu avô, dos campeonatos de pontas na piscina entre eu, Pedro e Ângelo onde existia apenas um juiz, Heitor, que sempre dava dez com louvor para o mais jovem do trio que, por consequência, ganhava sempre. Também ainda persiste as memórias de banhos de chuva, perseguições de bicicleta, da alegria que me dava quando meus primos Marcos, Lúcia, Rodrigo e Renato apareciam nas férias e o motivo nao era apenas a presença deles, mas também os bolos de chuva da Ceres. Lembro também das camas de lona e mola em que dormíamos todos no quarto da minha vó onde ficava sozinho acordado até às 5h ou 6h da manha e tinha como maior prazer encostar a perna na barra de ferro gelada da cama. Campeonatos de futebol, gol a gol, futevôlei...bolas trucidadas pelos cachorros, jogos do Grêmio, os pênaltis contra o Ajax, os 1x5 infartantes contra o Palmeiras, a jogada do Maradona para o gol de Caniggia em 1990, o golaço de Zidane na final contra o Leverkusen, o pênalti certeiro de Dinho em Medellín, meu vô fumando, brigas familiares, festas de aniversários, ingênuas travessuras, abraços, beijos, lágrimas, quantos pudins terão sido feitos dentro dessa casa? Quantos quilos de arroz? Quantos litros de suco de uva e maracujá? Quantos cacetinhos consumidos? Quantas toneladas de manteiga? Quantos gambás nos bisbilhotaram? Quantas brigas de cachorros? Quantas Copas do Mundo? Quantas lembranças...

Adeus casa. Adeus infância

domingo, 4 de junho de 2017

Temporada 2016-2017

Após mais uma final de Champions onde o Real Madrid tirou para bailar a Juventus, divulgo o meu resumo da temporada em números.

Começo com o único ranking do mundo que merece respeito, o meu, atualizado:

  1. Real Madrid – ESP;
  2. Bayern Münich – ALE;
  3. Barcelona – ESP;
  4. AC Milan – ITA;
  5. Juventus – ITA;
  6. Peñarol – URU;
  7. Manchester U – ING;
  8. Boca Juniors – ARGEN;
  9. Ajax – HOL;
  10. Porto – POR;
  11. Inter Milan – ITA;
  12. Nacional – URU;
  13. Liverpool – ING;
  14. Independiente – ARGEN;
  15. River Plate – ARGEN;
  16. Benfica – POR;
  17. Sao Paulo – BRA;
  18. Olimpia – PAR;
  19. PSV – HOL;
  20. Santos – BRA;
  21. Celtic – ESC;
  22. Estudiantes – ARGEN;
  23. Olympiakos – GRE;
  24. Corinthians – BRA;
  25. Dortmund – ALE;
  26. Vélez Sarsfield – ARGEN;
  27. Flamengo – BRA;
  28. Atl Madrid – ESP;
  29. Palmeiras – BRA;
  30. Internacional – BRA;
  31. Estrela Vermelha – SER;
  32. Colo-Colo – CHIL;
  33. Dinamo Kiev – UCR;
  34. Chelsea – ING;
  35. Feyenoord – HOL;
  36. Nacional – COL;
  37. Grêmio – RS;
  38. Dynamo Dresden – ALE;
  39. Rangers – ESC;
  40. SC Anderlecht – BEL;
  41. Steua Bucarest – ROM;
  42. Arsenal – ING;
  43. Marseille – FRA;
  44. Galatasaray – TURQ;
  45. Cruzeiro – BRA;
  46. Cerro Porteño – PAR;
  47. San Lorenzo – ARGEN;
  48. Vasco – BRA;
  49. Saint-Etienne – FRA;
  50. Borussia MG – ALE.

O melhor clube da CONCACAF é o América do México, na 131° posição;
O melhor africano é o Al-Ahly, do Egito na 190° posição;
O melhor asiático é o Al-Hilal da Arábia Saudita na 257° posição;
E o melhor da Oceania é o Auckland City da Nova Zelândia na 395° posição.

São 790 clubes ranqueados.

Seleção da temporada – abandonei o modelo FIFA e respeitarei as variações em posições nas três linhas:

Navas – Costa Rica/Real Madrid;

Carvajal – Espanha/Real Madrid;
Bonucci – Itália/Juventus;
Sergio Ramos – Espanha/Real Madrid;
Marcelo – Brasil/Real Madrid;

Modric – Croácia/Real Madrid;
Isco – Espanha/Real Madrid;
Hazard – Bélgica/Chelsea;

Messi – Argentina/Barcelona;
Cristiano Ronaldo – Portugal/Real Madrid;
Lukaku – Bélgica/Everton.

Bola de ouro: Isco.

Ranking seleções:

  1. Brasil;
  2. Alemanha;
  3. Itália;
  4. Argentina;
  5. Espanha;
  6. França;
  7. Uruguai;
  8. Inglaterra;
  9. Holanda;
  10. Croácia;
  11. Rússia;
  12. Ucrânia;
  13. Portugal.

A melhor seleção da CONCACAF é a do México na 31° posição;
A melhor seleção asiática é o Uzbequistão na 38° posição;
A melhor africana é o Camarões na 53° posição;
E a melhor da Oceania é a Nova Zelândia na 83° posição.

São 92 seleções de todos os continentes ranqueadas.

Ranking de ligas (top 10):


  1. Espanha;
  2. Inglaterra;
  3. Itália;
  4. Argentina;
  5. Alemanha;
  6. Brasil;
  7. França;
  8. Portugal;
  9. Holanda;
  10. Uruguai.

terça-feira, 25 de abril de 2017

A Grande Mentira

A Grande Mentira

Não sou a pessoa que mais se deixa levar por teorias conspiratórias. Seguidamente me autoquestiono quando recordo casos em que o que outrora fora visto como algo sem qualquer possibilidade de ser real, surge como sendo, de fato, depois de muitos anos, uma mentira. Pearl Harbor é um exemplo. Sabiam os americanos do ataque japonês? Hoje vem ganhando a teoria de que sim. O ataque às torres gêmeas foi outro boi de piranha americano? Usaram a mesma tática vitoriosa de Pearl Harbor para, dessa vez, “justificar” a sua invasão a terras longínquas em nome da liberdade? Acho que não, mas não ponho minha mão no fogo.

Guardando as proporções e reconhecendo a diferença de tônica, afirmo, dessa vez sem titubear, que a grande mentira de nossa era é a globalização. Tem se vendido, desde o princípio do uso do termo, como sendo sinônimo de “modernidade” e, ao mesmo tempo, transformando o termo “moderno” em sinônimo de avanço.

A popularização do automóvel nos anos 50 foi algo moderno. Parou-se de se investir em linhas ferroviárias e deu-se prioridade à modernidade. Melhorou? Os carros poluem e contrariam a mais lógica das lógicas físicas: dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço - a matéria é impenetrável. O que temos hoje é um caos na mobilidade em todas as médias e grandes cidades do planeta, sem contar toda a carga ambiental que isso acarretou.

O moderno nem sempre é melhor. A arte moderna é vergonhosa em quase sua totalidade; o cinema moderno é deprimente; a música moderna é um deserto de ideias, dinossauros como os Rolling Stones seguem lotando estádios em todo o planeta no que é um grito de ajuda dado por parte da humanidade que se sente órfã de qualidade. A globalização representa o maior golpe social e econômico já dado à população da maioria dos países do planeta e o apego a artistas que representam épocas mais frutíferas é, em uma analogia de fácil entendimento, o fenômeno que vemos agora com Trump, Brexit, Marine Le Pen, Geert Wilders, Norbert Hofer entre outros, o querer voltar a outro momento histórico.

A globalização e a ideia de “aldeia global” é a maior farsa já inventada em nível global. A invenção das bombas de destruição de massa criadas por Bush para justificar sua invasão ao Iraque é nada quando comparada à mentira maior. Desde o final do século passado, com o desenvolvimento de inovadoras técnicas de comunicação, o mundo foi diminuindo e começou-se a vender a ideia de que poderíamos ser uma “aldeia” sem fronteiras e unificada. Pois desde a consolidação dessa ideia o resultado em nível global é aumento da miséria e redução da qualidade de vida das classes médias, mais fortemente sentida nos países industrializados.

É curioso ver como atualmente os discursos de Trump, Le Pen e dos defensores do Brexit são parecidos aos da extrema esquerda e isso é uma realidade que demonstra que, não importando a ideologia, muitos estão abrindo os olhos para essa trama maquiavélica.

A extrema esquerda em qualquer lugar do mundo sempre bateu de frente com banqueiros e grandes empresas multinacionais. Do outro lado, a direita sempre pregou a extinção do Estado que somente deveria aparecer em momentos estratégicos como nas crises para salvar a essência do Estado ideal: os bancos. Em 2008, na última grande crise do capitalismo mundial, devido às orgias financeiras dos grandes bancos americanos, milhões de pessoas perderam seus trabalhos e casas pelo mundo afora. Quem salvou a pátria? O tão agredido Estado. Através dos chamados “bail outs” o governo da maior potência do mundo passou a mão na cabeça de criminosos e “premiou” os culpados pela tragédia com alguns bilhões de dólares dos contribuintes. Reações isoladas a essa barbaridade existiram. Na Islândia, que tinha sua economia baseada basicamente na pesca e no seu sistema financeiro, os banqueiros do país foram colocados na cadeia. Mas a Islândia é um país de 300 mil habitantes. O mundo perdoou seus vilões de colarinho branco e as elites e classe média aceitaram.

Pois agora a direita também os ataca. Trump esbraveja contra a prática de instalação de setores produtivos em países periféricos para assim evitar a alta carga laboral e os impostos dos grandes países, nesse caso os Estados Unidos; Le Pen e os defensores do Brexit batem de frente nos banqueiros da União Europeia, pois estes apenas se preocupam com seus bolsos, sangrando as economias das nações do bloco. O discurso dos dois extremos empata e apenas se diferencia pela polêmica questão da imigração. Vale ressaltar que Le Pen, diferentemente do João Doria francês, defende a manutenção da jornada de 35 horas semanais e a diminuição da idade para a aposentadoria. Só a burra esquerda francesa não percebe o tiro no pé que estão dando ao apoiar o Doria local.

A ideia econômica principal da globalização é o fim das fronteiras. Comerciais. As grandes multinacionais se instalam em um território. Para isso, usando seu poder de negociação conseguido pelos supostos empregos e renda que gerará, consegue colocar de joelhos governos locais que sabem que, se dizem um ai, podem perder o novo inquilino. Dado o menor sinal de mal entendimento, essas multinacionais partem sem olhar para trás com destino a um lugar onde o ambiente político não os incomode.

Vejamos o caso dos Estados Unidos. As grandes empresas de tecnologia americanas, como a Apple e a Microsoft, têm suas modernas sedes com parquinhos de diversão e Playstations para todos no riquíssimo Vale do Silício. No entanto, sua grande massa produtiva se encontra bem longe, na maioria dos casos na China. Em outras localidades, o chamado “custo país” é menor e, portando justifica a transferência de suas forças para estes lugares. Se a China incomodar, no outro dia a Apple estará no Vietnã, ou na Índia. Sempre haverá um governo ajoelhado implorando para ser estuprado. E, não custa lembrar, o estado da Califórnia se encontra em grandes apuros econômicos mesmo sendo sede das maiores empresas planetárias de tecnologia. Não seria uma bela ajuda os impostos dessas gigantes que são tão liberais em alguns temas como a imigração, mas tão espertas ao mandar chineses fabricarem seus brinquedos?

As montadoras americanas seguem o mesmo exemplo. Cruzam a fronteira a se instalam no México onde tudo é mais colorido para o capital. Governos facilmente corruptíveis, salários mais baixos, incentivos ou isenções tributárias e, para completar, fácil acesso ao principal mercado: os Estados Unidos. Os produtos voltam sem nem ficarem vermelhos pela mesma fronteira e, apoiados em algum acordo comercial, entram com preço competitivo.

A União Europeia é o exemplo menos disfarçado. Criou-se a ideia de que não há mais individualidades no continente, colocou-se goela abaixo de todos que a Romênia é igual à Noruega ou Alemanha, e a elite do continente vibrou transferindo suas produções para romênias e polônias e tendo livre acesso aos mercados mais graúdos sem pagar impostos de importação. Genial. E se alguma crise apertar sua classe média, se vendem em outro lugar. Não importa,

Vivemos uma espécie de "uberizacao" da economia mundial. Tudo é global com cara de moderno. Usa-se os serviços de empresas como o Uber por dois motivos: mais barato e moderno. Por que o Uber é mais barato? Porque todas as despesas da companhia são arcadas pelo pobre motorista pejotizado que paga impostos veiculares, multas, combustível, manutenção e, para completar o cenário ideal, não tem direitos trabalhistas nem vínculos. É uma ferramenta. É um trabalhador de uma fábrica de roupas da Zara em Bangladesh versão fashion. E são felizes, pois aceitam que são "seus próprios patrões". Soma-se a esse exemplo o projeto maquiavélico do governo não-eleito de Temer que impôs a terceirização de tudo, até da atividade principal da empresa, tudo isso para "proteger o emprego". Ora, sempre temos que garantir, antes de tudo, as benesses da turma do camarote. Completando a equação irrefutável, os consumidores modernos compram, pois, o resultado é um preço mais acessível e, muito modernos, pouco se importam pelos meios, pelos escravos das empresas de vestuário ou pelos motoristas sem direitos do Uber, vivemos numa sociedade capitalista onde a competição deve ser livre, não há armas proibidas.

Os Estados Unidos deram um basta. Sua elite perdeu uma queda de braço contra uma classe média que cansou de perder empregos e poder de consumo; a classe média inglesa também cansou; os franceses, holandeses e austríacos também dão sinais, assim como outros países, de que não aguentam mais os enganos do que lhes foi oferecido como “ponte para a modernidade”, aqui citando o embrião do golpe tupiniquim. São alcunhados de nazistas, mais um golpe baixo da elite e da esquerda burra e radical europeia.

A imigração, que parecia passar desapercebida em meu texto, aqui joga um papel fundamental. A elite mundial não esqueceu de resultados inesperados no curso da história. A monarquia francesa guilhotinada, o czar soviético morto, as greves inglesas dos produtores de carvão entre outros exemplos, são casos que de certa forma representam empecilhos no curso natural da dominação por parte das elites mundiais. Como evitar isso, ou pelo menos enfraquecer essa reação plebeia? A resposta para isso é a destruição do sentimento de comunidade das nações.

A pornográfica liberação da imigração que vem ocorrendo desde os anos 80 mais ou menos nos Estados Unidos e Europa sempre teve um objetivo final: acabar com as comunidades. O moderno hoje são as uniões europeias da vida. Não existem mais países, isso é retrógrado. Existem blocos econômicos que são a modernidade, o futuro, o Uber. Como Macron diz, não existe uma cultura francesa. A Europa é o maior exemplo. Em todas suas cidades de médio e grande porte, o número de imigrantes já chega próximo ou excede à metade de suas populações. Para completar, em algumas cidades pequenas, o domínio dos estrangeiros já é uma realidade. Disfarçados de “multiculturalidade”, vende-se a ideia de que não se devem negar oportunidades a outros seres humanos. O capital nunca deu bola para o "humano" e nunca dará. O resultado é o enfraquecimento do sentimento de comunidade, base para qualquer ameaça de resistência a abusos do poder econômico por parte de qualquer sociedade. Em cidades como Londres, Berlim, Paris, Bruxelas, entre outros, perdeu-se quase que completamente o sentimento de pertencer a algo, a uma sociedade. Os milhares de pessoas que chegam querem apenas fazer a sua parte, ganhar o seu dinheiro, viver em suas sub-comunidades e pouco se importam com os meandros políticos do território. Individualismo tribal selvagem. No entanto, a população nativa perde seus trabalhos para outros que cobram menos, veem seu custo de vida aumentar vertiginosamente e por osmose são consumidos pela ideia de que não existe mais sua nação e sim um território semelhante a uma savana africana onde animais vão todos os dias buscar seu alimento e, depois, voltam para suas proles.

A lavagem cerebral deu resultados perceptíveis. Até a Copa de 2006 na Alemanha, ver um alemão usando uma simples camiseta de futebol de sua seleção era considerado algo condenável, um sinal de que este era um "neonazista". O mesmo acontece no Reino Unido. Qualquer símbolo contendo a famosa e bela Union Jack, se estiver sendo usado por um inglês é sinal de que este é um skinhead. Criou-se, através de atos violentos do passado recentes destas nações, base de nossa civilização ocidental, um sentimento de culpa em sua população inocente que os fez acreditar que eram seres condenados a pagar uma pena. Rancor ou indiferença contra seu próprio país e aceitação da destruição de suas bases culturais e sociais. O que temos agora é uma situação quase irreversível.

A esquerda europeia e norte-americana bate de frente contra quem defende uma reação pacífica a este problema. Do alto de seus castelos bregas e excêntricos, os esquizofrênicos artistas de Hollywood esperneiam contra Trump e sua política de controle à imigração ilegal. Volta e meia aparecem com seus discursos pouco originais. Talvez lhes falte viver um pouco da realidade de quem realmente sofre com a imigração massiva e predatória, ou seja, lhes falta viver como a maioria de seus conterrâneos e isso não acontecerá em suas festinhas cheias de bajuladores deslizando por seus tapetes vermelhos. Em Beverlly Hills talvez a imigração não seja um problema. Alguns até ameaçam abandonar o pais, mas curiosamente não apareceu ainda o primeiro a cumprir sua promessa. Para onde iriam? No entanto, na maioria do país sim o é, e gravíssimo. Precarização dos sistemas públicos de educação e saúde, aumento estratosférico da violência em todas as suas facetas e, para completar, perda cultural, homogeneização social. Evidentemente que nas mansões do Vale do Silício tampouco se sente isso na pele. Em suas casas de cristal executivos das grandes empresas de tecnologia vomitam impropérios, pois lhes fará falta estes consumidores de seus produtos manufaturados na China livre de impostos. Também lhes poderá fazer falta seus trabalhadores internacionais que entram no país com a farsa do visto de "trabalhador qualificado" (ponto para Turnbull) ganhando 30% do que se pagaria a estes profissionais há algumas décadas atrás. Os aquinhoados de Manhatan também choram, já que desde sua ilha com 35 mil oficiais de polícia e tão cara que manda pobres e classe média para zonas periféricas, tampouco se sente qualquer ameaça ao seu bem-estar. É fácil assim. Enquanto a violência aumenta significativamente no país e os serviços públicos se diluem, tudo segue igual nos feudos dos donos do sistema.

Não sou ignorante ao ponto de acusar os imigrantes de serem bandidos ou "bad hombres" como diz Trump e muito menos irei apontar o dedo aos árabes e chamá-los de terroristas. A minoria dos imigrantes é criminosa enquanto que a minoria dos árabes são terroristas. No entanto, barateiam a mão de obra, destroem (sem intenção de fazê-lo na maioria dos casos) a classe média local e vão disseminando qualquer sentimento de comunidade. Deixa-se de existir um sentimento coeso de sociedade e passa-se a ter células dispersas que são facilmente manipuladas e essa tática é nada original. Os colonizadores europeus usaram métodos idênticos para dominar o continente africano. Belgas e holandeses eram craques nisso. Colocavam tribos iguais umas contra as outras, estas se matavam e o domínio era facilitado. A história, assim como a moda, é cíclica. O que o poder quer evitar? Uma época em que se lutava pelo seu território, algo que há séculos já passou de moda, mas o poder quer enterrar qualquer resquício. É inoportuno. As cidades-estados helênicas, os feudos, as grandes guerras mundiais, morria-se pela defesa da nação e hoje esse comportamento e a simples existência de nações são empecilhos a serem destruídos, não através de aniquilações violentas, mas através de imigração massiva e entretenimento vazio. Somos entretidos pela mídia e corremos atrás da cenourinha da publicidade que mantém a classe média aceitando sua degradação.

A mídia ajuda nesse processo com seus enlatados e com sua lavagem cerebral de idiotização massiva. Ser idiota é a tendência. Enquanto cada vez mais se acumula o capital nas avarentas mãos dos grandes conglomerados, mais estupidez consumimos. Adoramos o "bucket challenge", adoramos demonstrações de idiotices no Snapchat, programas da MTV ou fotos das Kardashians no Instagram. Pensar cansa. Questionar jamais.

Falando em modernidade, o Brasil finalmente tem um presidente moderno. Temer copiou o modelo da União Europeia. Na enganosa UE, uma massa de 500 milhões de pessoas está sendo convencida de que o ideal é não escolher seus representantes. Seguem votando, o que os faz pensar que têm algum poder de decisão. No entanto, os seus votos têm pouco valor. Amputou-se o livre arbítrio dos países já que, em teoria, é apenas um país. Os políticos locais tornaram-se rainhas da Inglaterra, são figuras representativas. Quando um país europeu decide pintar as paredes de seus prédios de outra cor, não pode, deve pedir autorização a um ente maior que não é escolhido por sua população. São "têmeres". Foram colocados lá de forma misteriosa e têm todo o poder. Representam os interesses do poder e tomam decisões que, em sua maioria, são nocivas à maioria.

Considero a situação irreversível. Pode-se apenas tornar nossa sociedade ocidental menos pior ou, melhor dito, interromper a degradação. O feudalismo voltará.





domingo, 15 de janeiro de 2017

Ideologia Coxinha

A esquerda brasileira bate no peito e tem orgulho de sua ideologia, mesmo esta sendo tao estapafúrdia em muitos casos quanto a ideologia do outro lado. No entanto, o outro lado afirma nao ter ideologia, dizem que isso é coisa de petralha jurássico e penso que realmente eles creem nisso. Doce ilusão.

Alguns acontecimentos recentes comprovam a ideologia tao fanática da direita Miami. O ano de 2016, por exemplo, foi o ano dos coxinhas, o ano em que eles viram todos os seus sonhos se tornando realidade e terminou com essa luz no fim do túnel de que tudo voltará a como era antes dos petralhas assumirem, o Brasil voltará a ser aquela maravilha de anos atrás.

As contradições nao param de surgir, e, por motivos óbvios, foco nos casos do Brasil e do Rio Grande do Sul.

A corrupção generalizada em empresas públicas como a Petrobras, por exemplo, gera o seguinte comentário nos camarotes: "empresa pública nao presta; devemos privatizar tudo".

Se assim fosse, deveríamos proibir crianças de nascer, pois algumas se tornarão assassinos e estupradores? Proibir carros porque acidentes acontecem? Nao seria mais lógico defender a "limpeza" dessas empresas? Falando nisso, nao há corrupção no setor privado? Este exemplo da Petrobras e sua relação libidinosa com as construtoras nao é um excelente exemplo de ponto de vista "ideologizado"? Por que nao clamamos pela estatização da Odebrecht já que é corrupta sendo privada? Por que pedimos o contrário? Por ideologia...e por que o setor privado tem interesse em comprar empresas públicas? Estas nao sao um desastre? Será o setor privado assim tao ingênuo ou pouco inteligente? Porque nao pedimos que as empresas públicas sejam bem geridas e tragam capital ao Estado que acaba sendo bom para toda a sociedade?

Exemplos?

A Samarco, dona da Vale, por que comprou a Vale? Para perder dinheiro? O lucro da Samarco que em sua maioria sai do país, nao seria mais interessante se aqui ficasse? E as estradas gaúchas pedagiadas? O lero-lero das empresas administradores que desde que se privatizaram as primeiras seguem dizendo que somente perdem dinheiro, MAS que querem renovar os contratos por outros 450 anos?

E "internacionalizando" nosso debate, o que dizer da WorldCom, Volkswagen, Siemens?

Fecham as contas? Ou algum coxinha defende a privatização da WorldCom, Volks e Siemens? Por que nao? Dois pesos e duas medidas?

"Mas as empresas privadas funcionam melhor e temos um melhor serviço".

Será? E a catástrofe de Mariana da mesma Samarco? Uma das maiores do planeta em todos os tempos. E se catástrofes ambientais aparecem em cena, o que dizer das tragédias da BP ao redor do mundo e de todas as petroleiras? Falamos outra vez de todas as construtoras PRIVADAS brasileiras que passaram as últimas décadas distribuindo dinheiro sujo pelo mundo afora? E as penitenciárias do norte do país? Cobram o dobro do valor gasto pelo estado por preso e dão, de brinde, algumas chacinas com decapitações para chocar o mundo inteiro. Alguma voz dos camarotes pedindo a estatização da Samarco e desses circos de horror?

Falando um pouco do velho Rio Grande, o estado nao terá que pagar agora ao setor privado pelos serviços dessas empresas recém ultrajadas? Nao será mais caro? E a TVE? As emissoras privadas brindam o público com uma melhor programação? Faustão, Big Brother e companhia sao "melhores" que o que tinha a TVE?

Sartori, que jamais deve ter ido a Miami, mas que frequenta essa alta roda, incorporou. Executou friamente com um tiro covarde no escuro em vésperas de Natal várias empresas tradicionais públicas do Rio Grande. Os covardes deputados que votaram a favor de seus atos preferiram nao fazer uso do direito de explicar suas decisões, simplesmente um "sim" cabisbaixo, envergonhado, proveniente das penumbras de uma assembleia lúgubre que teve ainda, como cereja do doce, o povo sendo maltratado pela maltratada Brigada Militar nos arredores da "Casa do Povo".

As empresas extinguidas pelo governador que nao paga seus funcionários, mas que ao mesmo tempo se nega a divulgar a lista das amiguinhas que recebem seus incentivos fiscais e que aumenta o salário de seus legisladores e da turma caviaresca do judiciário, representam menos de 0,7% do orçamento do estado. Saindo da questão financeira, sao companhias de pesquisa, emprego e cultura, pontos de primeira importância em qualquer república que almeje ser respeitada. Sartori os mandou ao ostracismo, ao passado, ao silêncio. E, pequeno detalhe: 1.200 pessoas foram demitidas...na véspera do Natal.

Foi realmente financeiro o motivo que fez Sartori eliminar do mapa essas organizações? Foi realmente por esses 0,7% do PIB? Ou foi pela ideologia do estado mínimo defendida pelos vampiros que pensam por este fantoche de bigode tingido? Alguns mais impávidos e que nao querem admitir sua ideologia dizem que uma coisa é uma coisa outra coisa é outra coisa! Incentivos fiscais bilionários (cerca de 9 bilhões por ano) sao importantes porque o estado deve ajudar essas "humildes" companhias como Philip Morris, Gerdau, Videolar, John Deere, entre outras, porque estas "geram empregos" o que é verdade, mas sao menos empregos que os gerados por estas empresas públicas e a um custo cinco vezes maior.

E a Zelotes? Nunca entendi por que nao ganha o mesmo espaço e o mesmo afinco da Lava-Jato. Será porque as empresas que aí estão envolvidas, RBS e companhia, dao aquela ajudinha amiga aos políticos sempre dispostos a colaborar?

Temer é o homem do ano para os Coxinhas Ltda. Chegou ao poder rechaçando essa balela de democracia e fez esse povo de 204 milhões de vagabundos agora ter que trabalhar até morrer com a sua reforma da previdência que jamais apareceu em qualquer promessa de campanha já que Temer nao fez campanha já que Temer nao foi candidato. Para aqueles que tiverem vida após a morte que também se cuidem, pois a previdência foi redesenhada, tudo isso, claro, sem tocar nas orgias dos militares que representam só 44% do rombo da previdência, número irrelevante e contam, há de se dizer, com alguns benefícios aceitáveis como filhas solteiras recebendo pensão vitalícia caso nao se casem e, pasmem, caso jamais trabalhem. Mas ok, o Brasil precisa dos militares para se defender desse iminente ataque da Bolívia e do Suriname, ou melhor: do ataque dos comunistas da Venezuela e de Cuba. Temer botou ordem na casa. Reviveu as relações com a maior potência do mundo de forma criativa e sutil ao, ignorando a crise, importar toneladas de sorvete americano para seu avião. Que bela jogada de Temer. Um Kasparov da política.

E 2017 vem aí! Festa nos camarotes. Agora que a negociação direta entre empregador e empregado está por cima das leis trabalhistas e agora que se pode terceirizar até a atividade principal de uma empresa, nossa nata poderá preencher seus ternos esturricados e embarcar em aviões sem plebe pra Miami já que sobrará aquele dinheirinho que faltava (e que nao era suficiente com os benefícios fiscais) que brotará das desobrigações com os trabalhadores, toda aquela mamaçao nas tetas chamadas de direitos e tal. Viva o Brasil moderno que acaba com o futuro de seu passado. E viva a ideologia fanática dos coxinhas nao-empresários que apoiam o seu calvário dando tiros nos próprios pés.


sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

O Ocaso dos Mitos

O que os Rolling Stones, Fidel Castro e os Guns N´ Roses têm em comum? Num primeiro momento seria fácil dizer que os Stones e os Guns N´ Roses sao bandas, que os Stones foram a primeira grande banda a tocar em território cubano então ainda com a figura do comandante presente na ilha, mas nao, nao sao esses os motivos que colocam a estas figuras "pop" juntas no mesmo texto. Todos os três geraram e geram em mim nostalgia de algo nao vivido ou de algo que se acaba e nao voltará a ser vivido. Escrevo sobre símbolos que podem de certa forma representar ou melhor, trazer outra vez à tona a teoria do fim da história. Ou, se nao o fim da história, o fim da minha história. Nao viverei outros Stones ou outro Fidel.

Por que os Rolling Stones seguem lotando estádios por onde passam? O que faz com que as pessoas de diferentes países e culturas do mundo afora vão ver esses setentões há mais de 50 anos incomodando? A mesma pegunta, se adaptarmos alguns números, vale para Axl Rose, Slash e companhia. Por que ainda queremos vê-los contrariando a ideia da fugacidade de nossos tempos, tempos estes de celebridades e momentos históricos de 15 minutos de duração? Por que essa atração a esses roqueiros nao perece?

Em primeiro lugar está o que eu chamo do corredor da morte da arte. A música, as artes plásticas, o cinema e a literatura estão galopando em direção a um muro de pedras impenetráveis. Acabou. Existem ainda produtos artísticos de qualidade? Sim, mas cada vez representam uma porcentagem menor em meio à doença da mediocridade de massa que apenas mostra e dá espaço para o que é "bom"; e "bom" é o que aparece - o que aparece é "bom".

Se focarmos na música, desde o Oasis, nenhuma banda pode sequer almejar a ser considerada como uma grande banda historicamente falando. É evidente que algumas boas bandas existem, mas elas nao amarram as chuteiras dos dinossauros. As pessoas vão ver os Rolling Stones porque sabem admirar qualidade. O advento da Internet e a consequente queda nas vendas de álbuns fez com que artistas musicais passassem a lucrar apenas com suas apresentações e isso os tornou preguiçosos na hora de criar. Para que gastar tempo compondo obras-primas se nao se ganha dinheiro por isso? Escreve-se uma música pegajosa e aceitável e esta servirá de isca para levar legiões de consumidores a seus concertos.

Talvez os primeiros fas dos Stones já estejam um pouco velhos para ainda remar contra a maré, mas os seguidores dos Guns N´ Roses ainda têm força e mantêm essa utopia de ver algo de qualidade. Os Guns N´ Roses nao sao os Stones; no entanto, sao representantes da última era fértil da música. Fui vê-los por saber que estamos já nos acréscimos e por ter essa incômoda certeza dentro de mim que jamais aparecerá nada nesse deserto de estupidez em que vivemos.

O segundo motivo que leva as pessoas a irem ver esses jurássicos velhos correndo por palcos nos quatro cantos do mundo é a nostalgia. Todas as empresas que apostam na exploração do passado de gerações têm sucesso em suas jogadas. Todos os empreendimentos que exploram as saudades da geração dos baby boomers americanos sao exitosos. O ser humano sempre sentirá saudades do passado, de seus passados. Eu, analisando friamente, sempre acho o passado, o meu passado, melhor que o presente. A maioria das pessoas nao analisa friamente, simplesmente almeja o passado, clama por viver coisas que já nao podem ser vividas por limitações impostas pelo ciclo natural da vida. Ver os Stones é voltar no tempo; ver o Guns, para um coroa da minha idade, é pensar na adolescência e na juventude onde a vida era melhor e as expectativas para o futuro que parecia jamais chegar eram uma ficção de uma realidade em que vivemos porque sim, um dia chega, e constatamos o quão decepcionante é.

Axl Rose nao precisaria correr no palco; muito menos precisaria usar seus trapos xadrezes ou sua bandana. Por que ele usa? Porque ele sabe que esses símbolos sao mais valiosos inclusive que sua voz que já nao é a mesma. E o Fidel, onde entra nisso tudo?

Fidel foi um ditador e sou contra todos os sistemas ditatoriais, apesar de que muitos tiveram seus pontos positivos dependendo da forma em que os estudamos. Getúlio foi um grande presidente? Os trabalhadores brasileiros devem sua condição de "homens livres" graças a ele, mas nao posso tolerá-lo, pois este foi um ditador em um de seus dois períodos. A nossa hipocrisia é tanta que vejo a esquerda fanática chorando por Fidel, mas condenando os manifestantes verde-amarelos por exigirem a volta da ditadura; pelo outro lado a direita fanática detesta Fidel por ser um ditador, mas, como acabei de mencionar, vangloria o período ditatorial brazuca. Fidel é um Rolling Stones, é um Axl Rose. Fidel manteve, por décadas, essa chama de uma alternativa para o nosso mundo. Fidel era aquela pedra no sapato da teoria do fim da história reinante desde a queda do muro de Berlim. Cuba, uma ilha de nada, sem importância alguma, representava o vilão da única potência de nosso mundo desde o colapso da União Soviética e ao mesmo tempo era aquela resposta para a pergunta sobre a possibilidade de um "outro" mundo.

Fidel conseguiu esse protagonismo ceifando a liberdade de pessoas que pensavam diferente dele, bem como ele era nos tempos de outro ditador na mesma ilha, Fulgencio Batista. Aliás, vale a pena salientar a contradição. Dezenas de presidentes americanos condenaram a ditadura cubana, mas apoiaram todas as outras ditaduras sul-americanas incluindo a de Fulgencio e, somente para completar, ao mesmo tempo em que impuseram um embargo à Cuba devido aos seus crimes contra os direitos humanos, sao os melhores amigos de estados sanguinários como a Arábia Saudita. A contradição de conceitos nao é exclusividade brasileira.

Cuba funcionou? Do ponto de vista de um habitante de um país ocidental pós-fim da história, nao, Cuba nao funcionou. O comunismo funciona? Nao, jamais funcionou nem jamais funcionará, vai contra a natureza humana e nunca pôde conciliar liberdade com igualdade. Se nao fôssemos seres já "capitalizados", poderíamos dizer que Cuba funcionou? Aí sim. Todo mundo tem o mínimo, preserva-se a natureza do lugar e vive-se em paz, com pouca violência entre seus cidadãos. Agora, se pensarmos em um "outro mundo" que seja realmente possível, Cuba nao funcionou. A ideia de uma sociedade em que todos sao iguais e felizes, satisfeitos, nao é possível, jamais acontecerá e devemos ser realistas para nao cair em contos do vigário. Nao é possível, ponto final. Pode existir em países diminutos e com unidade racial, como os escandinavos, mas na periferia global nao. Admitir isso pode nos ajudar a pensar em uma sociedade possível mais justa e melhor para a maioria. Eu durante quase toda a minha vida iludi-me com a ideia de uma sociedade justa para todos que seria conseguida nao através do comunismo, mas que poderia existir; agora já nao penso mais nisso. Penso apenas em que poderíamos ser menos ruins. Nao foi a morte do Fidel que me fez mudar, mas poderia usar a figura do comandante como um ícone do fim do sonho de muitos e aqui estamos falando de ícones.

É possível evitar a morte da arte? Algum dia sairemos das trevas e teremos outro Renascimento? A sociedade é cíclica; civilizações e impérios se esfarelam ao longo da história, isso deverá acontecer algum dia, mas nao acho que estarei por essas bandas. Existirá algum novo sonho? Teremos algum Fidel hipermoderno que nos venda uma ideia executável de uma sociedade mais decente? A resposta é a mesma da anterior.

A solução então é escutar Justin Bieber e colocar a camisa do Neymar e ir pedir Feliciano para presidente? Eu usufruo da eternidade da arte, escuto minhas estrofes do passado e leio meus clássicos e, claro, repito filmes já vistos, ao mesmo tempo em que tenho boas expectativas com o Brexit e com Trump. Nao sao perfeitos, mas sao ideias menos ruins que outras.

domingo, 20 de novembro de 2016

Hillary, Sartori, Temer E Trump

Eu adoro política. Sempre adorei. Muitos me criticam e argumentam que eu nao deveria gostar de política já que é um campo plagado de podridão, sujeira, corrupção e território difícil de se encontrar bons valores e sentimentos. Nao menosprezem minha inteligência. Eu sei que a política é tudo isso e mais um pouco e gostar de política é como desfrutar de filmes de terror. A pessoa sabe que algo brutal acontecerá, mas desfruta esta sensação de medo. Eu desfruto do cheiro podre da política.

A maioria dos candidatos a cargos públicos é tao estúpida, que demoraram bastantes anos para se darem conta de que a maioria das pessoas perdeu a paciência com a política. O nojo dos brasileiros nao cansa de dar amostras de seu alto grau de asquerosidade; americanos e europeus cada vez mais aproveitam o direito de nao exercer seu direito e deixam de comparecer às urnas. As taxas de abstenção crescem indiretamente proporcional ao conceito dos políticos dentro da sociedade.

Pois esses seres de pensamento lento se deram conta disso e, arteiros, estão sabendo jogar o jogo fácil da nao-política. O pleibói Dória ganhou em Sao Paulo se auto-proclamando um "nao-político". A final do campeonato carioca foi entre um músico de qualidade questionável e um padre diabólico. O Rio Grande do Sul, em suas últimas eleições regionais, escolheu o gringo gente boa do interior e esses sao apenas alguns exemplos. Nao ser político é a melhor estratégia para quem quer ser político.

Uma das coisas que mais sinto falta ao nao morar em Porto Alegre é ter acesso aos programas eleitorais gratuitos da televisão. Os políticos "profissionais" de outrora usavam esses espaços para apresentar suas ideias, por mais estapafúrdias que fossem. Hoje é diferente. Os políticos se disfarçam de cordeirinhos e usam esse espaço para vender uma imagem, nao um plano de governo ou uma lista de ideias; vendem uma personagem. É como a publicidade atual: vende conceitos, nao produtos ou serviços.

Sartori jamais prometeu nada em sua campanha. Dizem as más línguas que teve que fazer um plano de governo na madrugada de sua vitória já que nao tinha um, pois apostava em seu próprio fracasso no sufrágio Sartori foi um produto enlatado de um partido sedento de poder regional que sentia saudades doentias e agudas de ocupar o Piratini. Sartori aparecia amassando uvas com seus pés; Sartori aparecia sorrindo e falando com amigos e vizinhos em sua Caxias. José Ivo, que belo nome para um caxiense de raízes italianas gauchão com direito à pilcha e lenço farroupilha no pescoço.

Depoimentos biográficos de familiares, imagens abraçando crianças e idosas, apertos de mãos com homens carcomidos, mas com sorriso fácil no rosto, essa é a nova forma de fazer campanha e, claro, Sartori foi nada inovador, apenas seguiu a receita hipermoderna. Discutir ideias? Políticas? Para quê? O eleitor detesta política, detesta esse tema. Evitar-lo-ei, como diria Temer.

Subindo alguns bons milhares de quilômetros chegamos à terra do xou, a terra onde tudo, qualquer tema, desde relações amorosas entre anões até política pode, e deve, ser transformado em um produto midiático. As campanhas politicas no Estados Unidos sao, nas últimas décadas, marcadas pela total ausência de discussão política. Os americanos já se deram conta a mais tempo que o realmente importante numa campanha é explorar as fraquezas, passados e atos falidos de seus candidatos. Bill Clinton sofreu ao ser acusado de ter fumado maconha quando tinha 16 anos. Perdeu muitos pontos por isso. O mesmo se complicou perante a seu público por ter tido uma relação extra-conjugal com uma estagiária roliça da Casa Branca. Sao apenas alguns exemplos da falta de argumentos ou até mesmo acusações que realmente tenham algum cunho e importância relevante para a defenestrada política.

Na última campanha entre Trump e Hillary o que se viu foi talvez a mais vazia campanha da história americana. Hillary desesperada acusava Trump de se comportar mal com as mulheres; Trump, por sua vez e de forma pouco criativa, ia a comícios com mulheres supostamente mal tratadas pelo marido de Hillary. Jamais vi algo mais bizarro. Era Hillary com sua trupe de abusadas contra Trump e suas quarentonas maquiadas e com caras de pão que padeceram nas mãos do frenético Bill. Essa foi a tônica das eleições, decidir entre o abusador e a mulher do abusador, quem seria melhor? Para completar, os americanos, e também os brasileiros, agora buscam tirar proveito do fenômeno das celebridades e associam as suas imagens às "marcas" mais populares do momento. Na última semana de Hillary a vi num palco acompanhada de Jay-Z e de Beyoncé. O primeiro vociferava fuck isto, fuck aquilo e Hillary sorria com sua cara de bule de porcelana de loja de R$1,99. Ideias? Jamais.

Filtrei quase nada de ideias de Hillary. A maioria de suas declarações eram demasiadamente subjetivas. Um país mais aberto, mais humano, de bom coração entre outras baboseiras. Da boca de Trump algo pôde ser considerado: controle migratório mais rígido, expulsão de ilegais, diminuição de impostos e, o mais importante, fortalecimento da indústria local que vem sendo sucateada pela presença chinesa. Eu, sendo americano, votaria em Trump, mesmo sendo este uma personagem caricata e bizarra. Ao mesmo tempo em que esquerda e direita brasileiras lamentam a vitória do rude bonachão, a direita inclusive me surpreende com sua mudança radical de postura quando o problema é na cozinha do vizinho. Eu apenas me preocupo, e muito, pela questão ambiental tendo em vista que o célebre empresário afirma que as mudanças climáticas sao uma farsa chinesa e defende a exploração de todo e qualquer poço de petróleo pelo país afora. Nao obstante, Trump tem ideias que, se deixamos o politicamente correto de lado, sao mais do que coerentes, sao necessárias.

E o Temer onde entra nessa história? Bem, o nosso presidente é o mais inteligente de todos e prefere nem participar de campanhas, aparecer pouco com seu rosto de mordomo vampiro esculpido em madeira ao lado de sua candidata e, passados alguns anos, dar o seu golpe fatal no pescoço da vítima e assumir o poder sem ter prometido nada, sem ter feito campanha e muito menos sem ser visto como político. O que devemos cobrar de Temer? Devemos chamar Temer de traidor por nao ter avisado que farias suas reformas educacionais, sua PEC de gastos públicos, suas leis de perdão a bandidos sonegadores e ladroes? Claro que nao, Temer jamais apresentou qualquer ideia sobre esses temas.

Então, o que raios cobrar de Temer? O mesmo que devemos cobrar de Sartori ou o que os americanos deveriam cobrar de Hillary: nada.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

A Violência

O tema do momento entre os gaúchos é a violência. É só do que se fala. A ala mais à esquerda justifica o momento turbulento e inaceitável como culpa do governador Sartori. A ala mais à direita prefere culpar a tal da impunidade e falta de dureza do Estado no combate ao crime. Para mim, ambos se deixam levar pela ideologia e/ou oportunismo. 

Ninguém poderia esperar algo de Sartori. A eleição de Sartori foi fruto de nosso novo estilo de política. Em um estado que sempre cai no clichê do bipolarismo GRE-nal, chimangos e maragatos e por aí vai, a estratégia brilhante de Rigotto fez escola. Rigotto tinha tantas chances quanto Eneias de ganhar as eleições. No entanto, através de uma campanha despretensiosa que dizia ser "a terceira via", caiu nos braços de uma parte da população que já não queria mais ter que ver o PT no Piratini. Rigotto foi uma saída, foi um coringa. Com um novo Britto seria difícil ganhar do PT, então apareceu Rigotto com seu discurso de terceira via, não sou isso nem aquilo e levou. 

Sartori é uma pessoa de boa índole. Sinceramente não acredito ser ele uma pessoa maquiavélica mal-intencionada que iria juntar-se a outros para saquear o estado e beneficiar a este ou aquele. Sartori não é Temer e seus vampiros diabólicos. Sartori é EXATAMENTE o que ele mostrou durante a sua campanha, a mais genuína e verdadeira que já vi: Sartori é um gringo boa gente, um homem que seria um brilhante presidente de algum CTG em Caxias, mas que é tudo, menos um político.

Não ser tão "político" pode ser bom; mas não se pode exagerar. Jamais passou pela sua cabeça ganhar as eleições. Por isso jamais ter ocorrido, Sartori jamais sequer pensou em perder seu tempo pilchado esmagando uvas para criar um plano de governo. Qualquer pessoa podia ver que, durante a campanha, Sartori tinha nada a declarar. Não estou dizendo que Tarso ou os outros candidatos fossem ser brilhantes; não obstante, tinham ideias que todos poderíamos discordar ou concordar e, assim, decidir o voto. Pois o radicalismo regional, que já existe muito antes dessa versão maior tupiniquim, chegou no seu apogeu. A ala do partido ANTIPT decidiu votar em ninguém para evitar a vitória do outro. Foi como aqueles casos americanos de animais ganhando eleição. Depois dos rotundos fracassos de Britto e Yeda, só restava apelar para alguma personagem que simplesmente não fosse do PT, isso já bastava.

Sartori ganhou e está cumprindo à risca suas promessas: nada, fazer nada. Sorrir, fazer piadas e ser o Scolari político, ou seja, puro carisma, estilo gringo clichê, mas, infelizmente, incompetente. Sartori talvez seja o único político eleito da história que eu poderia aceitar que seja até ingênuo. Por não ter a mínima ideia do que deveria fazer, deixou que seu governo fosse levado a cabo pelo seu partido, pregador do Estado mínimo. Esses veem o Estado como uma empresa. Se falta dinheiro, corta-se verba de onde for, inclusive da segurança pública, senhoras e senhores, que foi sucateada pelo atual (des)governo. Esses dias vi uma dessas afirmações retiradas de páginas de fontes duvidosas que dizia que Dilma teve uma loja de 1,99 e esta faliu. Não sei se é verdade, nem me interessa saber, mas esse fato tem nada a ver com ser presidente de um país. Um país não é uma empresa que tem como única razão de sobrevivência o lucro. Um país é muito mais que isso. Roosevelt, depois da quebra da bolsa em 1929 decidiu que o Estado deveria "fazer buracos e depois fechá-los", isso geraria empregos e consequentemente renda. Roosevelt foi reeleito outras três vezes depois de seu primeiro mandado em plena maior crise da história, não de Cuba, senão dos Estados Unidos.

Rebato também a tese de que vivemos nessa selva por causa de leis frouxas com bandidos. Poderíamos ter leis mais duras? Claro que sim. Poderíamos ter mais homens trabalhando na polícia? Evidente que sim. O exército ocioso poderia ser treinado para estar nas ruas como acontece a cada 64 anos quando temos Copa do Mundo? Claro que sim. No entanto, insisto, nenhuma dessas ações diminuiria significativamente a violência de nossa sociedade, o problema é muito maior.

A única forma de diminuir drasticamente o nosso vergonhoso caos que ceifa vidas inocentes todos os dias é através de maior distribuição de renda e maior igualdade de oportunidades, tudo isso conjuntamente a uma educação de qualidade. A desigualdade é a maior geradora de violência, muito mais que a própria pobreza em si. Há países pobres com baixas taxas de violência? Vários. Indonésia, Madagascar e Burkina Faso são alguns exemplos. Os três são países pobres com taxas de homicídios de 1 a cada 100 mil habitantes. No Brasil a taxa é de 24,6. Os dois países com as maiores taxas do mundo são Honduras e El Salvador, ambos países localizados no sexto e no décimo quarto lugar entre os países mais desiguais do planeta. O país mais desigual do mundo é a Namíbia que tem uma taxa de 17,2 homicídios por cada 100 mil habitantes o que a deixa na posição 22 entre os países mais violentos. É tudo diretamente relacionado. Se cruzamos os dois ranquins, veremos que é como um espelho. Terminando minha rápida análise desses dados, é impossível encontrar um país rico e com pouca desigualdade na lista de países mais violentos.

Os verde-e-amarelos caras-pintadas mais radicais dirão que é coincidência ou que é papo de comunista e me mandarão pra Cuba. Pois estes furiosos deveriam é me mandar para o Japão. Ter-me-iam (entrei no ritmo do nosso presidente sem votos) mais longe e em um fuso horário que não os incomodaria. O Japão é o lugar de quem defende igualdade e é um país capitalista. Cuba, antes que perguntem, tem uma taxa de homicídios de 4,2, um número 6,5 vezes menor que o do Brasil.

Entreguei-lhes a solução. É fácil de executá-la? Para ser um Japão tropical os donos de tudo teriam que ceder, começando com o pagamento de impostos, inclusive taxando o capital. Será que nossos primos ricos estariam dispostos a abrir mão de algumas moedas em troca de ter segurança? Pouco provável. Preferem pedir o impossível: menos impostos, menos Estado, pagar menores salários, que os trabalhadores trabalhem mais horas sem incomodar (o Homem em toda a história sempre escravizou o Homem) e que a ralé se comporte. Ignoram o poder do consumismo vendido pela propaganda. A turma do camarote quer segurança sem dividir. Quer que o pobre não roube, que aceite sua situação. Não defendo a violência, mas sou realista e sei que muitos excluídos irão se rebelar contra sua desgraça através do crime. Vejam as propagandas de itens de desejo, mas não desejem, isso é o que queremos e nunca irá acontecer, mesmo com exército nas ruas. Desejar que o outro não deseje e que não sinta ressentimento dos que têm de sobra, tendo este nada, é pedir muito, é querer o resultado sem suar.

Parafraseando a esquerda, "esse mundo é possível?" Não, coloco minha mão no fogo que não. Somente a primeira parte do plano é possível e para isso de vez em quando temos que suicidar um presidente, adoecer outro e dar rasteira em outra.


A lei da selva elaborada pelos leões.