quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

República de Bananas

Aqueles poucos que leem os meus textos sabem que, quase sempre, os começo choramingando a falta de tempo para escrever. Constantemente, quando tenho o desprazer de conhecer novas pessoas, menciono “escrever” como uma das coisas que desfruto fazer. E desfruto de poucas coisas. Sou, como um amigo esbravejou dia desses, uma pessoa extremamente simples.


Não tenho uma bola de cristal, mas tal ferramenta não era necessária para prever o óbvio. Eu tinha certeza que esse episódio grotesco digno de republiquetas haitianas iria acontecer em um patético Brasil. O dia chegou e esse dia é, sem dúvidas, o mais enfadonho e desmoralizante da história tupiniquim. É a versao social/política do 1-7 de 2014 com a diferença de que, dessa vez, os sete gols sofridos foram contra.


Desde que o Brasil passou de ser um país criticado por ser despolitizado a ter se transformado num país onde ideologia política passou a angariar números recordes de torcedores tornando políticos seres mais queridos que amigos e familiares, tenho evitado discussões sobre o tema. É mais indicado discutir religião. É o mais saudável a fazer. No único grupo de whatsapp que faço parte, política jamais foi mencionada. Não é uma regra, senão um acordo tácito, de bom senso.


Mas o país tocou o fundo do poço e o fundo cedeu. O país, que sempre chafurdou em excrementos, parece ter começado a consumi-lo como sua única fonte de alimento. Esse novo hábito alimentar me fez abrir espaco em minha agenda para opiniar. E começo dizendo que, caso tivesse votado, não teria votado em nenhum dos dois candidatos que chegaram ao segundo turno. E, caso tivesse votado no segundo turno, provavelmente teria votado no candidato que saiu derrotado e não por considerá-lo o menos horroroso, senão para dar mais tempo a esse governo tentar apresentar o seu projeto para essa bagunça tropical sem ter uma pandemia para atrapalhar e/ou ser usada como desculpa para seus fracassos.


Poucas coisas são originais no Brasil. Desde a decadência da supremacia francesa ditando regras artísticas e sociais mundo afora, os Estados Unidos assumiram essa posição de líder. Desde então, o Brasil passou a copiar todo o lado negativo da cultura americana. Não copiou-se a democracia estável, considerando que no Brasil esta segue em perigo; não copiou-se a meritocracia, o estado enxuto, a livre iniciativa, a liberdade. No Brasil, gozam de um sucesso mais estável os reality shows do que a democracia, melhor dos sistemas políticos, nascido na Grécia antiga, mas consolidado e modernizado em uma nação jovem criada por visionários europeus.


O nível dos reality shows brazucas provavelmente é o mesmo dos originais americanos. Não tenho estômago para vê-los e poder, então, compará-los. A música popular moderna é, provavelmente também, do mesmo baixíssimo nível do que se produz nos Estados Unidos atualmente. Agora, o Trump brasileiro é uma versão ignóbil do original. O surgimento de Trump foi a maior revelação do mundo político dos últimos cem anos. Criou-se o político espetáculo, espetacular. Trump teve êxito e fez um governo com excelentes resultados. Como não poderia deixar de ser, o Brasil copiou. Nasceu Bolsonaro, personagem ainda mais bizarra que Trump, mas com menos de 1% da capacidade. Este cercou-se de alguns profissionais competentes e alguns débeis-mentais e produziu um governo que, a meu ver, é difícil de analisar pelo fator inédito da pandemia.


Assim como Trump, Bolsonaro começou a farejar a sua derrota no segundo turno e não teve que pensar muito. Novamente COPIOU o que Trump já havia feito com certo êxito: jogou sementes de dúvida em relação ao sistema eleitoral nacional em uma terra fértil devido ao excesso de estupidez, limitação intelectual e fanatismo que permeia nesses tristes trópicos. Bolsonaro, assim como Trump, questionou o sistema que, pasmem, o elegeu. Para escapar dessa saia justa, ambos afirmavam/afirmam que “teriam ganhado com mais margem” caso as eleições não tivessem sido corrompidas.


Depois da derrota no segundo turno, o PL, partido de Bolsonaro, acusou novamente o sistema eleitoral assim como marido traído que culpa o sofá. Vale lembrar que o PL foi o partido que mais elegeu deputados através de votos oriundos das mesmas urnas.


Perdão pelo meu pragmatismo. Sou assim. Sou, como me acusou um torcedor de Bolsonaro há bom tempo, um “isentão”. Para mim, se as urnas foram realmente manipuladas, nenhum poderia ter sido corroborado presidente. Incluindo o Bolsonaro em seu primeiro mandato. No entanto, infelizmente a lógica e o pragmatismo à hora de analisar a política nacional é algo do passado. Que saudades sinto daquela época em que os brasileiros se autoacusavam de serem despolitizados e desinteressados por política, que só queriam saber de futebol e carnaval. Que pena que isso não seja mais a realidade. Hoje impera a demência, a esquizofrenia política, a visão ideológica transformada em fanatismo cego por clube de futebol. Nasci em uma época em que já ninguém optaria por se sacrificar por conceitos tão ambíguos e distantes como “pátria”, “ideal”, “causa”. Cresci sabendo que essa mentalidade tinha morrido lá pelos anos 60-70. Minha juventude foi a geração do início do hedonismo que chegou a ser xiita antes do fenômeno político-torcedor. Hoje quem sai às ruas de amarelo jura morrer pela pátria. Do outro lado, quem sai às ruas de vermelho, jura morrrer para defender direitos de minorias super representadas e/ou causas estapafúrdias. Faltam isentões para lançar ao alto a ideia de que todas as ditaduras são grotescas, sejam os exemplos brasileiros e argentinos como os cubanos e norte-coreanos. Deturparam-se inclusive as definições de termos poderosos como “ditadura” e “genocida”. A turma doente de verde e amarelo pede a volta da ditadura, mas ao mesmo tempo afirma que nunca houve ditadura no Brasil. Pedem a volta dos que não foram e ignoram que ditadura significa um estado onde uma pessoa, ou um pequeno grupo de indivíduos, têm o poder. Exemplos: Médici e Fidel Castro. Os vermelhos, defensores de um ideal que faz chorar de emoção na teoria, mas que também faz chorar quando vivido na realidade, chamam o presidente escolhido pela maioria em seu país de genocida, pois muitas pessoas morreram durante uma pandemia que matou em todos os rincões do mundo fazendo vistas grossas à definição de “genocida” que é a eliminação de um grupo específico de pessoas pertencentes a uma raca e/ou etnia ignorando que a pandemia matou negros, brancos e pardos, bolsominios e lulistas.


Esses dois pesos e duas medidas também se manifestam em ocorrências como os bloqueios de rodovias causados por doentes mentais indignados pela derrota de Bolsonaro. Os mesmos participantes e apoiadores desses atos criticavam, com razão, os bloqueios causados por integrantes do MST ou os protestos repletos de vandalismos brindados pela esquerda em 2013 e 2017. Embora gritem “Brasil acima de tudo”, pouco se importaram com a ameaça de falta de alimentos, combustíveis, medicamentos e vacinas causadas por seus ataques de insanidade.


Talvez a grande mudança social que pode explicar um pouco esse fenômeno é a existência da internet/redes sociais. Em épocas pré-internet, buscava-se informação em diferentes meios. Hoje busca-se apenas confirmação em vez de informação. Há material lá fora confirmando ou negando qualquer fato, ideia, tema ou teoria. O Bolsominion doente vê vídeos de manifestações verde e amarelas de 100 mil pessoas e, com essa “prova”, jura de pé junto que são maioria, que não podem ser derrotados em qualquer eleição. Ao mesmo tempo em que comporta-se como um torcedor de estádio, ignora a obviedade de que a Arena do Grêmio pode estar lotada neste domingo e isso não quer dizer que todos os gaúchos sejam gremistas; no domingo que vem o Beira-Rio estará, também, lotado. Há dois lados. Há dois lados que partem o Brasil praticamente pela metade e isso ficou evidente nas eleições com a vitória apertada de Bolsonaro e com o mesmo acontecendo agora com Lula.


No entanto reina a indústria das fake news. O Brasil é, hoje, uma vergonha mundial. Foi derrotado por 1-7 mais uma vez. O “Brasil” acima de tudo” de Bolsonaro e companhia segue sendo uma cortina de fumaça. A esquerda fanática celebrava mortes durante a pandemia enquanto que os lunáticos verde e amarelos agora torcerão ferozmente pelo fracasso de Lula em seu terceiro mandato e começaram bem, destruindo e depredando o patrimônio desse Brasil que eles dizem estar acima de tudo. O Brasil segue perdendo chances e mais chances de consolidar-se como uma grande potência democrática latino-americana. Faz com que os cidadãos de mais de 40 anos como eu sintam falta do básico, do feijão com arroz que era o Lula e seus apoiadores aceitando as suas derrotas nas urnas. Faz que pessoas como eu se surpreendam com bastante atraso da pacifidade em que a esquerda aceitou o impeachment de Dilma ou da forma em que Haddad e seus apoiadores também aceitaram a derrota justa para Bolsonaro há quatro anos. Hoje, sem o básico, pessoas sadias mentalmente sentem saudades de tempos que, pelo que parece, não voltarão tão cedo. Saudades de quando não se gozava dos eleitores (e não torcedores) que tinham votado em candidatos derrotados e que apenas se conformavam em torcer para que os vencedores os surpreendam positivamente. Ao mesmo tempo em que os eleitores do candidato vencedor poderiam criticar o seu candidato caso esse cometesse erros. O normal hoje é utópico. Resta deboche, gozações de estádio de futebol e memes por parte dos boçais vencedores para com os reticentes perdedores.


Ao que tudo indica, o Brasil seguirá copiando apenas o que os americanos enviam por seu sistema de esgoto enquanto o que realmente consome são produtos enlatados haitianos e, por que não, cubanos. O futuro do Brasil é sempre arruinar a chance de se tornar um país do futuro. O Brasil consome Hollywood, mas arrota Mianmar e defeca ostracismo, atraso, bizarrices, macaquices e confirma o que sempre afirmei: os brasileiros não têm os políticos que merecem, pois estes, para chegarem ao nível de seus comandados, devem piorar um pouco mais.

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

A história é cíclica

 “A história é cíclica”. Esta é uma dessas frases que não sabemos a autoria, mas que de certa forma gera a concordância da grande maioria das pessoas. Na Idade Média, por exemplo, em uma era de muito mais sacrifício que de busca pelo prazer, era comum o orgulho de morrer por algo, por alguma coisa. As Cruzadas levavam legiões de combatentes a terras exóticas para lutar e, talvez, morrer, com o objetivo de espraiar o cristianismo em regiões pagãs.

 

Na Idade Antiga os grandes navegadores colocavam-se em projetos expedicionários que enfrentavam as águas mais desconhecidas e/ou agressivas de um planeta que nem se conhecia ainda tão bem em nome da glória de desbravar novos territórios.

 

De uns anos para cá, morrer pela pátria ou por uma causa, seja ela qual for, tornou-se fora de moda, visto como algo forçado ou até mesmo brega. No entanto, o renascimento do nacionalismo em alguns rincões do planeta trouxe de volta esse chavão desgastado de sacrificar-se por algo abstrato como por exemplo a pátria. Junto a esse exagero de devoção por nações, após décadas de uma desenfreada busca esquizofrênica pelo prazer, outros movimentos surgiram, movimentos estes de pouca ou nenhuma representatividade em períodos anteriores da história humana.

 

Há aqueles que dizem darem suas vidas pela causa ambiental; há outros que se sacrificariam pela defesa de minorias e, entre todos estes exemplos, há a defesa pelo direito da mulher ao aborto. “Nada na minha vida é mais importante que essa causa”, disse uma manifestante pró-aborto em manifestação em Washington após o fim da lei Roe vs Wade. Esta declaração inflamada por parte de uma mulher, mãe de uma menina de 16 anos e que viajou 4 mil quilômetros para estar presente em tal evento me fez parar um pouco e dedicar a escrever algo a respeito.

 

A falta de tempo me impede de escrever. Ultimamente, somente quando o nível de barbárie passa do limite sou obrigado a reservar uma madrugada para dar uma opinião. E esse é um caso. Estamos falando de uma pessoa, ou melhor dito, milhares de pessoas que consideram que impedir bebês de nascerem é a causa que mais merece seu tempo, energia e dedicação. Há aqueles que dedicam suas vidas à causa animal. Juram que gatos, cachorros e peixes betas são seus filhos e consideram estes mais importantes que seres humanos, incluindo crianças. São, obviamente, públicos que, de certa forma se conectam. Raivosamente esbravejam sua fúria contra a castração de animais de rua ou até mesmo o sacrifício desses. São seres vivos e merecem viver até porque não podem escolher viver ou morrer, não se comunicam.

 

Agora, quando o tema são bebês humanos que tampouco podem escolher viver ou morrer e tampouco podem se comunicar, aqui esse mesmo público (em sua maioria, não todos obviamente) junto a outros tantos defensores da tal autonomia das mulheres em relação aos seus próprios corpos, não cansa de se manifestar a favor do sacrifício de inocentes bebês que jamais poderão nascer.

 

Ter o direito ao aborto somente em caso de estupro ou de risco de vida da mãe não é suficiente. As mulheres, donas de seus corpos, deveriam poder abortar quando lhes pareça pertinente. Isso seria, na visão de tais militantes, o mais responsável e adequado. As justificativas para a defesa do aborto, além da vazia propriedade de seu próprio corpo, oscilam entre poder escolher, não ter o desejo de ser mãe, falta de tempo, falta de recursos e por aí vai. Ora, do alto de minha ignorância/ingenuidade me pergunto e pergunto a todas essas raivosas defensoras do aborto: não seria mais fácil simplesmente não engravidar? Foram todas estas mulheres que lutam pelo direito a abortar vítimas de estupros? Há alguém, com mais de 14 anos que ainda não saiba quais são os métodos para evitar uma gravidez não desejada?

 

A sociedade funciona através de direitos e deveres. Nenhuma mulher é obrigada a procriar e nenhuma é proibida de ter uma vida sexual ativa. No entanto, também existem deveres. Há o direito ao sexo livre, mas também existe o dever de dar a oportunidade de uma vida viver. Seguindo esse ciclo, também existe o direito de não ser mãe de seu próprio filho. Há alternativas. Nos Estados Unidos, por exemplo, existem cerca de 36 famílias que querem adotar por cada criança dada em adoção. A flexibilização de nossos deveres como cidadãos é tamanha que apenas seria o dever de uma mulher irresponsável carregar um bebê por nove meses em seu ventre, nada mais. Depois, se não quiser, o estado toma conta da nova vida e, consequentemente, faz com que um casal frustrado por não poder ter filhos, seja feliz.

 

Sempre me chamou a atenção a intensidade dessas manifestações pró-aborto. Nunca uma ideia parece ser suficiente. Dá a impressão de que, caso o aborto fosse permitido até o nono mês de gestação, essas iludidas, enganadas ou doentes que tanta energia dedicam a interrupções de gestações seguiriam amargas e pedindo mais, talvez, por que não, o aborto até o sexto ano de vida de uma criança. Ou até os 18. O bebê nasce, começa-se a criar e, depois de tantas dificuldades com a lida diária de ser mãe decide-se que não, não era o tipo de vida que queriam e pedem autorização para eliminar a pobre criatura da face da Terra.

 

Os slogans que aparecem são sempre bastante contraditórios. O movimento feminista argentino “Pañuelos Verdes” conta com o slogan “Mi cuerpo, mi decisión”. Não poderia estar mais de acordo. Não querem ter filhos, usem métodos anticoncepcionais. São direitos garantidos a todas as mulheres argentinas há décadas. O que torna minha análise simplista de uma problemática bastante simples de solucionar (repito, há inúmeros métodos anticoncepcionais distribuídos gratuitamente em quase todos os países) em algo não tão óbvio, é a sensação pós-moderna de apenas buscar o prazer e desfrutar de seus direitos ignorando a existência de deveres. Todas querem gozar de conquistas femininas como a liberdade sexual. Excelente. No entanto, há o “dever” de se cuidar. Sendo assim, refaço a causa desses movimentos. Não se luta pelo aborto. Luta-se pelo direito de gozar de uma vida sexual livre sem o uso de métodos concepcionais que tornariam a prática sexual quase 100% segura e que, se alguma gravidez indesejada ocorrer também deveria existir o direito de abortar. Deveres? Nenhum. Em bom português é uma causa de uma geração frágil e mimada.

 

O autor do texto é um homem, não pode entender realmente o que passa nas cabeças das mulheres. Estas dizem que quem realmente criam os filhos são as mulheres, pois muitos homens simplesmente são pais ausentes, fogem ou, em casos extremos, nem sequer reconhecem a paternidade. Tudo verdade. Não há argumento melhor contra a psicose coletiva reinante de que somos todos iguais, que os gêneros são uma imposição social. Isso pode e realmente acontece. O problema dessa ocorrência é que nada mais pode ser feito para evitar que aconteça. O estado já criou leis que visam proteger as mulheres vítimas de pais descarados. No Brasil, por exemplo, um dos poucos crimes inafiançáveis é o não pagamento de pensão alimentar. Um assassino pode ter sua pele salva através de uma fiança enquanto um pai desnaturado não deveria ter saída. O problema é que toda lei tem suas limitações. É proibido matar na grande maioria dos casos. A existência dessa lei impede a existência de assassinatos? Obviamente não. Mesma coisa com a proteção às mães. Há leis que as resguardam, mas sempre existirá a chance de que terminem mães solteiras. Há nada mais que se possa fazer. Apesar de que vivemos em uma era em que se relativiza fatos biológicos como a existência de apenas dois gêneros, ainda acho que a grande maioria das pessoas pensa que homens não engravidam e, sendo assim, resta exigir que o estado faça a sua parte e puna aqueles pais que, como muitas feministas, pensem somente nos seus direitos e não nos seus deveres ainda mais em uma situação em que o dever nasce de um direito.

 

Nunca vi homens protestando por ser o único gênero que sofre de câncer de próstata e esperaria, em uma sociedade minimamente normal que eu não viva para ver mulheres protestando por ser o único gênero que engravida. Aceitemos a natureza ou, para aqueles que protestar é um hobbie, protestem contra Deus, contra o Big Bang ou contra a evolução das espéci

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Charlie Watts




 

Não vou mentir ao dizer que lembro da primeira vez que ouvi os Rolling Stones tocar. Não lembro. Meus pais sempre foram grandes fãs da banda o que me faz pensar que devo ter escutado desde os primórdios de meus meses fetais. Meu pragmatismo me impede crer que isso possa ter influenciado minha admiração vindoura, mas, após abandonar o conforto uterino e chegar a uma idade em que música poderia ser escutada e não somente ouvida, comecei a gostar. Uma vez mais não vou poetizar a história e dizer que me apaixonei pela banda em minhas mais púberes idades. Gostava apenas.

 

Na pré-adolescência comecei a realmente gostar da arte música. Outra vez: os Rolling Stones não eram os meus favoritos apesar de que estavam incluídos entre os primeiros CD’s que ganhei/comprei. Meu pai dizia que estes eram os melhores e fazia vista grossa a bandas mais contemporâneas. Eu apenas respeitava e discordava em um silêncio de altos decibéis e de frenéticos solos de guitarras de bandas mais pesadas como Metallica e Iron Maiden, os meus xodós da idade escolar. Relaciono, aqui sentado, idade a gosto musical. Com limites, obviamente. O excesso de energia, rebeldia, revolta, ânsia de questionar e de chamar a atenção, são características que talvez tenham feito que o jovem Eduardo se inclinasse pelas bandas que abrigavam em seu colo tais características. Vale ressaltar que sigo idolatrando estas e outras bandas de som mais agressivo, mas estas deixaram de ser as minhas favoritas. Digo, em uma espécie de “sincericídio”, que a perda de energia causada pela idade é diretamente proporcional ao número de acordes por segundo dos guitarristas de nossas bandas favoritas o que também inclui a velocidade em que os bateristas manejam suas baquetas.

 

Nos primórdios de minha vida universitária comecei a me dar conta de que as audazes certezas infanto-juvenis não eram reais. Todo juvenil jura que seus gostos, ideias e ideais jamais mudarão, que são dogmas rochosos; pois eu, como todo mundo, mudei. A energia foi se esvaziando, mais paciência foi ganhando espaço, visão de mundo foi se modificando e comecei a diminuir o número de acordes de minhas guitarras. O avanço da internet que permitia que pudéssemos escutar tudo e todos sem depender da já decadente MTV, também foi um fator. Ouvi álbuns inteiros dos Rolling Stones, diferentes aos que eu tinha. Álbuns mais antigos dos que eu tinha. E certa feita escutei “Let it Bleed” que, para mim, é um dos melhores da história da banda. A partir desse momento, os Rolling Stones começaram o lento processo de chegar, com paciência típica de senhores de então uns 60 anos, ao topo de minha bastante exigente pirâmide musical. A última banda que ficou pelo caminho foi The Doors. Chegaram ao topo. Com calma. Se eu fosse uma pessoa egocêntrica, diria que esta é uma grande conquista dos Stones: conquistar a alcunha de banda favorita de um jovem universitário depois de mais ou menos 45 anos de carreira. Sou difícil de ser conquistado.

A novidade do Youtube permitiu vê-los “ao vivo”. Cansei de ver fascinantes performances da banda nas mais variadas décadas de sua existência. Aprendi a adorar cada membro e começou aquele não-planejado sentimento de conhecer não só os membros da banda, mas as pessoas. Fui morar na Inglaterra e um de meus objetivos era vê-los ao vivo. Não foi possível pelas mais distintas razões. Somente consegui estar em um de seus shows pela primeira vez em Bogotá, há pouco mais de cinco anos atrás. Desde o momento que a banda invadiu o palco ao som de Jumpin’ Jack Flash minha relação com a banda foi fortemente modificada, algo que não considerava possível de acontecer. Algumas lágrimas, para a minha surpresa, escaparam languidamente de meus olhos. Ver os Stones ao vivo foi, sem dúvidas, a maior experiência artística da minha vida. Lembro de ter perguntado para o Lucky, que já os tinha visto em Porto Alegre antes de eles chegarem a Bogotá, se eles ainda conseguiam oferecer um show respeitando o significado de tal palavra e considerando as idades avançadas de seus membros. A resposta tinha sido “eles são demais, o show é fantástico”. E sim, ver a maior banda de todos os tempos ao vivo, contrariando leis da física, do bom senso e da natureza, é fantástico, foi fantástico.

Anos depois, a banda anunciou uma nova turnê pelos Estados Unidos. Como quem não queria nada, fui averiguar as datas. O show em Miami, há menos de três horas e meia de voo daqui, cairia na Semana Santa que eu teria livre na universidade. Pensei em ir e minha esposa me convenceu em dois minutos. Não tenho uma esposa normal que diria que era um desperdício de dinheiro e energias. Ela tinha mais certezas que eu. Comprei passagem e ingresso. Veio a cirurgia de Mick Jagger e toda a turnê foi adiada. Para agosto. Troquei a passagem. O show seria num sábado e eu viajaria na sexta e retornaria no domingo. Em uma tarde, caminhando pelo campus, recebo um e-mail: a data do show havia – novamente – sido modificada. Sentei-me, abri o e-mail e li calmamente: ao invés de ser no sábado, seria na sexta. Felizmente o meu voo era vespertino e o show noturno. Fui do aeroporto diretamente para o estádio e vi, não somente os Stones novamente na minha frente, mas a última apresentação de Charlie Watts com a banda e, consequentemente, a última vez que os quatro Stones tocaram juntos. Quis o destino. A fortuna que gastei e a energia valeram cada centavo/gota de suor.

Quando os Rolling Stones eram apenas uma banda para mim, assim como a grande maioria, tinha a Mick Jagger e Keith Richards como meus favoritos. Desde que esses quatro velhotes passaram a ser mais do que membros dos Rolling Stones para mim, Charlie passou a ser meu favorito. Certa feita minha esposa me disse que minha vida em nada se modificaria se amanhã eu passasse a ser o homem mais rico do mundo. Eu a corrigi adicionando a palavra “quase” antes de nada. Charlie Watts não era o homem mais rico do mundo, mas possuía fortuna infindável e era um rolling stone. No entanto, Charlie sempre se sentiu um ser comum. Não critico as vidas lascivas, excêntricas, cheias de excesso e de procriação desenfreada dos demais membros do grupo. Defendo a teoria de que algumas pessoas, por razões que seriam contraditórias de explicar, têm certos direitos que nós, mortais, não temos. Aceito que Mick Jagger possa fazer coisas que eu não poderia fazer. São seres especiais. Charlie poderia ser dessa casta, mas, usando suas próprias palavras, era apenas um cara que tocava música.

Charlie Watts foi um rolling stone casado desde os primeiros anos da banda com a mesma mulher até a sua morte. Teve uma filha apenas e dentro do casamento. Dizia ter quatro carros antigos que não dirigia nunca. Era o caricato exemplo do baterista: sempre atrás com poucas luzes em cima de si. Charlie era um baterista genial sem jamais ser protagonista. Ginger Baker, John Bonham, ambos mostravam sua exuberante qualidade em solos e, de certa forma, arrastavam os holofotes para a zona opaca onde as baterias se encontram, lá no fundo, iluminada por uma lânguida fagulha de luz morfética. Charlie não precisava de solos. Charlie era o jogador que joga para o time. O Makélélé dos “galácticos” do Real Madrid. Manejava brilhantemente o ritmo cardíaco de outros três velhos que já também cada vez estão mais íntimos do pórtico dos octogenários. Charlie era o perfeito gentleman inglês. Entre tantas histórias, certa vez passou longo tempo brabo com os demais membros, pois estes tiveram a ideia de tocar vestidos com roupas em farrapos. Charlie, acostumado a ternos impecáveis e até a cartolas de lorde, disse ter se sentido mal durante todo o show e que não via a hora de que acabasse.

Arriscaria a dizer que Honky Tonk Women é sua melhor performance e até, com pedido de perdão antecipado, diria que, em Gimme Shelter, o pacato Charlie clama um pouco por mais atenção.

Independentemente do gosto de cada um, considero impossível, pela trajetória e pela incrível atualidade, que os Rolling Stones não sejam considerados os maiores artistas da história contemporânea. Mais de 50 anos de carreira e uma sobrevivência a todas as mudanças que nosso planeta e sociedade sofreu durante todas essas décadas.

Tristemente, somente a morte tem me feito dedicar o meu pouco tempo a escrever. Bebês também nasceram nesses últimos tempos, mas, por algum motivo, a morte para mim é algo mais inspirador para a escrita. Quem morreu viveu e dá mais argumentos para serem postos em um papel virtual. A morte de Charlie e o iminente fim de um patrimônio vivente da humanidade gera essa sensação de fim de ciclo, fim de época, fim de era. A partida de Charlie, assim como a de Maradona, confirmam a óbvia impossibilidade de driblar a morte, seja com a perna esquerda ou com duas baquetas localizadas atrás de outros três rolling stones. Tudo perece. Infelizmente de tempos em tempos temos a confirmação da inexistência do infinito, do imortal.

“Se seguirmos poluindo o planeta dessa forma...que mundo deixaremos aos Rolling Stones?”

“No caso de uma nova bomba nuclear, só sobreviverão baratas e os Rolling Stones.”

Infelizmente são apenas piadas que já, infelizmente, vão perdendo a graça devido à crua fragilidade do ser humano. Descanse em paz, Sir Charlie Watts e torne o lugar para onde foste um recinto mais elegante e humilde, comprovando que esses dois adjetivos podem conviver. Charlie sempre foi elegante e humilde e será, eternamente, um rolling stone.

 

 

sábado, 8 de maio de 2021

A Dinda

Seguidamente alunos me perguntam que eu gosto de fazer no meu tempo livre, ainda mais agora em épocas pandêmicas em que passamos períodos mais longos em casa e economizamos tempo que perdíamos deslocando-nos de um lado a outro. Eu gosto de ver futebol, ver filmes, ler. E escrever. Vejo facilmente mais de dez jogos em uma semana. No entanto, escrevo raramente. Escrever exige tempo, concentração, silêncio. E, cada vez tenho menos tempo e, quando tenho, o cansaço é tão grande que acabo optando por tarefas mais passivas e com menos exigências.

É triste, mas, as últimas vezes que me obriguei a encontrar tempo e forças para ligar um computador que já está cansado de meu rosto já que passamos cerca de 15 horas nos olhando um a outro, é devido a mortes, mortes estas de pessoas queridas, muito queridas, não somente por mim, mas muitos outros.

A loucura que vivemos faz com que comentários livres de maldade como “hoje só morreram 1542 pessoas” sejam encarados como corretos. O que talvez a rapidez do dia a dia não nos deixe perceber é que UMA pessoa é muito. Porque essa UMA pessoa significa mais do que possamos imaginar a outras várias pessoas. Outro comentário frequente e proferido com certa tranquilidade por quem os faz é que “a pandemia mata só os mais velhos”. As pessoas que fazem esse comentário não têm maldade, não os recrimino em absoluto. Evidentemente que seria pior, pela lei natural da vida, que as crianças fossem as mais afetadas por uma pandemia em vez dos mais experientes. É lógico. No entanto, sempre, desde criança, tive uma enorme química com os anciões e muito desse carinho foi devido, claro, à incomparável convivência com meus avós e com os veteranos que os rodeavam e que, por lógica, também estavam à minha volta.

Morreu a Dinda. Dinda de quem? deve estar perguntando algum leitor com menos intimidade com a minha família. Pois morreu a Dinda de todos. A Dinda era chamada de “dinda” pelos seus afilhados que, honestamente, não sei quantos e muito menos quem foram, são. No entanto, o carinhoso apelido não se limitava a esses privilegiados: muitos a tinham como a sua dinda, a Dinda de todos.

A morte da Dinda foi mais um golpe duro de uma época nefasta. Com a Dinda, minha vó, o tio Ayrton e uma época também morreram um pouco mais. Sinto que os dois citados, seus irmãos, morreram um pouco mais para mim. Infelizmente. Não consegui ver a Dinda depois da morte da minha vó, mas tenho certeza de que vê-la seria de certa forma avivar as lembranças e “ressuscitar” um pouco a dona Beatriz. Assim era quando estava com as duas em relação ao saudoso tio Ayrton, pessoa que sinto muita falta e que sentia um enorme carinho. Ele voltava quando era citado e quando tinha histórias contadas em que ele foi protagonista. Pois essa velha guarda morreu ainda mais com a partida do último estandarte.

É impossível desassociar a figura da Dinda de seus dois irmãos. Sempre considerei a Dinda a figura rara do trio. A vó e o tio Ayrton eram os mais geniosos, de pouca abertura, não mostravam os dentes para qualquer um. Era um privilégio ter sido tão querido pelo tio Ayrton como fui eu e meu irmão. A Dinda, ao mesmo tempo em que era parte desse time inseparável que, se fecho os olhos, os vejo, lado a lado, caminhando no calçadão de Ipanema, era a figura estranha, a diferente, a popular, a dinda de todos, a boêmia, a sem qualquer tipo de preconceitos, a que, creio, jamais se irritou em toda a sua vida, pelo menos jamais presenciei tal evento, a que mostrava os dentes para qualquer um, a que jamais ouvi falar mal de outra pessoa, a que jamais vi reclamar de qualquer evento negativo que lhe aconteceu e estes foram vários. A Dinda era um ser simplesmente diferente.

Memórias não faltam. Agradeço ter tido o prazer de aprender a ser melhor com ela e o fiz sem jamais ter escutado um sermão da Dinda, sem jamais ter tido uma conversa séria com ela. Aprendi a ser melhor simplesmente ao sentar-me com ela na sala enquanto esta tomava um café. Um olhar, o sorriso constante, o amor que esbanjava a qualquer momento.

Com a Dinda acampei, fui à praia, me levou até para um grupo escoteiro, mas o que mais valorizo e que sentirei falta foram os mundanos momentos de vê-la chegar na casa de Ipanema, entrar, beijar todo mundo e simplesmente iluminar o ambiente com sua personalidade ímpar.

Adoraria acreditar que de outro lado ela se encontrará com seus irmãos. Adoraria, mas não sou capaz. Partiu no dia do octogésimo aniversário do rei Roberto, ídolo da vó, dando mais uma dessas pequenas e travessas ironias da vida que às vezes me faz pensar que há alguém que está nos manipulando de algum lugar. Filhas, netos, cantores meliantes de bairros boêmios de Porto Alegre, amigos e amigas, familiares, quantos corações partidos deixou a nossa Dinda, Titita, Maria Luíza ou a Linda, mas também quanto nos ensinou e nos amou essa pessoa única e irrepetível.

Desde a morte da vó a Dinda me disse que abria a janela de manhã (a manhã da Dinda era depois do meio-dia...) e perguntava olhando para a janela da vó: “Mana, onde tu andas?”. Pois bem, espero mais do que nada estar equivocado e que essas almas possam estar juntas outra vez depois do breve “divórcio”. Descanse em paz Dindinha querida, contigo levas mais pedaços de uma época sem igual.

segunda-feira, 29 de março de 2021

Perigo de Gol

A linguagem tem várias formas. Linguagem se associa à língua e, talvez, a forma mais predominante de expressar-se deve ser a fala. Falamos mais do que escrevemos. Comunicamos melhor falando que escrevendo? Alguns. Outros o fazem melhor através da arte. Pinturas, poemas, livros, esculturas, todas essas formas podem ser consideradas as ideais de comunicação para alguns.

Eu falo mal. Expresso-me de forma confusa em qualquer idioma oral. Gaguejo. Não consigo que meus lábios se movam com a mesma frequência que meus pensamentos. A minha avó tinha dificuldade em me entender. Os mais próximos talvez já nem percebam pelo simples motivo de ter o costume. No entanto, sempre que tenho algo mais relevante para transmitir, escrevo. Exemplo? Após uma semana espetacular recheada de saudosismo e amizade genuína com meu irmão Pingo em sua casa, saí, me despedi, agradeci. No meio do caminho uma mensagem de texto “oficializando” o meu agradecimento.

A Mirtes nos deixou essa semana. Um golpe duro. Nesses últimos dias me comuniquei com o Nuno por mensagens de voz. Ele me mantinha atualizado sobre a situação da Mirtes. Mandei algumas mensagens longas, confusas, me perdia. Ainda não criei coragem de ligar para as três pessoas que pretendo ligar algum dia para dizer algo: o próprio Nuno, a Bola e a Michele; Michelle, senão a alemoa me xinga. Quando ligarei para eles não posso dizer. Nesse momento eles não deverão querer me escutar. Pode ser amanhã, no próximo fim de semana ou no ano que vem. No momento correto eu saberei o que fazer. Devido a toda essa impossibilidade, contando, obviamente, a distância, decidi manifestar algo através de meu texto. Seu filho o fará melhor quando também perceber que o momento chegou. A Michelle escreveu lindas palavras e ilustrou com imagens da Mirtes saltando como uma louca num pula-pula. Não poderia ter escolhido melhor. Que definição mais perfeita e apurada sobre quem era a Mirtes, quem é a Mirtes porque só se morre quando se é esquecido e essa terá muitos cérebros, alguns mais veteranos, outros juvenis, para jamais deixá-la nos deixar. A minha querida e saudosa amiga Alina também nos entregou lindas palavras – “a Mirtes era a segunda mãe de todos”. Não há melhor definição. A Mirtes, se indagada sobre em que era melhor, deveria dizer em ser mãe. Poderia estar na sua carteira de trabalho. Profissão: mãe.

Todo mundo amava a Mirtes. Todo mundo deve ter contado sobre a sua luta a alguém mais. Eu o fiz. Minha mãe, que nunca a conheceu, rezava por ela todas as manhãs. Minha esposa a mesma coisa. Ela a conheceu. Foram alguns encontros e suficientes para causar aquilo que a Mirtes causava em todos que a conheciam. “Adoro a Marcela” ela me dizia sempre. Era para eu me sentir melhor? Não, era porque ela realmente adorava alguém que ela mal conhecia.

A Mirtes tinha isso. Uma aura? Uma alma? Uma personalidade? Eu, mais tosco, iria pela personalidade. Mas, pela Mirtes, abro uma exceção e aceito que alguma outra coisa ela deveria ter, sabe-se lá o quê.

Pois quando falava com minha mãe e com a Marcela, estas, sem culpa, referiam-se à Mirtes como “a mãe de um amigo do Eduardo” ou “la mamá de un amigo de Eduardo”. Mentalmente as corrigia e admito que até uma raiva injusta sentia. Como vão dizer que a Mirtes, a minha Mirtes, era uma simples mãe de um amigo? Começando que são dois amigos que amo e aí incluo a já citada irmã, Michelle, que também era filha da Mirtes. Todos éramos, de certa forma. O curioso foi que algumas pessoas que souberam do falecimento da Mirtes por mim ou já através das pessoas que eu contei, me deram os pêsames. Para mim.

A Mirtes pertencia a mim. Pertencia a todos. Como disse ao Nuno, a Mirtes era propriedade de todos. Ou, pensando bem, todos nós éramos propriedade da Mirtes. A Mirtes, nunca dona Mirtes. Nunca a mãe da Daiane ou a mãe do Nuno: A Mirtes. E que seus filhos biológicos não fiquem ciumentos. O carinho e a atenção da Mirtes não tinham limite. Ela ia conhecendo mais pessoas e a sua capacidade de expandir seu extenso número de pessoas para ela gostar e querer que estivesses ao seu lado, no seu sofá ia aumentando em proporções geométricas.

Em muitas oportunidades a Mirtes me trazia do colégio para minha casa. Certa feita, estacionada em frente ao colégio, um professor se aproximou, Celso Godinho, e este disse à Mirtes que eu estava incomodando muito na aula junto com a Dani, o seu terror. Esse dia eu e a Dani ficamos meia hora a mais do recreio batendo bola na quadra. Como esquecer. Nada no Exupèry era sério. Celso disse isso rindo. Ele sabia que a Mirtes não era a minha mãe, mas disse igual. Enquanto eu e a Daiane ríamos no banco de trás, Nuno no banco da frente, Mirtes escutava e depois, furiosa, me disse: “tu tens que parar com isso, guri, deixa de ser sem vergonha”. Ela foi a única que encarou a coisa de uma forma diferente. Foi cômico a todos os demais. Ela leu de outra forma. E isso acontecia seguidamente com a Mirtes. Ela era diferente. Via e sentia a vida de forma diferente. Tinha certa dificuldade de entender duas coisas: ironias e sarcasmo. E como aproveitamos dessa falha dela para nos divertir...

Hoje meu amigo Dieguinho, em uma ligação que me tocou, me disse com números, bem dele: dos 14 aos 18 anos estávamos TODOS os dias na casa da Mirtes. Verdade. Depois começaram as universidades e seus horários alternativos e isso dissolveu um pouco. No entanto, durante esses quatro anos, foram, sim, todos os dias.

Histórias não faltam. Estávamos numa fase de crescimento. Comíamos sem parar. A Mirtes corria de um lado para o outro, falava sozinha na cozinha pensando alto. Um dia a escutei falar consigo mesma: “já não sei mais o que dar para vocês comerem!”. Tínhamos comido tudo que havia na casa. Lembro que a cartada final foi o Bolídio assando salames italianos na lareira. E ela adorava isso. Uma vez me fez passar por apuros quando me disse, com cara de preocupação e tudo, que eu tinha comido a maçã do Ico. Quando eu já estava prestes a me levantar e sair pela noite para comprar uma maçã, ela me disse em meio à sua linda gargalhada que eu fosse me catar e que eu fosse à merda. Claro, a Mirtes jamais negaria uma maçã. Ela jamais negaria qualquer coisa, gostava de todo mundo e de agradar a todo mundo. Uma das minhas repetidas formas de irritá-la era, quando almoçava lá, perguntar se eu podia me servir mais e lá vinha o clássico vai à merda ou vai te catar da Mirtes.

 Por que nos encontrávamos sempre na casa da Mirtes dentro de um condomínio onde havia tantas casas de tantos amigos queridos? Nunca nos perguntamos isso. Nunca sequer colocamos em pauta qual seria o ponto de encontro. Era a casa da Mirtes. O Lipe morava há 10 passos da casa da Mirtes. Se fosse por número de integrantes, na casa dos Soares Pereira havia 3,5 integrantes, mais do que os três da casa da Mirtes e me refiro aos “jovens” habitantes de tais moradias. Pois hoje me perguntei por quê. Era pela Mirtes.

Na era pré-celular, e eu devo lembrar aos amigos leitores que fui o último a ter (sim, somente para contrariar) eu aparecia sem saber se o Nuno, a Michelle ou a Bola estaria. Mas a Mirtes quase sempre estava. Dizia-me que o Júnior e a Daiane não estavam, mas complementava com o clássico “fica aí, guri” dela. E eu ficava. Conversando com a Mirtes.

Disse algumas vezes ao Nuno e a outros que é impossível não lembrar da Mirtes sem rir, mesmo estando todos nós no meio dessa injusta tragédia. Tenho inúmeras lembranças. Rio sozinho em casa entre lágrimas que não cessam de querer dar o ar de suas tristes graças. Talvez o único momento em que Mirtes pensava em si mais que nos demais era na hora da novela. Ela gostava, queria escutar. E, coitada, JAMAIS o podia fazer sozinha, em silêncio, concentrada. Sempre havia três ou quatro na sala. Com ela. Obviamente não pela novela. Mesmo assim, apesar de estar vivendo o seu momento, a cada intervalo ela se levantava, entrava na conversa (meu Deus, como falava a desbocada Mirtes...) ou saía num pulo para resolver os problemas que ela captava que, sem muita variação, quase sempre era o desespero dos demais de comer algo. E lá ia ela revirar a cozinha e trazer coisas. Ah, e isso quando ela não se sentava no chão da sua própria casa. Se ela chegava quando as vagas dos dois sofás já estivessem repletas, se jogava no chão. Obviamente todos ofereciam, sem muita esperança de que suas propostas seriam aceitas, os seus lugares; mas lá vinha ela de novo nos mandar à merda e, com o seu espírito eternamente infanto-juvenil, se atirava no chão. Divina a Mirtes.

 

Não lembro quem foram os agraciados em presenciar tal cena, mas a Mirtes, depois de me mandar calar a boca em diversas oportunidades – sim, ela era autêntica e espontânea ao extremo – se levantou. Saiu da sala. Voltou me olhando fixamente e com um passo entre um caminhar apressado e uma corrida. Soma-se a essa espécie de trote, um olhar diferente, assassino, ameaçador. Quando chegou há poucos centímetros de mim, sacou uma fita durex e me colou na boca. Gargalhadas. De todos, mesmo de mim tendo a boca semi colada.

A briga com a Michelle. Das cenas mais bizarras e cômicas que já vi. Terminaram ambas em cima da cama do Nuno agarradas aos tapas uma montada em cima da outra. Desse dia eu sim lembro que somente o Gui me acompanhava. Nuno consternado tentando separar e eu e o Gui sem saber que fazer, se ajudar a separar ou se rir.

Falando em brigas, Mirtes era teimosa como poucos e parecia, com sua voz alta e firme, desfrutar de discutir, mais do que tudo com a Daiane. Era SEMRE a mesma coisa. Um comentário da Mirtes. Daiane contrariava. Mirtes partia para a tréplica, Daiane replicava já, claro, rindo. Mirtes, como disse antes, tinha outra percepção das coisas. Todos os presentes começavam a segurar – ou não – as risadas. Mirtes séria discutindo. E isso acabava com a gritaria das duas que, minutos depois, se tornavam gargalhadas.

Flamengo x Grêmio. Se o Grêmio segurasse o Flamengo, o coirmão seria o campeão. 99% da torcida do Grêmio torcendo, óbvio, pela derrota do Tricolor. Mirtes não. Mirtes tinha valores e conceitos incorruptíveis, imaculados. Convicções fortes que, muitas vezes, se mesclavam com sua teimosia. Fomos, todos gremistas dessa vez, ver o jogo na sala dela. Ela indignada. O Grêmio saiu na frente, ela comemorou. Teimosa. Eu indignado resignando à minha posição de torcedor desse clube traidor. Flamengo empatou, gritos de alegria na sala. Mirtes indignada nos dando lições de moral. O Flamengo virou: abraços e gritos de alívio de todos. Mirtes se levanta e vai ver outra coisa no quarto dela e saía da sua própria sala falando sozinha e blasfemando contra todos nós. Tinha convicções. Percepções diferentes. Era outra espécie.

Levo um CD do John Fogerty. Essa relembrei com o Nuno nesses últimos dias. Coloco. Do nada vejo a Mirtes se aproximando. Enlouquecida. Olhos fechados, em transe, em outro mundo. Começa a dançar. Não sei se rir. Rio. Paro. Volto a rir. Mirtes nem aí. Autenticidade pura. Dançou sem parar todas as músicas enquanto eu, sentado com o Nuno e Bola, ríamos do espetáculo. “Guri, tu vais me emprestar esse disco, né?”. Nem sei se algum dia o trouxe de volta.

Fui também colega de academia da Mirtes por um breve período. Incomodava ela dizendo que ela só ia para conversar. “Que nada, guri, deixa de ser besta!” Era a única pessoa que ainda usava a palavra “besta”. Na academia, sempre cercada de gente, de todas as idades. Eu ia de bicicleta e um dia começou a chover aos cântaros. Ela disse que melhor eu voltava com ela. E a bicicleta? Segundo ela dava para meter no carro. Não sei como, mas ela conseguiu. No caminho para casa ela quis parar no Casca, mercado favorito dela. Ela entrava e falava com TODAS as pessoas do recinto.

Sala lotada. Alguém que não me lembro quem foi, se levanta para ir ao banheiro. O vaso sanitário do banheiro “público” da casa estava entupido. Mirtes, sem titubear, pergunta, no meio de todos: “tu vais fazer cocô? Porque se sim vai no meu banheiro”. Quem normal faria isso? Ela perguntou seriamente, com a maior naturalidade do mundo. Após a reação de todos os presentes ela riu, mas, como era peleadora, começou uma discussão coletiva contra todos onde argumentava não ver problema na pergunta. No mundo dela, na cabeça dela. E oferecer o próprio banheiro para tais propósitos? Quem mais, só a Mirtes.

Foi-se a Mirtes. Deixou-nos. Por quê? Não sei, não entendo e não quero entender. Adoraria ter uma crença que me permitisse ter a tranquilidade de que a última vez que nos vimos não foi a última vez que ela vai me xingar, me chamar de besta e, ao final, dizer para eu ficar mais ou voltar no dia seguinte. Nessa solidão que me pegou a morte da Mirtes eu fui aos nossos chats de whatsapp. Escutei a última mensagem de voz que ela me mandou. Chorei. Fui mais atrás e encontrei uma mensagem que expressa um pouco essa alegria de receber que ela tinha. Disse a Mirtes: “venha almoçar aqui no sábado. Mas antes disso passa aqui para conversar com a Daiane que está aqui. Melhor ainda: vem amanhã ver o jogo”. Simplifiquei a mensagem. Em resumo, ela me convidou para ir todos os dias da semana lá vê-la e hoje penso que daria o que fosse necessário para ter pelo menos uma semana com a Mirtes.

Sinto-me até um pouco egoísta em trazer isto à tona, mas a Mirtes era uma pessoa que me fazia sentir extremamente especial. Muitas vezes, em minhas visitas a Porto Alegre, deixo de fazer algumas visitas, pois tenho o negativo pensamento de crer que já não são tantas as pessoas que ainda têm o interesse em me ver. Mirtes me deixava sempre claro que, pelo menos com ela, isso não era real. Xingava-me por não ir com mais frequência. Também sendo egoísta, Mirtes era Zona Sul, era um imaginário de um nostálgico enfermo como eu, era parte dele, parte fundamental. Esse abandono que a Mirtes me deixou e a muitos mais, é este imaginário cada vez perdendo mais peças, é uma época se apagando e dizendo que tudo passa e que já não voltará jamais. É o vilão tempo colocando obstáculos às nossas memórias. Com a Mirtes morre uma parte grande de todos nós que fizemos parte dessa comunidade, dessa amizade. A Mirtes nos arranca um pedaço importante de nossas histórias, de nossa evolução como seres humanos.

A Mirtes gostava de futebol e quantos não foram os jogos que vimos juntos. Tinha dificuldade em entender a regra do impedimento, até aí tudo bem. Minha vó nunca entendeu e partiu sem entender. O problema grave da Mirtes era não entender a regra do “perigo de gol”. Ela tinha surtos de indignação por coisas que apenas podiam causar graça aos reles mortais, mas uma das coisas que mais a indignava era não entender a tal regra. TODOS comentavam, inclusivo os mais idôneos como o seu Eugênio. “Ah, foi perigo de gol”. A Mirtes saltava INDIGNADA. “Como assim? Se o propósito do futebol é fazer gols!”. Mirtes sempre de prontidão para defender suas convicções com sua voz alta, firmeza, palavrões, cara série e, claro, risos. Justificávamos dizendo que era uma regra, deveria ser respeitada...e o dizíamos entre risos. Mirtes seguia indignada. Nunca suspeitou que a gozávamos. Foi embora sem que nós tivéssemos amadurecido o suficiente para lhe dizer a verdade. Tudo bem, não perdeu nada e se ela soubesse que isso nos causava motivos para sorrir, estaria orgulhosa de seu papelão. Se eu estiver errado e algum dia possa me encontrar com a Mirtes em algum lugar vou lhe dizer que sim, deveria ter ido mais vezes visitá-la e, depois de ser chamado de besta ou de abobado, lhe explicaria que “perigo de gol” é uma ironia e, como muitas ironias, ela interpretava de uma forma diferente, da sua forma, da forma da Mirtes.

 

 

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

El Diego

 



2020 foi o pior ano para a humanidade desde que eu me conheço por gente. Falando de mim, a pandemia não me causou problemas maiores, ainda mais se me comparo com outras pessoas que enfrentaram inúmeros problemas. Mas, igualmente, 2020 foi o pior ano da minha vida, não pelo coronavírus senão pelo falecimento de minha vó e, também, pela morte del Diego.

Sempre disse que jamais tive ídolos. A palavra ídolo faz parte da família de outras palavras como “idealizar”, “ideal” e eu considero idealizar algum ser humano um erro e considero que o adjetivo “ideal” é demasiadamente aberto a interpretações. Consequentemente, afirmo que jamais tive ídolos.

Maradona foi, talvez, o mais próximo de um ídolo para mim. A minha “relação” com el Diegote começou na infância quando o amor pelo futebol começou a despertar em mim devido à influência do meu pai e, também, em menor escala, do meu avô.

A primeira Copa do Mundo que tive noção da existência foi, talvez, a pior de todas as copas do ponto de vista técnico: Itália 1990. Eu estava recém tentando entender como aquele mesmo jogo que eu jogava com meus amigos no pátio da escola e com meu pai e irmão no corredor do nosso apartamento poderia ser algo tão maior e inimaginável. Meu pai, sempre disposto a explicar seja qual fosse o tema para mim, era a minha única fonte de informações. O que ele dizia eu encarava como um dogma. Meu pai, naquela época, me falava basicamente de dois jogadores: Romário e Maradona. Eu, ingenuamente, tinha Valdo, craque do Grêmio do final dos anos 80, como o limite de destreza futebolística de um jogador profissional. Sinceramente, aos oito anos de idade um jogo de 90 minutos parecia-me eterno e não conseguia manter a atenção por muitos minutos seguidos. No entanto, sabia do talento de Valdo.

O Romário e o Maradona são tão bons como o Valdo? Meu pai apenas ria e, com paciência, tentava explicar que eram outra coisa, outro patamar. Dizia meu pai que Romário era o melhor de todos e que estava feliz que este não chegaria em forma ideal à copa já que meu velho sempre secou a seleção brasileira e temia o extremado talento do baixinho. Quando eu questionava sobre o outro baixinho, o rebelde, polêmico, extravagante, do país vizinho, meu pai apenas dizia: não, esse é outra história, é realmente o melhor que eu já vi, navega por outras águas.

Quem era Maradona? Era um então jogador do Napoli que fazia com que meu pai, na época com não mais de cinco canais, ligasse a televisão todos os domingos de manhã na Bandeirantes para vê-lo jogar. Eu olhava de soslaio e não achava muita graça, mas igualmente a atração por aquele simples jogador começava a me intrigar. Lembro que me chamava a atenção como el Diego apanhava.

O primeiro jogo de futebol que eu lembro onde tê-lo visto foi na sala dos meus avós em Ipanema em uma televisão vanguardista para a época. Lembro perfeitamente que vi apenas flashes do jogo que, repito, ainda não conseguia manter-me atento por muitos minutos. Tinha coisas melhores para fazer na imensidão do pátio de Ipanema numa tarde de domingo, último dia de meus tradicionais fins de semana com os saudosos avós. Provavelmente estava também a minha prima, meu irmão, ou seja, havia coisas mais interessantes para fazer do que aguentar 90 minutos com minhas energias em marasmo.

A Argentina ganhou. 1x0, gol de Caniggia. No entanto, poucos falavam de Caniggia e muito menos do Valdo que jogou essa copa e esse jogo. Os adultos da minha família apenas falavam de Maradona e de Dunga. O segundo por não ser capaz de parar o primeiro nem com falta e o primeiro, bem, o primeiro...todos falavam da tal jogada.

Demorei mais de uma década para ver a tal jogada. Na época, não seria necessário dizer, não havia muitas opções para ver um gol, uma jogada. Ou assistiam-se os programas esportivos ou jamais se poderia ver o que fora perdido ao vivo. Não vi. Passaram anos. Lembro vivamente do meu constrangimento quando escutava comentários sobre a jogada. Menti. Disse que havia visto. Não poderia ser o único que não tinha visto.

Em toda essa década, pensei nessa jogada. Como teria sido? E o autor, quem é? Quem era Maradona?

Jorge Valdano uma vez disse: “o futebol é a coisa mais importante das coisas menos importantes”. Os meus quatro leitores sabem do meu fanatismo por futebol. A falta de concentração para seguir 90 minutos de bola rolando hoje podem ser três ou quatro jogos no mesmo dia. Submeti-me a uma operação desnecessária para poder voltar a chutar uma bola. O futebol é a coisa mais importante entre as menos importantes da minha vida.

Nem todos sabem quem era realmente Diego ou melhor, o que era. Escutei comentários manifestando surpresa pelo que sucedeu depois de sua morte, mais especificamente nas ruas argentinas e nas de Nápoles. Para mim Maradona foi a maior personagem da história. Exagero? Talvez. Mas alguns fatos tornam a minha afirmação algo menos descabido do que parece. Algum Beatle disse que a banda era mais famosa que Jesus Cristo. Pois Diego é mais famoso que os Beatles e, por muitos, mais adorado que Jesus Cristo.

A Copa de 1994 me pegou em uma época onde eu, aos meus 12 anos, jurava, de pés juntos, que nada era mais importante que futebol. Caso perguntado à época sobre a afirmação de Valdano, o teria corrigido afirmando com a típica audácia infantil que o futebol era a coisa mais importante e ponto final. Desde 1994 eu vejo todos os jogos de todas as copas. E foi nessa copa que reapareceu aquele ser que tanto me intrigava: Maradona.

Meu pai, aos poucos, ia me contando sobre as peripécias da vida de Diego. Quando fiquei sabendo que ele estaria na copa de 1994 me surpreendi: ingenuamente achei que era apenas um jogador de futebol que havia desaparecido e que voltava para dar o seu último susto como um fantasma de filme de domingo à tarde. A seleção argentina de 1994 era, disparada, a melhor do certame. Do meio para frente jogava com Redondo, Simeone, Caniggia, Batistuta, Balbo e...Maradona. Sim, com a 10. Poderia, enfim, vê-lo jogar já entendo bastante mais do jogo e da personagem em questão.

Enquanto Maradona esteve na copa, vivi em êxtase tamanha qualidade. Dele e do resto do time. O gol contra a Grécia. A jogada. A definição de Diego. O grito furioso para as câmeras. E, vale salientar, que Maradona ainda era um jogador de futebol para mim. O melhor, mas apenas um jogador. Humano. Fiquei destroçado com o desfecho da história e minha tia Tânia me consolou me dando uma camisa da Argentina que mandei para uma costureira amiga da minha vó bordar atrás “MARADONA”. Guardo-a até hoje.

Passaram mais anos e meu interesse pela figura Maradona, pelo mito Maradona, pela lenda Maradona foi aumentando diretamente proporcional à evolução tecnológica que me permitia ver e saber mais sobre sua vida. Apareceu a televisão a cabo e consequentemente os canais argentinos. E, em seguida, a internet.

Passei a ser um “historiador” do mito Maradona. Hoje, já passados mais de vinte anos da copa de 1994, posso dizer que sei muito sobre a vida do mito. Tudo, impossível. Mas sei o bastante para me impressionar com a grandiosidade de um ser humano que de humano tinha tudo e muito pouco.

Desde a morte de minha vó e de Maradona, todos os sonhos que tive e posso lembrar contavam com algum dos dois ou ambos envolvidos, pois, como alguns sabem, minha avó também me acompanhava nessa admiração por Diego. O que gerou Maradona jamais outro ser humano foi capaz de gerar. Num país tão católico como a Itália, milhares de pessoas peregrinavam à casa de Diego em cima de uma colina em plena noite de Natal empunhando taças de champanhe para brindar com ele que, por sua vez, aparecia na sacada da casa, brindava e lançava panetones.

Maradona era tango, era o pibe sem regras, imparável. Poucos sabem, mas a primeira Ferrari preta foi produzida para ele. O conservador Enzo Ferrari, fundador da empresa, quase agrediu o empresário de Diego quando este disse que o então campeão do mundo e 10 do Napoli queria uma Ferrari, mas que tinha que ser...nera. Como era para Diego, Enzo cedeu.

Em uma excursão à África, ao aterrissar na Costa do Marfim, ouviu-se um barulho depois de alguns minutos e era simplesmente uma multidão que invadiu a pista e cercou o avião da delegação argentina e tudo isso em uma época pré-internet. Diz a lenda que até em cima da asa havia fanáticos locais ensandecidos.

Em um encontro com o papa João Paulo, há uma foto em que se vê Vossa Santidade em um canto e toda uma multidão fixamente mirando a Diego. E isso não foi o mais absurdo do ato. Ao invés de Diego beijar a mão do papa, o papa beijou a sua mão.

Ao morrer por cerca de dez minutos em Punta del Este, quando voltou à vida, abriu os olhos e convidou o seu amigo e empresário da época Guillermo Cóppola a ir comer um bife à milanesa com batatas fritas para a surpresa de todos os presentes incluindo os médicos que diziam ser impossível que um ser humano voltasse consciente desde o “outro lado”. Vale mencionar a relação de seu amigo que, trêmulo, respondeu: “pero te acabaste de morir, pelotudo!”

Sua filha mais velha um dia lhe comentou que adorava os carros Mini Cooper. No outro dia, no pátio da casa, enrolado em papel de presente estava um Mini Cooper. A menina, em uma mescla de estupor e felicidade lhe disse: “mas pai, eu só tenho 12 anos”.

Quando foi com a delegação argentina jogar um amistoso em Israel, foram visitar o Muros das Lamentações e, pela primeira e única vez, os rabinos ortodoxos abandonaram suas preces e foram vê-lo.

Maradona não tinha regras, não respeitava regras e fazia com que tudo ao seu redor se desprendesse de qualquer norma ou normalidade.

Mito. Maradona, desde os 15 anos, ao mesmo tempo em que se tornou “pai” de toda a sua vasta e miserável família, deixou de ser um humano qualquer com direitos e deveres. Passou a ser algo mais. Enquanto a maioria das pessoas se queixa por ter tido que passar muito tempo trancada dentro de casa durante esse fatídico ano, Maradona viveu uma “quarentena” desde os seus 15 anos quando estreou no futebol profissional dando uma caneta num adversário em seu primeiro toque na bola e, assim, permaneceu até os seus últimos, solitários e tristes dias. Maradona jamais pôde sair de casa. Jamais pôde ir a um restaurante. Maradona morreu sem ter ido ao cinema jamais. Há relatos de que pessoas quebravam as janelas de recintos onde ele estivesse para tocá-lo, vê-lo. Maradona morreu jovem, mas esses 60 anos foram 200 anos, algo demasiado pesado para alguém que era humano e que, ao mesmo tempo em que tinha uma vida artificial e longe do humanismo, uma vez, caminhando em uma pacata cidade suíça acompanhado por um jornalista amigo que inclusive escreveu uma de suas biografias, notou que pouco era importunado. O jornalista, após o comentário do perplexo Diego lhe disse que talvez seria, então, um lugar perfeito para ele morar. Maradona sorriu e lhe respondeu que depois do segundo dia cometeria o suicídio. O apego à fama, à loucura, à vida anormal foi o primeiro vício de Diego.

Sim. Apesar de ser alcunhado por muitos como “Deus”, ter santuários em sua honra e até uma igreja maradoniana, Maradona era mais humano que a grande maioria dos mortais, incluindo os que o veneram. Maradona era generoso, adorado por todos os seus companheiros e pelas pessoas que tiveram a chance de conhecê-lo um pouco melhor. Maradona era sensível, de choro fácil. Maradona não era Deus, era um dos filhos dele: cheio de defeitos; pecador. Tramposo, provocador, contraditório, mulherengo, irresponsável, cedeu a muitíssimas tentações, mordia a maçã com mais frequência que os seus seguidores e difamadores.

Talvez a pior tentação que o perseguiu foi a cocaína. Inúmeras vezes Diego, com um ar nostálgico, com uma mistura de ingredientes como arrependimento, desolação e ternura lançava a pergunta sem resposta: que jogador eu teria sido se não tivesse usado cocaína? E complementava, taciturno: que jogador o mundo perdeu a oportunidade de ver.

Maradona jogou apenas 491 jogos profissionais. Numa busca insana, já consegui ver mais de 300 jogos completos de Diego e sempre digo que ver um jogo completo é um prazer infinitamente maior do que ver apenas lances de sua genialidade. Há poucos dias consegui um jogo dele numa periferia de Belgrado. Chegou aos seus ouvidos que uma família precisava de ajuda para pagar o tratamento de uma criança. O Napoli negou a participação dos seus jogadores nesse jogo beneficente, mas Diego não tinha regras. Foi. Jogou na lama, jogou como uma final de Copa do Mundo e foi mais Diego e mais humano do que nunca.

A relação de Diego com a bola era de amor. Como ele bem disse em sua festa de despedida, “la pelota no se mancha”. Nos seus pés a bola desfrutava, gozava, se retorcia de amor e até dormia. Adorava-o. A discussão de quem foi o melhor é aberta. Gosto cada um tem o seu. Para mim, considerando todas as variáveis possíveis, Messi foi ainda maior que Diego e isso devido à sua constância, trajetória e foco no futebol. Não obstante, tecnicamente falando, esteticamente, saindo do frio da análise pragmática, Maradona foi o que teve a relação mais exuberante com a bola, o que mais a adorou, um dos poucos que a colocou por cima de outras importantes relações da vida de qualquer humano: família, amigos, vida pessoal. Diego contrariava Valdano e punha o futebol como a coisa mais importante de todas e ia ainda mais além: a bola estava no topo de tudo, do mundo, do seu mundo, de sua loucura.

Eu, depois de tantos anos, afirmo que prefiro ainda mais o mito Maradona que o jogador Maradona. Craques sempre existiram e sempre existirão. Como el pibe de oro, jamais; no entanto seguem nascendo, existindo, desfilando. No entanto mitos, bom, mitos, apesar da atual vulgarização do significado da palavra, mitos são raros, aparecem a cada novo século, milênio, vá saber. Sempre fui contra a carreira de Maradona como técnico, pois o colocava sob análise, era exigido, era tratado como um humano, cobrado. Maradona não poderia mais estar entre os mortais com um trabalho de mortais. Maradona estava por cima de tudo e de todos. Não há, na história, alguém que, sempre que abria a boca, deixava uma frase que poderia terminar em uma camiseta, em uma tatuagem. Uma bíblia não seria suficientemente grande para registrar todas as suas frases, suas proezas. O clichê de que todos somos iguais é uma falácia e o mito Maradona ajuda a desconstruir essa ideia errônea.

Mitos morrem? Jamais. Maradona apenas desapareceu fisicamente, mas seguirá eternamente nos imaginários de todos. Teve, felizmente, a despedida mais real e humana que merecia sendo técnico do Gimnasia e sendo ovacionado em todos os estádios argentinos em vida até que a praga moderna resolveu dar as caras e, consequentemente, ajudou bastante a empurrar Diego para a depressão de seus últimos dias. Os tronos que eram instalados nos estádios para recebê-lo se tornaram ornamentos inúteis. Pessoas morrem e se tornam mitos enquanto Diego já gozava de tal título. Finalmente irá descansar dando um golpe duro à infância, aos imaginários de muitos como eu. Diego, nos seus últimos dias sentia falta de seus pais. Sentia uma insana e inatural vontade de ser filho outra vez, depois de tantas décadas sendo o “pai” de seus pais, de seus filhos, de seus irmãos, de amigos e de outros tantos. Maradona já queria morrer.

Minha teoria sobre a figura de Jesus Cristo é polêmica, mas compreendida por muitos. Analiso Jesus do ponto de vista histórico. Judeu, filho bastardo, foi obrigado a fugir de casa para evitar o escândalo. Enamorou-se de uma prostituta. Ganhou a vida como profeta. Tinha a clássica inteligência superior do povo judeu, bom discurso, era bonito, atrativo, gerava fascinação em quem o via. Lutou pelos desprovidos, distribuiu alimentos aos que não tinham. Ganhou inimigos e terminou sofrendo o pior dos castigos. Posteriormente, foi chamado de salvador, algo que nunca entendi. Maradona não foi Deus, longe disso. Maradona foi mais um jesus. Deu alegria a muitos. Lutou pelos excluídos do sul da Itália, ajudou quem pôde, caiu na tentação sem livrar-se, jamais, do mal que, segundo o próprio, sempre esteve dentro dele e somente ele sabia os arrependimentos e dores que queimavam seu interior. Grande orador e possuidor de uma espécie de misticismo que fazia com que sua simples presença paralisasse a tudo e a todos por alguns segundos. E, assim como Jesus Cristo, nos salvou de absolutamente nada.

Maradona queria apenas jogar uma Copa do Mundo e ser campeão. Jogou, ganhou, foi o melhor e fez o gol mais espetacular e o gol mais polêmico de todos os tempos dando uma demonstração de duas de suas principais facetas: o Maradona artista, gênio, Deus; e o Maradona tramposo, pecador, humano, Jesus Cristo.

Apesar de provavelmente nunca ter sido uma pessoa feliz, gera, na maioria das pessoas, graça, arranca um sorriso quando nele se pensa. Até o seu último adeus foi um causador de rebuliços, distúrbios, caos, vide o velório mais imenso, bizarro e dramático da história.

Um beijo eterno de um grande admirador. AD10S.

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sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Nunca

 Não tenho o hábito de mandar felicitações públicas, mas também jamais critiquei quem o faz. De certa forma, é uma possibilidade de unir pessoas ao redor de um acontecimento que pode ser importante para um pequeno coletivo de pessoas. Em épocas pandêmicas ou devido à distância geográfica, funciona como uma alternativa à ausência do estar junto.

Minha vó não tinha um smartphone e muito menos redes sociais. No entanto, frequentemente meus textos chegavam às suas mãos. Havia, lá fora, um exército de agentes que os encontravam e os filtravam para saber se cumpriam requisitos para causar interesse a essa leitora. Algumas vezes meus textos foram impressos e entregues para regozijo desta.

Qualquer coisa que eu escrevesse ou produzisse, muito provavelmente seria de interesse de minha vó. Eu não escrevo e nunca escrevi para ser lido. Escrevo porque gosto de ler meus pensamentos e opiniões. Mais ainda quando é depois de algum período relevante ter transcorrido. Deparei-me, algumas vezes, com textos que escrevi há bastante tempo e é sempre curioso ver as temáticas outrora abordadas e as sutis mudanças de opiniões. Mas, se estivesse em busca de reconhecimento e admiração, minha vó seria a leitora escolhida. Certamente, apesar de admirar muitas outras pessoas e por diferentes motivos, ela é a pessoa que mais me admirou em toda a minha vida. Sempre me colocou em um pedestal que eu, nem ninguém, teria os méritos suficientes para estar. Certa vez, com certo receio, me disse que achava que eu era gay por ser tão bonito. Não era por um comportamento afeminado que acredito que jamais tive; senão por eu possuir um excesso de beleza. Sou tão bonito assim? Os gays são mais bonitos que os heterossexuais? Eu responderia que não às duas indagações, mas esse era o raciocínio dela e quem sou eu para tentar encontrar a lógica que poucas vezes, ou quase nunca, essa vida nos oferece.

Há um mês foi o aniversário de 87 anos dela. O último.

Diferentemente dela, talvez jamais tenha dito o quão bonita ela era. Desde a sua juventude até cada vez que voltava a vê-la em minha tradicional visita anual. Havia diferenças de beleza com o passar das décadas, mas ela sempre estava. Minha vó tinha 49 anos quando eu nasci, não muito mais do que o número de anos que eu tenho agora. E, considerando que não fui o primeiro neto, ela já detinha o título de avó desde a metade de sua quarta década de vida. Lamento profundamente essa nova tendência de ter filhos mais velhos que impera atualmente. Evidentemente tem inúmeras vantagens, mas os pais atuais privam seus filhos da melhor das relações que eles poderão ter em suas vidas que é a relação neto-avós. Sinto-me muito abençoado por ter tido a chance de, apesar de não ter conhecido dois de meus avós, poder ter convivido com uma intensidade de tempo/sentimento invejáveis com os dois que eu tive. Histórias juntas não faltam e jamais serão esquecidas.

Minha vó não poderia ser definida como a típica senhora que adora a tudo e a todos. Não vou ser manipulado pela dor recente e dizer que foi a melhor pessoas que já conheci, posto que ocupa a minha tia Thaís e a Dinda. Minha vó não gostava de cachorros, gatos ou de crianças, sim, de crianças. Seguidamente repete que crianças como os seus filhos e netos jamais existirão sequer parecidos. Será verdade que, entre 7 bilhões de seres humanos que já foram ou seguem sendo crianças que habitam esse planeta, fomos as únicas crianças com méritos suficientes para serem queridas? Como ela não gostava muito de ser contrariada vou ter que concordar sempre lamentando um pouco não ter dado um bisneto a ela para que esse grupo exclusivo de cinco pessoas fosse inchado um pouco mais. Porque claro, se o filho fosse do Eduardo...

Era, sim, uma pessoa que, com o seu ciclo próximo, se tornava a melhor pessoa do mundo.

Tínhamos muitas coisas em comum. Jamais brigamos. Ela nunca me criticou em toda a vida e foi sempre a pessoa que mais me mimou. Sempre que ela não gostava de algo que eu admiro, tentava passar a gostar ou relativizava. Tinha pavor ao som de guitarras, mas, quando mostrei meus vídeos e fotos dos shows dos Rolling Stones em que fui, ela suavizava dizendo, timidamente, que não gosta “muito” da música, mas que, apesar de serem muito feios, entram na galeria de “fantásticos” dela.

Nunca dediquei um texto exclusivamente a ela. Nem a ninguém. Arrependo-me agora que ela não está mais entre nós? Em absoluto. Poderia me arrepender de qualquer coisa em relação a ela? Jamais. Na visão dela fui perfeito e ela sempre foi a minha vó, com seus defeitos, pois eu sim, numa audácia juvenil, os via, mas sempre desfrutamos o fato de estarmos juntos, seja ela me carregando no colo ou nós, há um ano e meio atrás, vendo juntos, lado a lado, algum jogo de futebol. Com certeza hoje meu irmão e amigos entenderão minhas negativas de dormir em suas residências. Meus dias com ela eram poucos e a vida, de certa forma, a cada nova ruga, ia avisando que isso não duraria para sempre. Eu apenas fazia de conta que não entendia as mensagens, mas, no fundo, as registrava. E as temia.

Há alguns anos, em uma de minhas visitas anuais, a convidei para ir ao cinema. O filme era “La piel que habito”. Convenci-a a ir argumentando que o ator principal era o Antonio Banderas, um de seus “bonitões”. Sabia apenas isso e que o diretor era o Pedro Almodóvar. Para mim isso era suficiente. O que não sabia era que o filme era bastante mais pesado do que eu poderia imaginar. Não costumo pesquisar muito sobre os filmes antes de vê-los, ainda mais sendo filme do Almodóvar em quem eu confio no taco. Excelente obra, mas que só consegui desfrutar plenamente quando voltei a ver. Durante a sessão somente pensava no que estaria passando pela cabeça dela. Ao final, acenderam-se as luzes, ela me olhou, sorriu e disse: “É...uma loucura, mas bom hein?”

A vó era algo perdido entre o samba e o tango. Uma ponte aérea entre o Rio de Janeiro e Buenos Aires. Tinha sua malícia carioca que se emaranhava com seu dramatismo porteño. Maliciosamente um dia me disse: tu sabes tudo, deves saber isso também...por que o Messi, após cada gol, aponta para o céu? Eu, obviamente, sabia e, para quem não sabe e não quer perder tempo googleando, ele dedica todos os seus gols à sua falecida avó que não chegou a vê-lo jogar profissionalmente. Que perda. Para o Messi.

Que queria a dona Beatriz conseguir com essa pergunta? Em um momento de corporativismo de avó queria reconhecimento para o poder inigualável que essas têm para com os seus netos?

Disse a ela que, se ela quisesse, eu poderia começar a dedicar todos os meus gols no videogame e nos meus jogos de domingo a ela. Como sempre, modesta, disse que eu deveria era dedicar os gols à Marcela.

Dedicar meus gols jogando FIFA ou os que faço jogando aos domingos seria pouco. Pouco para a magnitude dessa pessoa. Uma pessoa que sempre esteve ao meu lado em todos os momentos sendo a pessoa mais estável da minha vida. Os gols “um pouco” mais importantes que o Messi dedica à sua também devem ser pouco. Pessoa que passava horas a fio me fazendo massagens e cafuné. Quando as articulações das suas mãos se engrunhiam eu apenas dizia “continua...” e lá ia ela outra vez.

Ela me fez, sempre, ter a certeza de que eu era o neto favorito, mas, hoje, passados os anos, suspeito que ela, com sua malícia carioca e sua dramatização porteña, fez com que os outros dois sentissem a mesma coisa. A cada visita minha ela perguntava, cerca de seiscentas vezes ao meu irmão a data exata da minha chegada. Anotava em seu caderno telefônico com mais pessoas mortas que vivas e, mais ou menos dois meses antes, começava os preparativos. 15 ambrosias, em média, eram feitas e devoradas pelo tio Zé até a minha chegada.

Transformava os meus inúmeros defeitos em qualidades e, do alto de sua humildade, sempre atendia as minhas ligações em seus aniversários, até o último, dizendo: ah Dudu, tu nunca esqueces! Como seu eu pudesse ter o direito se esquecer. Eu era, talvez, a pessoa que ela mais admirava nessa vida, ou pelo menos isso ela me fazia perceber. Entre todas as personalidades que ela alcunhava de “fantásticos”, eu parecia ser o mais de todos sendo um dos motivos para tal título algo tão pequeno como sempre ligar para ela nos seus aniversários. Essa era a lógica dela, e não julguemos a lógica dos demais já que, uma das preocupações dela era que, se a humanidade seguisse falando tanto em dinossauros e fazendo tantos filmes sobre isso, esses “bichos nojentos” algum dia iriam voltar. Questão de lógica.

A distância da Bea sempre foi a maior dificuldade minha em morar longe. Pensei que ter morado na Inglaterra ou viajado para a Nova Zelândia seria o mais longe que eu poderia estar dela. No entanto, agora, estamos mais longes do que nunca. Ou mais próximos? O avião e a viagem desgastante não são mais necessários. Agora, quando quero falar com ela, simplesmente penso nela. Vejo suas fotos e lembro de histórias que, felizmente, serão suficientes para mais tempo do que eu passarei por esses lados.

Assusta-me apenas ser igual a ela e marejar os olhos a cada vez que falava de seus pais, mortos, obviamente, há décadas. Gostaria de ter a fé do Messi e poder acreditar que ela está aí em cima de olho no que o “guri impossível que não perdoa e que sempre está pegando no meu pé” anda fazendo.

Incomodei muito a Bea. Desde boladas de propósito na janela dela para assustá-la até as tais pegações no pé que ela sempre, feliz, mencionava. Como dizia a minha mãe, enquanto mais o Eduardo “toreia” ela, mais ela gosta, que nem era com o tio Ayrton”. É verdade. Muitas vezes ela vinha e me contava, de frente, algo que fez e que sabia que eu ia pegar no pé dela. Gostava.

Descanse Bea, já nunca mais vou pegar no teu pé. Apenas te critico pela última vez por me ensinar o significado da palavra “nunca” de uma forma tão abrupta. Poderias ter me esperado. Ou essa praga poderia ter escolhido outro ano para dar o ar da graça.

Seguirei com a tua imagem caminhando no calçadão entre os teus dois irmãos enquanto eu passava correndo e gritava qualquer coisa. Ou, voltando mais no tempo, vendo tu brigando com as abelhas ao colher cachos de uva de nossa parreira para baldes e mais baldes de suco ou para cucas, sem caroço de uva porque, senão, o Dudu não comia.