domingo, 27 de dezembro de 2015

O Mito da Modernidade


Recentemente escrevi um texto que meus três leitores deverão associar com este em certo aspecto. Salientava, em dito texto, sobre o fenômeno do “facilismo” cultural, se podemos chamar assim, em nossa sociedade. Todo mundo quer imagens, de preferência fáceis, humor raso, que não seja necessário pensar e, quando leem alguma coisa, que seja historinha para boi dormir, vampirinho, mágico com varetinha na mão, historieta pornô de meia tigela com texto retirado de contos eróticos de páginas pornográficas baratas, fantasmas, enfim, fácil.

O que vou comentar nesse texto não é exatamente isso, senão o que eu considero o mito moderno, ou seja, tratar a palavra “moderno” como sinônimo de “evolução” o que, na maioria dos casos, não é verdade.

Começo com as relações pessoais. O que seria uma relação moderna? Um homem que nem sempre é maduro o suficiente para administrar uma família, pois demora, em média, 45 anos para amadurecer; uma mulher que não tem como prioridade cuidar de seus filhos ou fazer da vida de seu marido uma experiência mais agradável, preocupa-se, mais do que tudo, com sua vida profissional. Sucesso é a palavra da moda. Deseja-se, em inúmeras situações, “dinheiro” e “sucesso”. Dinheiro e sucesso se tornaram os objetivos de mulheres e homens, os principais. O que é sucesso? Vale qualquer coisa para obtê-lo? Admira-se qualquer pessoa com sucesso não importando como o conseguiu? Sim, isso é moderno. Moderno é fazer uma dança ridícula e publicar nas redes sociais e se tornar famoso e, consequentemente, ter o tal “sucesso”. Não se questiona se o ato que tornou determinado cidadão famoso e exitoso é merecedor de causar reconhecimento público para tal pessoa. O que vale é aparecer, é ter milhões de “likes”. Como afirmou o suicida Guy Debord em sua obra maestra “A Sociedade do Espetáculo”, “o que aparece é bom; é bom o que aparece”. Esses são os nossos padrões atuais. Basta aparecer.

Esse desespero pelo “aparecer” é extremamente relacionado com o dinheiro. Ter, e mais do que tudo, demonstrar ter dinheiro, é mandatório em nossa sociedade espetacular. Não basta ser, temos que ter, mais e mais. Quem tem, peço perdão para me meter nos pensamentos do mestre francês, também aparece e, por lógica, é “bom”. O ser humano normal e medíocre encanta-se ao tirar fotos na frente de Ferraris estacionadas em South Beach ou em Rodeo Drive. Demonstra, de certa forma, que estamos pelo menos perto desse sucesso, somos quase “bons” e antes ser quase que nada. É, o que insistemente estudou em uma obra que dedicou 18 anos de sua vida, Georges Bataille chamava de “necessidade do dispêndio” o que é, em poucas palavras, a obrigação humana de desperdiçar recursos (excedente, foi a palavra usada pelo autor) e energia em estupidezes sem qualquer importância como Ferraris, jogos ou festas, simplesmente para demonstrar poder e obter prazer. Os romanos já o faziam em seus bacanais antológicos e construindo monumentos inúteis bem como os indígenas norte-americanos que queimavam aldeias inteiras matando milhares de pessoas somente para demonstrar que podiam se dar ao luxo de matar “mão de obra”. Hoje o nosso dispêndio é colocado em rodas mais caras que o próprio carro, fabricar os mesmos carros que podem ir de 0 a 100 em três segundos e que dispendem bastante energia através do desperdício de combustível e que não considera que, devido aos congestionamentos de nossas grandes cidades e aos limites de velocidade, esses carros andarão a uma velocidade de entre 10 e, no máximo, 60 quilômetros por hora. São, também, celulares com preços exorbitantes, joias e etc. Seguimos iguais. Não há evolução.

Todo esse desespero moderno por sucesso e fama é uma das negativas características de nossa triste modernidade. Temos, hoje, que aguentar fotos de adolescentes e de mulheres sem o senso do ridículo, tirando fotos de si mesmas fazendo caras e bocas e postando no Facebook. “Olhem para mim, eu sou bonita, apareço, existo, quero ser amada e admirada, like me, like me”. Essa mensagem é o que leio nas entrelinhas de comentários estúpidos que costumam aparecer abaixo de fotos que somente conseguem gerar em mim repulsa e depressão alheia. O que não aparece, consequentemente não existe e a série “Kardashians” é a prova cabal disso. Um programa de televisão sobre nada com protagonistas que sabem nada sobre tema algum. No entanto, aparecem, dispendem.

O resultado dessas relações pessoais cada vez menos baseadas em bons sentimentos e admiração é a nossa sociedade de alianças obscuras tanto no cenário político, por exemplo, já vimos fotos de Lula abraçado a Maluf, quanto em nossa vida regular. Temos amigos, muitas vezes, por conveniência. Essas relações também refletem nos casos “amorosos”. “Uma mulher bonita jamais estaria com um cara pobre, ele deve ter dinheiro”. É só o que se escuta hoje; e, para a tristeza geral dos que ainda pensam em uma época que pensar em público é vergonhoso - o orgulho é ser idiota - na maioria dos casos se confirma. Temos relações rasas, pouca solidez familiar no que resulta em crianças e adolescentes cada vez mais incapazes para tudo. Hoje temos que até ensinar as crianças a brincar.

Em grupos específicos de pessoas o fenômeno também pode chamar até mais a atenção. A vida dos negros no Estados Unidos na época da segregação racial era repleta de humilhações diárias e nenhum ato da época pode ser defendido. No entanto, deixando o chatíssimo politicamente correto de lado, a família normal de negros no Estados Unidos nesse período obscuro racialmente falando desse país, era incomparavelmente melhor. Existia, de fato, estrutura familiar entre os negros americanos, algo em extrema decadência nos dias de liberdade de hoje. Hoje 70% das famílias de negros americanos não tem a presença de um pai ou a criança nem sequer sabe quem é seu genitor. Há o aumento descomunal do uso de drogas e, para completar, a degradação cultural. O moderno é o negro versão hip hop o que significa uma constante verborragia ressentida onde devem mostrar todo o tempo que hoje os brancos os têm que engolir porque já não existe mais a tal segregação e que agora quem deve ditar as regras são eles. Essa é a letra de um rap nas poucas que chegam a ter uma letra. Hoje comemos mulheres brancas; hoje nós temos muito dinheiro; hoje não nos levantamos mais para branco sentar, hoje dispendemos excedentes. Não há mais o esforço que havia dentro das comunidades de afro-descendentes americanos de provar todos os dias para os demais que eles eram também pessoas, tão pessoas quanto qualquer outra raça e que eram, também, bons cidadãos. Hoje, quem se importa em passar uma boa imagem? Vestem-se da pior forma possível tantando ser o mais ameaçador que podem alcançar e todos os têm que engolir. O resultado dessa “modernidade” das relações sociais? Os negros representam 13% da população americana e ao mesmo tempo fornecem 60% de presos para o sistema prisional ianque e, para completar o dado, 4,7% de todos os negros são detentos na maior potência do planeta.

Outro grande fracasso de nossos tempos é a muito badalada “globalização”. O que é isso? Na linguagem dos românticos sonhadores e cegos, é a união de todas as raças, todas as culturas, todo mundo junto unido por um objetivo comum que é a paz mundial e uma vida justa para todos. Ok, muito bonito este pensamento, gera letras bem tocantes como em “Imagine” de John Lennon. Não obstante, essa definição não considera uma coisa fundamental: estamos falando de um mamífero chamado homo sapien sapien que JAMAIS, em toda sua história, viveu em paz. Nós, como a maioria dos animais, somos seres que não podem viver em paz, sempre, desde o ocidente atual até os indígenas americanos, vivemos em guerra, este é o nosso estado natural e eterno. Uma criança de dois anos faz cara feia e fica brabo quando tem que devolver algo que julga ser seu. Os pronomes possessivos estão entre as palavras mais repetidas por crianças dessa idade. Mesmo eles, tão pequenos, marcam seus territórios, possuem, não gostam de compartilhar; os índios americanos, muitas vezes colocados como vítimas do homem branco, o que faziam? Viviam em paz fumando cachimbos da paz? Claro que não, essa é mais uma visão idealista da extrema esquerda ou dos inocentes europeus atuais. Os indígenas se matavam em peleias que eram verdadeiras carnificinas, usavam cabeças de inimigos como troféus, muitos eram antropófagos. Os incas, coitados, exterminados pelos “inca pazes” espanhóis. Ninguém questiona quem estava nessas bandas incas antes dos incas? Pois eu respondo: eram outras etnias indígenas que foram brutalmente exterminadas pelos mesmos incas. Vale também citar a “amabilidade” dos astecas. Tinham escravos e os matavam em rituais para demonstrar seu poder e sim, ADORAVAM o poder e as riquezas e para isso escravizavam para ter cada vez mais guerreiros para conseguir mais e mais objetos de ostentação saqueando outras tribos.

Dito isso, que não nascemos para viver em paz, digo que a tal globalização o que faz é acabar com a parte boa de nossas civilizações que é justamente essa diferença. Por que ter um mundo somente com incas? Por que ter um mundo somente com espanhóis? Ou com vikings? O interessante do planeta são essas diferenças que devem existir para sempre e devem ser coordenadas cada uma delas pelos representantes dessa cultura. União Europeia? O maior golpe do capitalismo já proferido contra uma das poucas sociedades da Terra que funciona, a europeia. O poder político, marionete do poder econômico, quer um governo apenas para governar e ditar regras mais facilmente para uma massa consumidora de mais de 500 milhões de pessoas. “Somos todos iguais, somos todos europeus”. Será? O que a Romência tem a ver com a Suécia? O que a Bulgária tem a ver com a Estônia? Terão estes países as mesmas necessidades, mesmas carências, mesmos problemas? História para enganar classe média europeia boca-aberta e ingênua. A ideia da UE é dominar facilmente todo mundo e, como consequência, manipular e até chantagear quem não se comportar bem. Quebraram-se países em nome da manutenção do tal “estatus” de europeu. Se não acreditam em mim, perguntem ao Chipre e à Grécia. E, vale-se dizer, fora a Alemanha, os únicos países da Uniao que conseguiram sobreviver à crise com poucos arranhões foram o Reino Unido e os escandinavos que não adotaram a moeda europeia e, assim sendo, podem mais ou menos se auto-controlar. Coincidência?

O resultado imediato da União Europeia é, além do fracasso econômico, o fracasso social. O livre andar de pessoas, a ausência de fronteiras, faz com que o velho continente perda sua charmosa característica de apresentar países tão próximos, mas tão distintos. Mas não, imaginemos todas as pessoas vivendo em paz em um mundo sem fronteiras...ok, John Lennon, ok. Imaginemos um romeno e um sueco iguais, falando esperanto e escutando música eletrônica em um galpão escuro. Todos iguais. Modernos. Endemoniza-se qualquer ideia nacionalista. Le Pen é chamada de fascista por gostar da França. Convenceram os alemães, atá a copa de 2006, que usar a camisa de sua seleção era sinônimo de ser nazista. Ostentar a bandeira britânica, é ser nazista.

Para terminar, vale dizer que até no futebol, a grande paixão global, a globalização foi extremamente maléfica. O que temos depois do vigésimo aniversário da Lei Bosman que, para quem não sabe, foi a que passou a liberar o número de estrangeiros nos clubes? Pois essa lei simplesmente fez com que os clubes perdessem sua personalidade, algo que é um dos objetivos da União Europeia, todos iguais. Já temos uma Inter Milan jogando com onze estrangeiros ou um Arsenal e Chelsea com um ou dois ingleses, tudo em nome do xou, de aparecer, de ter sucesso. Hoje a Premier League gera capitais impensados antes da Lei Bosman, mas, mesmo assim, não consegue os resultados que conseguia antes. Nos vinte anos prévios à Lei Bosman, os ingleses, mesmo com a punição de não participar da Champions League por CINCO anos, ganharam sete títulos entre 1975 e 1995, ou seja, 35% dos torneios disputados; enquanto que levantaram apenas quatro taças entre 1995 e 2015, ou seja, 20%. Essa capitalização do futebol também trucidou grandes potências do esporte que, por não serem potências econômicas esportivas, perderam força, vide os clubes holandeses e portugueses, por exemplo. E, agora, a nova movida é tornar até as seleções um bando de estrangeiros naturalizados sem contar a já forte presença de imigrantes como na seleção da França, por exemplo, onde praticamente não jogam franceses de verdade.

No entanto, algumas coisas ditas modernas foram sim positivas. Perdeu-se um pouco o belicismo pessoal, onde o sonho de cada um era morrer por sua pátria; hoje as pessoas não caem nesse conto e preferem das suas vidas por suas famílias e entes queridos. Finalmente, resta esperar que nesse mundo moderno, com conflitos e crises migratórias em seus estágios mais avançados, possa-se pelo menos abir os olhos do mundo de que não estamos no caminho certo e usar, todos os recursos positivos que a modernidade nos trouxe, para compartilhar conhecimento e não contaminar um número cada vez maior de pessoas, com a mediocridade. O quarto disco de One Direction está nos primeiros lugares de 83 de 100 países analisados. Nos anos 60 eram os Beatles de Lennon.


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